O final da história

Por Luiz Schwarcz

Na madrugada de hoje, Moacyr Scliar descansou, depois de cinquenta dias de luta pra viver — provavelmente para poder escrever mais livros, ajudar os amigos e amar seus familiares. Hoje, à uma hora da manhã, quando Scliar se despedia da Judith, do Beto e de todos nós, eu me encontrava no casamento de minha sobrinha. Casamento judaico, com tudo o que o caracteriza: solidéus brancos na cabeça dos convidados, a tenda que chamamos de hupá, as bênçãos do rabino, o copo quebrado pelo noivo com o pé, a dança com o casal erguido nos ares pelos amigos… Nesta madrugada, quando meu grande amigo Moacyr se despediu, eu dançava pela alegria da minha sobrinha Renata. Aquela bem podia ser uma cena de algum romance do Moacyr, a festa de casamento judaico, o narrador suado, dançando de braços abertos enquanto um de seus melhores amigos falecia.

Infelizmente a cena não será descrita por Scliar; mais nenhuma cena terá sua descrição generosa e precisa. Nenhuma surpresa saíra de suas mãos, e nós todos teremos que nos conformar com uma vida com menos imaginação. Se havia um quesito no qual Moacyr era mestre era neste: sua imaginação trabalhava sem parar, a serviço da alegria, ou vice versa. Scliar tinha um olhar único, com ele  criava um mundo fantástico no qual o humano estava sempre a serviço da literatura.

A cena do editor se divertindo, como manda a tradição, enquanto o seu grande amigo escritor falecia, bem podia ser obra do Moacyr. Seria tão melhor que assim fosse. Nas mãos do Scliar esta história teria algum final feliz, ou um desfecho tão engenhoso, que só ele saberia dar.

[Leia a coluna anterior de Luiz sobre o autor: Moacyr Scliar, minha segunda mãe]

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.