Editando clássicos

Por André Conti

A Penguin foi uma novidade muito grande para a editora, e desde o início aproveitamos para testar uma porção de ideias na divulgação, no marketing, em vendas. Todos os departamentos foram incitados a bolar novos modos de trabalho, novos processos, enfim, estou evitando usar a palavra laboratório, mas é bem por aí.

Uma vez por semana, pessoas de todos esses departamentos se reúnem para conversar sobre a Penguin, traçar planos e ações. Cada um chega com sua pauta de propostas, sempre com um sentimento geral de que para trabalhar com clássicos é preciso apostar e arriscar, fora do habitual da editora.

Foi há umas duas semanas. O pessoal apareceu com umas ideias ótimas, e a reunião estava ficando animada. Coisas que sempre quisemos fazer, mas que o perfil de trabalho da Companhia não deixava, agora eram possibilidades concretas, e cada um foi colaborando com sugestões, apoiadas em pesquisa e trabalho duro.

Eu estava com o meu caderninho, cheio de ideias furadas e com nada que se equiparasse àquela torrente criativa. Duas ou três coisas sobre livros específicos, mas sem pensar no plano geral, como todos ali estavam fazendo. Conforme minha vez de falar se aproximava, fui rabiscando mais e mais planos inúteis. Falei das coisas específicas mas senti pelos olhares dos colegas que faltava algo. Tomei fôlego e propus, bravamente, uma coluna quinzenal para o blog da editora, chamada Editando Clássicos, que traria um pouco os bastidores da Penguin-Companhia, no limite do possível, bem como um apanhado dos problemas (e soluções, esperemos) que surgem durante a edição de um clássico.

Todo esse vigoroso nariz de cera, portanto, serve para apresentar este espaço aos leitores do blog. Pretendo falar não só do trabalho em livros específicos, mas também de coisas gerais, como a escolha dos tradutores, dos aparatos que vão acompanhar a obra, de volumes organizados aqui na editora.

O primeiro passo, no entanto, é a escolha de títulos. Normalmente, os livros chegam pelos agentes internacionais e nacionais, por indicação, por sorte, os caminhos de sempre. No caso de clássicos pré-Penguin, eles chegavam por acadêmicos próximos à editora ou pelos tradutores, quando são especialistas nesse e naquele autor. É um sistema que vem funcionando bem há vinte e cinco anos.

A Penguin exige um trabalho novo. Nos estrangeiros, começa no catálogo de quase dois mil livros da matriz. Selecionados os títulos, nova pesquisa, agora de clássicos já publicados no Brasil. É preciso avaliar as traduções existentes, o número de edições no mercado, a necessidade de existir ainda outra versão da obra.

Alguns desses livros têm dezenas de edições no Brasil, mas precisam ser editados mesmo assim. Como ter um selo de clássicos que não inclua Balzac, Proust, Maquiavel? Antes de editá-los novamente, portanto, também é preciso repensar a edição: o que a tornará diferente das outras? A tradução? Uma nova introdução, encomendada a um especialista? Ou resgataremos um texto clássico, porém esquecido, sobre a obra? Cada livro apresenta suas próprias respostas a essas perguntas.

O nacionais são ainda mais complicados. Com exceção dos volumes organizados por nós (seleções de contos, de peças etc.) e de algumas pérolas esquecidas, são livros de ampla circulação, com literalmente dezenas de edições, em alguns casos. De novo: não se pode ter um selo de clássicos que não inclua Machado e Lima Barreto, por exemplo.

Para que se tornem interessantes ao leitor, essas edições precisam trazer algo de novo sobre o livro, invariavelmente. Seja uma reinterpretação ou um trabalho de contextualização (nas notas de rodapé), é preciso que esses livros ofereçam uma visão diferente da que se tem da obra. Para tanto, o editor pode se rodear de bons especialistas, acadêmicos, enfim, alguém capaz de realizar essa leitura.

Do ponto de vista do editor, é um desafio e tanto. Cada livro desses vem com décadas e eventualmente séculos de leituras, e não quero ofender ninguém, deus me livre. Mas é também a oportunidade de realizar um trabalho diferente dentro do meu dia a dia, o que costuma ser bom. Só não me façam ler o Guarani de novo, por favor. E cuidado com o que você pede.

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
A partir de hoje, ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.