Marc, o anjo

Por Luiz Schwarcz

Goodnight, my children
(Foto por fallingwater123)

[Este post é uma continuação de “Brasília se desmancha no ar”]

Na época ainda não havia telefone celular, com o jornal na mão liguei para a casa de Matinas Suzuki Jr, meu amigo de longa data, editor da Ilustrada (hoje editor executivo da Companhia das Letras), e esbravejei:

― Vocês enlouqueceram, pedir para o Berman deitar na frente do Congresso, isso não se faz!

Matinas deu sua tradicional risada zen e me respondeu:

― Relaxa, Luiz, nós não o forçamos a nada, foi ele quem quis, não esquenta a cabeça. Vai dar tudo certo.

― Certo para a Folha ― eu contestei. ― Mas o livro é sério, e o que vocês publicaram não é.

A discussão poderia ter continuado, mas Matinas sabiamente desconversou.

Ele estava com a razão. Depois das fotos, Berman continuaria atacando Brasília, por livre e espontânea vontade, em todos os depoimentos que daria, com ampla cobertura dos jornais, dizendo que a cidade era bonita do alto, mas horrível vista do chão. A capital do Brasil representava para ele o modernismo imposto de cima para baixo, e a “ideologia comunista de Niemeyer expressava-se muito bem na sua arquitetura, tão compatível com o stalinismo quanto com uma ditadura na América Latina”. O pensador americano falou em Brasília, no Rio de Janeiro, em São Paulo duas vezes e em Campinas, na Unicamp.

Suas palestras e respostas às inúmeras perguntas das enormes plateias que superlotaram os eventos misturavam profundas reflexões sobre a escola de Frankfurt, críticas a pensadores como Harold Bloom e Frederic Jameson, com propostas para isenção de impostos a favor da cadeia de lanchonetes McDonald’s e para que bares e livrarias abrissem pontos em esquinas de Brasília. Era preciso dar “vida à cidade morta”, provocava ele.

Berman dialogou com intelectuais como Marilena Chaui, Nicolau Sevcenko, Francisco Foot Hardman, entre outros. As críticas, no entanto, não tardaram a aparecer. Lina Bo Bardi foi uma das primeiras a se manifestar, defendendo Niemeyer. Numa palestra super lotada no auditório da USP, o pensador norte-americano foi aplaudido e apupado, enquanto a arquiteta Regina Meyer, professora da FAU, pedia respeito em relação à obra do grande arquiteto brasileiro, sugerindo que Berman se aprofundasse mais antes de opinar.

Fiquei muito impressionado com a forma com que Marshall falava, sempre de olhos fechados, e com sua expressão sempre triste e soturna. Sua presença física lembrava um hippie dos anos sessenta. Um amigo meu, com ironia, disse que Berman parecia estar voltando a pé de Woodstook. Ele ia a todos os eventos com jeans surrados, sandália franciscana, a mesma camiseta e os cabelos desgrenhados. Trouxera poucas mudas de roupa para o Brasil e pouco se importava com isso. Sua presença, enorme, era antes de mais nada triste. Eu depreendera, a partir da leitura da apresentação de Tudo que é sólido desmancha no ar, que Berman passara por um enorme trauma familiar, mas até então não tivera a coragem de perguntar sobre o assunto.

Aqui no Brasil, e depois em uma longa visita que eu fiz ao escritor em Nova York, Marshall contou-me o seu terrível drama pessoal. Quando Tudo que é solido estava prestes a ser publicado nos Estados Unidos, a então esposa do autor, sofrendo de psicose aguda, atirou Marc, o filho de cinco anos do casal, pela janela, tentando em seguida se suicidar, sem sucesso. Berman se referia a Marc como um anjo. Não chorava ao falar, mas nem era preciso. Seu choro estava presente o tempo todo, ao cerrar os olhos para responder as perguntas do público brasileiro, que o recebeu como um verdadeiro ídolo, e na constante expressão de silêncio que entregava ao mundo. Para Berman, a vida se desmanchara no ar com a morte de Marc.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.