Brasília se desmancha no ar

Por Luiz Schwarcz


(Fonte: Moreira Mariz/Folhapress)

Abri a Folha de S. Paulo e tive um choque. Na capa do jornal, e também na capa da Ilustrada, Marshall Berman, que aportara no Brasil por Brasília, fazia gestos irreverentes contra os monumentos da capital e dava declarações críticas, muitas delas corretas, outras ingênuas, sobre a arquitetura da cidade, e o seu arquiteto Oscar Niemeyer. Berman aparecia em várias poses ― deitado na frente do Congresso, jogando seu livro para o alto na frente do Palácio do Planalto, abraçando a estátua da Justiça, e fazendo gestos em direção ao Memorial JK, que considerava horrível e sombrio.

Minha reação foi de pânico e desconforto diante da irreverência do autor. Imaginei que esse gesto destruiria a imagem séria de Tudo que é sólido desmancha no ar, que naquela ocasião já estava há trinta e sete semanas na lista de mais vendidos. Isto, porém, não aconteceu. O livro continuou vendendo e a visita de Berman foi um êxito tremendo, tendo a polêmica se estendido até os últimos momentos da estada do autor.

Tudo que é sólido foi o 5° livro publicado pela Companhia das Letras, por sugestão de Francisco Foot Haardman, que me falou da obra quando eu ainda estava na Brasiliense. Naquela ocasião, eu já sabia que sairia em breve de lá, e sonhava montar minha própria editora. Minhas relações com o Caio Graco deterioravam-se e Fernando Moreira Salles ― a quem fora apresentado por Mário de Andrade; grande amigo que já citei em outros posts ― me havia convidado para planejar um empreendimento editorial em conjunto.

Os problemas com o Caio se complicaram com maior rapidez do que os planos com Fernando, e eu acabei optando por sair da Brasiliense no dia seguinte à defesa da tese de mestrado da Lili; evento que eu não queria obscurecer com minha crise profissional. Saí sem saber ao certo se abriria mesmo minha própria editora, que acabou saindo do papel a toque de caixa, antes que as conversas com o Fernando tivessem evoluído o suficiente.

Na fase final da Brasiliense eu tentara convencer o Caio a publicar Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson, sem sucesso. A primeira sugestão para publicá-lo me chegara através do cientista político Paulo Sérgio Pinheiro. Depois disso inúmeros intelectuais e jornalistas proeminentes mencionaram o livro de Wilson para mim. Havia um consenso de que a obra era emblemática do que faltava em nosso mercado editorial, e sua ausência representava um atraso. O estudo de Wilson simbolizava para muitos o tipo de ensaísmo que não se realizava no Brasil, e sua forma narrativa se contrapunha à não ficção acadêmica francesa, que agradava muito na época e compunha o grosso do catálogo de traduções da Brasiliense. Mas Caio julgou que o livro era muito grande para os padrões da sua editora, e o crítico literário, pouco conhecido no Brasil. Guardei o fabuloso panorama do socialismo na mesma gaveta onde colocaria a sugestão de Francisco Foot, sem dizer a ninguém que já imaginava criar minha própria casa editorial.

Se não me engano, o livro de Marshall Berman, além de se encaixar perfeitamente na linha de não ficção narrativa que eu planejava como o carro-chefe inicial da minha editora, havia sido comparado por algum resenhista ao clássico de Edmund Wilson. Pensando sempre na continuidade e na coerência que os livros de um mesmo catálogo devem manter entre si, quando Foot me mostrou o exemplar que trazia consigo, eu agradeci, falando comigo mesmo: “Bingo! Berman combina com Wilson!”

Na época não podia imaginar que Edmund Wilson teria o sucesso que teve, que a editora sairia direto com um super best-seller e que a citação que unia os dois livros seria levada providencialmente à contracapa de Tudo que é sólido. Também não podia sonhar que os dois livros venderiam, no Brasil, dezenas de vezes mais que nos Estados Unidos.

Nos primórdios da editora, era eu mesmo quem visitava os principais clientes para oferecer os quatro livros que publicaríamos religiosamente todo mês, assim como frequentava as redações para divulgar os lançamentos. Numa visita à revista Veja fui chamado à sala de Elio Gaspari, que me conhecia dos tempos da Brasiliense mas com quem eu tinha pouco contato. Ele estava curioso para saber como eu descobrira o livro de Berman, que julgava um segredo bem guardado dos brasileiros.

― Foi o General Golbery, dono de uma vasta biblioteca, que me indicou este livro. É um belo livro,  mas julguei que ninguém conhecesse Marshall Berman no Brasil ― me disse o diretor da Veja naquela ocasião.

Dei os devidos créditos a Francisco Foot, celebrei com os meus botões aquela feliz coincidência, e me despedi pensando que o livro, que fora contratado como parte da linha de ensaísmo anglo-saxão que buscávamos construir (George Steiner, Christopher Hill, Raymond Williams, Keith Thompson e Eric Hobsbawm viriam a seguir), poderia ter carreira exitosa em terras tupiniquins.

Eu vivia o estouro inesperado de Rumo à estação e também, em menor escala, dos outros livros que inauguraram a editora. Mas não podia esperar que o livro do desconhecido professor do City College uma pouco badalada universidade pública de Nova York ―, alcançaria a vendagem que alcançou, e muito menos que Berman desembarcaria no Brasil semanas depois, realizando o happening de Brasília.

[continua semana que vem]

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.