Moacyr Scliar, minha segunda mãe

Por Luiz Schwarcz


(Reprodução da página oficial de Moacyr Scliar)

Moacyr Scliar foi dos primeiros autores de literatura brasileira a se mudar para a Companhia das Letras, na época apenas uma pequena editora que recém começara sua trajetória, publicando quatro títulos por mês. Eu decidira que não começaria a editar romances ou contos nacionais enquanto não tivesse mais volumes para formar uma sequência, não queria que um livro saísse sem outros para acompanhá-lo. Por isso mesmo, não esperava ter grandes autores brasileiros logo nos primeiros anos da editora. Se não me falha a memória, o primeiro livro dessa linha que publiquei foi Garotos da Fuzarca, uma reunião de contos de Ivan Lessa, um grande escritor pouco reconhecido até hoje. A orelha de Van Gogh, do Scliar, foi o quinto.

Não posso esquecer do meu primeiro encontro com este grande nome da nossa literatura. A Companhia havia publicado perto de uma dezena de títulos e eu recebera um convite para dar uma palestra em Porto Alegre. Creio que fui para Porto Alegre no final de 1986, em meio à tradicional Feira de Livros da cidade, ou logo no início de 1987. Na hora em que entrei na pequena sala onde ocorreria o evento, Moacyr veio em minha direção e se apresentou, dizendo que queria me conhecer. Sem mais delongas, falou o que achava da Companhia das Letras e do meu trabalho, com palavras tão generosas que nem posso repetir.

Ainda não satisfeito, no meio da conversa com o público, Scliar discorreu sobre tudo o que me dissera antes, em especial sobre o fenômeno do sucesso do primeiro livro que publicamos: Rumo à estação Finlândia.

A partir desse dia Moacyr passou a ser o mais franco garoto-propaganda da editora. Em vários lugares que visitei, pelo mundo inteiro, havia traços da sua passagem, pois as pessoas me associavam com o editor jovem de quem ele sempre falava, que começara sua editora com um livro esquecido por muitos e que estacionou no topo da lista de mais vendidos por meses, de maneira inesperada.

Desde então, Moacyr  transformou-se em mais um desses “paizões”, dos quais tenho falado aqui no blog, que tive a sorte de encontrar pela vida. Mas não é só isso, ou exatamente assim: ele é tão fã da Companhia das Letras, tem sido tão prolífico em elogios, que a comparação que melhor lhe cabe é com uma mãe, uma mãe judia como a minha, que me deixa constrangido por falar incessantemente das proezas do filho.

Naquela ocasião, ainda em Porto Alegre, Moacyr disse, sem que eu perguntasse, que gostaria de editar seus livros pela Companhia das Letras, contando-me que tinha planos de escrever uma biografia de Oswaldo Cruz, e um romance sobre Getúlio Vargas. Acabou escrevendo romances em que os dois são personagens: Sonhos tropicaisEu vos abraço, milhões.

Publicamos na Companhia das Letras parte significativa da literatura de Moacyr Scliar. Uma das pérolas do nosso catálogo, que certamente encabeçará qualquer lista dos melhores livros da editora, em qualquer tempo, e constará sempre do cânone dos grandes livros da literatura brasileira, é seu romance Majestade do Xingu.

Enquanto estava em Nova York, nesses últimos meses, tive a péssima notícia de que Scliar sofrera um AVC e corria risco de vida. Desde então tenho ligado para Judith, sua mulher, praticamente todos os dias, pedindo notícias desse grande amigo escritor — Moacyr, a minha segunda mãe. Penso nele desde então, sem parar, me associo à sua perseverança, ao empenho de seus familiares, e vibro com qualquer boa notícia. Seu estado hoje é melhor, mas a evolução é lenta. Judith tem me dito:

— Moacyr está lutando, Luiz, está lutando.

Não sou uma pessoa religiosa, mas todas as rezas que aprendi de menino, as mesmas que Moacyr aprendeu, valem nesta hora. Penso nelas, e as recito para o grande amigo, com quem espero ainda ter mais tantas novas alegrias.

PS: Como escrevi antes, Moacyr viaja muito para dar palestras pelo mundo, e sempre que passa por São Paulo me dá um telefonema, do aeroporto. Estou esperando o próximo, querido amigo. Em breve espero atender o telefone,  às nove horas da noite, num sábado e ouvir aquela voz tão familiar:

— Oi, Luiz, aqui é o Moacyr, estou em Guarulhos em trânsito, na tua cidade, tchê….

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

22 Comentários

  1. […] minha vida de editor: dois editores (Caio Graco e Jorge Zahar), dois escritores (Rubem Fonseca e Moacyr Scliar) e um jornalista (Paulo Francis). No fundo, chamá-los de amigos é pouco. Foram pais, […]

  2. […] falava constantemente com Scliar, como os leitores deste blog sabem — ele foi dos grandes amigos que tive, desde o início da minha carreira […]

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