Amaldicionário da Literatura Brasileira (parte I de III)

Por Joca Reiners Terron

Marcando o lançamento do selo Má Companhia, eis um dicionário deveras idiossincrático acerca da literatura maldita brasileira em três capítulos. Ó raios, que maldição!

AgrippinoJosé Agrippino de Paula representa a quintessência da maldição literária brasileira. Teve grana, amou uma das mulheres mais bonitas de seu tempo, depois pirou, empobreceu e acabou morrendo sozinho. Isso tudo apesar de ter meio que inventado o Tropicalismo com Panamérica, romance pop de 1967 (ou seja, publicado na hora certa) que poderia ter rodado mundo e determinado seu lugar no futuro. Também publicou Lugar público (1965), romance tão raro que consegue traduzir literariamente o caos urbano da cidade de São Paulo com técnicas do nouveau roman. Nada disso deu certo, e seus livros continuam na vala lamacenta destinada aos autores cult.

Borges – E o que Jorge Luis Borges faz num amaldicionário de literatura brasileira? Bom, a obra do grande argentino não fez sombra apenas em seus compatriotas, estendendo-se malignamente pro lado de cá e deixando marcas (complexo de inferioridade extremo) em parte significativa da produção literária brasileira dos anos 70 e 80. É a maldição do tango que contaminou o samba com arritmia. (Gabriel García Márquez causou semelhante epigonismo agudo, sobre o qual comentei aqui).

Brasil – É a razão de ser de toda a maldição literária brasileira. Um lugar lotado de mulher gostosa, ensolarado, com carne de vaca relativamente barata e praias (todavia, coliformes fecais e termotolerantes) não poderia gerar boa literatura. E não existe maldição superior a  essa. Somando-se ao cálculo a rede de dormir e a feijoada, então, e pronto: ninguém mais faz porra nenhuma. A poeta Elizabeth Bishop deu a deixa ao criticar Manuel Bandeira por escrever e se deixar fotografar deitado na rede, afirmando que nenhuma literatura digna de nota sairia de posição tão relaxada. Quem discordaria dela?

BrevidadeAugusto Monterroso afirmou que “o bom, se breve, duas vezes bom”. Mais problemático é identificar o que pode ser bom numa vasta produção obcecada pela brevidade e por sua contrapartida literária, o conto, ou pior, pela sua versão autoindulgente, o microconto, essa praga que amaldiçoa a literatura brasileira com rapidinhas e rasteiras anedotas de salão.

Campos – de Carvalho, não os Irmãos Campos (que, vá lá, já tiveram fase mais abençoada). O mineiro de Uberaba, esse sim, bebeu e se empanturrou de surrealismo e de literatura francesa. Conta da esbórnia: tornou-se dono de obra verdadeiramente maldita em âmbito nacional. Dúvida: ele merece isso? É claro que não: o autor de A lua vem da Ásia, tão cheio de graça, merece ser lido por multidões. Jorge Amado, que comprava seus livros às mancheias para presentear os amigos, sabia muito bem disso.

Catatau – Brincadeira fascinante com a linguagem realizada por um dos poetas mais populares dos últimos trinta anos, o romance de Leminski nunca passeou por aí como deveria ter passeado. Nisso, ficou restrito ao gueto dos leitores de poesia; ou pior, restrito ao gueto dos leitores dos livros de prosa escritos por poetas, que é habitado por um ou dois poetas que nem ao menos se olham a não ser se for pra se estapearem. Tristeza de maldição, essa.

DécioDécio Pignatari sempre foi o mala-mor entre os concretistas, mas também o dono da melhor prosa (tá, vamos descontar as Galáxias do Haroldão). Seus textos críticos eram plenos de verve e rebolado sintático. Seus livros de ficção, entretanto, (provavelmente devido à porra-louquice profunda de forma e de conteúdo, exceto talvez pelo romance Panteros) caíram no esquecimento sem nunca terem sido lembrados.

ExperimentalWilliam S. Burroughs afirmou certa vez que se algo era chamado de experimental só podia ser sinal de que a “experiência não dera certo”. De fato, tachar um livro de experimental é destiná-lo ao limbo no qual se encontram laboratórios explodidos e cientistas chamuscados, além de não fazer muito sentido numa época em que as conquistas da literatura pós-moderna estão incorporadas ao mainstream. Não, é claro, que os críticos se importem com isso.

Estilo – Grande maldição da literatura em língua portuguesa, praia pro tatibitate bacharelês se esparramar rotundamente, o estilo pode ser catástrofe maior se for confundido com escrever “difícil” (normalmente uma escrita romântica e pernóstica repleta de lirismo). Parte considerável da produção literária brasileira sofre dessa maldição que une idéias rasas à prosa complicada. Nesse aspecto a culpa é toda de Guimarães Rosa.

Ficção Científica – Uma literatura onde a presença da ficção de gênero (devemos também incluir o Policial nessa lista de ausentes) é tão inócua só pode ser amaldiçoada.

FragaFraga, Antônio, anarquista da malandragem, antecipador de João Antonio e suas artes de chutar tampinhas e perdigotar gírias, é que era maldito de verdade. Nunca assimilado, nunca lido, o autor de Desabrigo sabia enfiar o romantismo no saco junto do cavaquinho: “Ó lua cheia / cheia de graça / este teu bucho / tá repleto de cachaça”. Foi o primeiro (com Clarice e Rosa) a receber o epíteto de “post-moderno” por Oswald de Andrade, que afirmou: “O que há, não é post-modernismo e sim a nova literatura do Brasil”.

Tupi Continued…

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.