O final da história

Por Luiz Schwarcz

Na madrugada de hoje, Moacyr Scliar descansou, depois de cinquenta dias de luta pra viver — provavelmente para poder escrever mais livros, ajudar os amigos e amar seus familiares. Hoje, à uma hora da manhã, quando Scliar se despedia da Judith, do Beto e de todos nós, eu me encontrava no casamento de minha sobrinha. Casamento judaico, com tudo o que o caracteriza: solidéus brancos na cabeça dos convidados, a tenda que chamamos de hupá, as bênçãos do rabino, o copo quebrado pelo noivo com o pé, a dança com o casal erguido nos ares pelos amigos… Nesta madrugada, quando meu grande amigo Moacyr se despediu, eu dançava pela alegria da minha sobrinha Renata. Aquela bem podia ser uma cena de algum romance do Moacyr, a festa de casamento judaico, o narrador suado, dançando de braços abertos enquanto um de seus melhores amigos falecia.

Infelizmente a cena não será descrita por Scliar; mais nenhuma cena terá sua descrição generosa e precisa. Nenhuma surpresa saíra de suas mãos, e nós todos teremos que nos conformar com uma vida com menos imaginação. Se havia um quesito no qual Moacyr era mestre era neste: sua imaginação trabalhava sem parar, a serviço da alegria, ou vice versa. Scliar tinha um olhar único, com ele  criava um mundo fantástico no qual o humano estava sempre a serviço da literatura.

A cena do editor se divertindo, como manda a tradição, enquanto o seu grande amigo escritor falecia, bem podia ser obra do Moacyr. Seria tão melhor que assim fosse. Nas mãos do Scliar esta história teria algum final feliz, ou um desfecho tão engenhoso, que só ele saberia dar.

[Leia a coluna anterior de Luiz sobre o autor: Moacyr Scliar, minha segunda mãe]

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

26 Comentários

  1. Quando alguem que te fez bem resolve sair de cena, sem se despedir, brota um vazio dentro do coração que a gente não sabe explicar. Resta-me agora os livros do homem que tive o privilégio de conhecer, apertar-lhe a mão e confabular sobre a engenhosidade de seus textos. Na cabeceira da cama onde durmo repousa a mulher que escreveu a biblia ao lado da minha bela esposa. Agora, Moacir Scliar, meu pesar à tua família; aos que te estimam, me incluo aqui, e muitas saudades da tua leveza e humor no exercício de prosear.

  2. […] escrito por Luiz Schwarcz, no mesmo blog, ontem, a 27 de […]

  3. Poema Para Moacyr Scliar

    In Memoriam
    Morreu Moacyr Scliar
    E parece que foi já ontem
    Em que lhe enviei livros e versos
    E ele foi muito generoso comigo
    Um ilustre desconhecido…

    Morreu Moacyr Scliar
    Foi escrever prosa no céu
    Com sua alma e coração de ouro
    A pintar tantas brasilidades
    De suas diásporas íntimas…

    Morreu Moacyr Scliar
    Ficaram suas obras lindas
    E suas histórias cheias de vida
    Que ele juntava às suas
    Para curar, alvar os limbos…

    Morreu Moacyr Scliar
    E deixou-nos sua vida-livro
    Para cantarmos universos e prosas
    Todas as histórias do seu ser
    Como escritor brasileiríssimo…

    -0-

    Silas Correa Leite
    Santa Itararé das Artes/Samparaguai, Fevereiro 2011
    http://www.portas-lapsos.zip.net

  4. Daniel Aço disse:

    Como leitor do imortal escritor, escrevi um singela homenagem a ele.

  5. Marco Severo disse:

    Luiz Schwarcz, diga-me uma coisa (quem sabe numa futura crônica, mas eu realmente gostaria muito de saber): como você, enquanto ser humano, homem, editor, pai, marido, descendente de família judaica, lida com a perda de tantos escritores que, ao longo do tempo, se tornaram amigos e/ou com os quais você teve estreita relação, por um motivo ou outro. Penso agora não apenas no Moacyr Scliar, mas também em José Saramago, John Updike, Susan Sontag e creio eu, alguns outros que se fizeram tão próximos de ti. Como, tendo editado essas pessoas todas ainda em vida e se aproximado delas, você lida com o fato delas deixarem de existir em sua vida fisicamente?

  6. Rogério disse:

    Luiz,

    Meus sentimentos pela perda de um amigo. Queria eu ter tido o privilégio de ter sido seu amigo. Afinal, isso é o que mais importa: as boas lembranças e do quanto fomos agraciados por seres humanos como Scliar.

  7. Rogério Moraes disse:

    Meus sentimentos para a família. Perdemos um ótimo escritor e um excelente ser humano.

  8. Deborah disse:

    Moacyr, descanse em paz !!!

    Muito obrigada por ter existido e pela infinita e brilhante contribuicao a nossa literatura brasileira.
    Voce sempre estara entra nos.

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