O militante da alegria

Por Luiz Schwarcz


Ilustração de Otávio Roth para a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Meus posts mais recentes têm sido over melancólicos. Peço desculpas aos leitores. Os últimos meses foram marcados pelas mortes de José Saramago e Moacyr Scliar, o que me fez sentir a falta de pessoas queridas, a vontade de reviver amores perdidos.

Dois livros que li recentemente tratam desse assunto de maneira magistral. São eles O diário da queda, de Michel Laub, que saiu esta semana, e A ausência que seremos, de Hector Abad, que publicaremos em junho.

Leiam! Os dois abordam com delicadeza o tema do amor paterno, ou melhor, o amor entre filhos e pais, e o luto da perda. Tudo o que eu gostaria de ter dito sobre o tema está lá. Pensei em descrevê-los aqui, mas não saberia fazê-lo. Vale apenas dizer que, quem não se emocionar com livros como esses, ou não gosta de literatura ou bom sujeito não é.

Por isso hoje prefiro lembrar de um momento singular da minha trajetória de editor, quando, como estagiário recém-chegado na Brasiliense, passei a ser chamado pelo Caio Graco a participar das reuniões que realizava com seu chefe de produção gráfica, o Antonio Orzari. Nesses encontros os dois decidiam questões relativas à tradução dos livros, às capas, e a todos os aspectos editorias dos livros que seriam lançados.

Era assim que faziam. A Brasiliense não tinha um editor, além do Caio havia apenas eu, que a princípio não passava de um estagiário da área administrativa, que, na entrevista inicial, se oferecera para trabalhar onde fosse necessário. De cara fui enviado para o almoxarifado: deveria racionalizar o estoque e o serviço de entregas da papelaria. A Editora Brasiliense saíra da concordata havia pouco e uma das estratégias adotadas para dinamizar as vendas da livraria e melhorar o saldo de caixa foi oferecer a entrega de material didático, a preços baixos, para funcionários de grandes empresas, nos mais diferentes pontos da capital paulista. A demanda foi alta e a Brasiliense não estava preparada para atender a tantos pedidos miúdos.

Na minha primeira entrevista, depois de um chá de cadeira de duas horas, disse para o Caio: “eu topo qualquer negócio. Um dia talvez possa te ajudar na área editorial, pois gosto muito de ler, mas preciso do estágio, e aceito o que você tiver para me oferecer”. Foi aí que ele logo pensou em me mandar para o primeiro andar, na seção da Dona Anita, chefe do almoxarifado, onde a coisa pegava fogo.

Quem me falou da Brasiliense foi Eduardo Suplicy, que até ligou para o Caio Graco na minha frente, para dizer que conhecia um rapazote que organizava as atividades culturais do Centro Acadêmico da GV e era monitor do departamento de Ciências Sociais.

— O garoto é legal e procura trabalho em uma editora, por seis meses, para obter seu diploma de administração de empresas.

Na época, Suplicy era o diretor do departamento de economia da faculdade que cursei, e meu vizinho de sala, quando eu trabalhava para os professores de sociologia, coletando dados ou simplesmente lendo livros da área e fichando as minhas leituras. Soube depois de alguns anos, pelo próprio Caio, que quando Eduardo lhe telefonou, ele disse, do outro lado da linha: “Caramba, Eduardo, cada uma que você me arruma. Ok, manda o menino aqui, converso com ele e vejo o que dá para fazer”.

Bem, eu lá já estava, enfurnado no primeiro andar, em meio a blocos de papel, caixas de canetas, lápis, frascos de cola branca, quando o Caio começou a me chamar para as reuniões no décimo segundo andar, e pedir minha opinião sobre as capas dos livros que seriam publicados, ou perguntando se eu conhecia novos tradutores para recomendar.

Foi assim que começou minha vida de editor: por uma área à qual ainda sou muito ligado, a do design gráfico. Levei capistas amigos para a Brasiliense, entre eles Otávio Roth, o Tatá. Foi dele o projeto da coleção Tudo é História e da segunda versão gráfica da coleção Primeiros Passos, depois da leva inicial, feita por Mário Camerini. A primeira trazia cadeiras, com trajes e objetos apoiados, simbolizando os temas dos livros. O projeto da segunda coleção tinha manequins com cabeças vestidas de várias maneiras. As duas séries eram muito coloridas, um pouco naive, mas com uma alegria e jovialidade inéditas no mercado editorial brasileiro.

Otávio, com Felipe Doctors, entre tantos outros capistas da Brasiliense, mudaram a cara das capas que eram feitas no Brasil. Mas Tatá morreu muito jovem. Era um militante da alegria. Sua versão em xilogravura da Declaração Universal dos Direitos Humanos é preciosa. Ele personificava — junto com o Caio Graco — o espírito do que foi a Brasiliense. Sua breve passagem pelo mundo editorial brasileiro representou uma pequena contribuição do jovem estagiário que começava a dar seus palpites e trazer seus amigos para a sala do chefe, onde, até então, ele se encontrava sempre sozinho, ou apenas com o responsável pela produção gráfica da editora que comandava.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

16 Comentários

  1. Édio Pullig disse:

    Caro Scharwz, você realmente tem razão sobre o mais novo trabalho do Laub, pois “quem não se emocionar com esse livro, ou não gosta de literatura ou bom sujeito não é”.
    Li no fim de semana o “Diário da queda” e o teu “Linguagem de sinais”. Gostei muito de ambos!
    Parabéns por ter escrito e editado obras tão maravilhosas!
    Um grande abraço,
    Édio

  2. Elianne Abreu disse:

    Luiz e cia, vocês já viram este vídeo?
    http://lauravive.blogspot.com/2011/03/como-se-faz-um-livro-em-1947.html
    Como se faz um livro- em 1947
    :)
    Abraços, Elianne

  3. Adriana de Godoy disse:

    Elianne, você é um doce.
    Sinto que enfrento o soldado porque a direitona no Brasil é particularmente torpe. Pessoas que abraçam o fascismo com carinhas de pastel e picolés de chuchu.
    Sou muito delicada e flor, mas às vezes meu lado Continental Op prevalece. É porque eu sou loira…rsrsrsrs…
    Mas não sou dessas que sai com molotov, bola de gude, o escambau. A violência me apavora também. Os punks são particularmente curiosos em manifestações. Eles sempre dão voadoras pra cima da polícia, têm prazer em bater no policial. Eu não tenho isso. É horrível o confronto. Uma vez eu caí no chão, durante um ato na Paulista, e um policial me levantou. E já vi policiais ajudando as pessoas, socorrendo. Há humanidade em todo lugar, e ela brota de vez em quando.
    Um beijo. Boa noite pra vc tb. Obrigada pelo carinho.

  4. Elianne Abreu disse:

    Adriana,
    você é mto jovem, sim- 36a- imagine se viver até os 80a, qtos anos terá ainda pela frente?! Muitos. Aliás, acho q todos aqui são muito jovens- eu sou a tia de todos.
    Você é interessante, parece tão doce e enfrenta soldados? jamais faria isso- sou medrosa.
    Bjs e boa noite, Elianne

  5. Adriana de Godoy disse:

    Oi querida Elianne,
    Você tão bondosa. Já sou velhinha, menina, 36 é uma idade considerável… rs. Por favor, gosto de me sentir assim, uma pessoa de idade respeitável…rsrs…percebi que quanto mais idade, mais livre a pessoa fica. Não tenho pressa, mas também não sou seduzida pela eterna juventude. Eu lido com jovens – como vc – e sei que são tão confusos, eu me lembro de quanto tinha 18, era praticamente um ser nulo de tanta timidez. Não tenho a menor saudade. Agora sou um desbunde total…rsrs. Não sei se vc leu a entrevista do Ubaldo, ele fala que depois de velho pode-se peidar à vontade que ninguém liga. Eu morri de rir. Mas é verdade. Fica-se livre.
    Obrigada pela consideração e por nossas conversas via blog e twitter. Um conto no Discurso sobre o Capim, “A quinta parede”, me lembra vc, com sua capacidade de romper barreiras e se comunicar. Você me guia algumas vezes, quando conversamos, e rompe. É bonito. Bjo.

  6. Adriana de Godoy disse:

    Oi Rogério,
    Obrigada por me considerar, fico até com vergonha.
    Já sei: vc gostou do pau que deu com a polícia em Brasília, né?! Imagina que o Suplicy também foi atacado por um cachorro, não se feriu, mas o terno dele rasgou e ele ficou vermelhíssimo. Ainda mais que provocou o maior fuá no mulherio. Eu me lembro de estar numa muvuca dos infernos entre o gás, a polícia e os punks voando sobre o Choque, quando uma amiga me puxou e me falou: vem ver o Suplicy sem roupa. Pena que não vi nada porque chorava copiosamente com o gás. Foi hilário. A mulherada gritava, belas pernas, senador. E ele pela hora da morte, encabulado até a medula. O povo dizia, pega leve, tão deixando o homem envergonhado. E daí, bonito é pra se ver, as mulheres retrucavam.
    Tenho mil histórias de enfrentamento com a polícia…rs. Tinha uma época que eu já deixava até roupa separada pra enfrentar o Choque, porque era pelo menos 1x por mês. Agora não vejo muitos jovens saindo de casa pra encontrar o Choque. Isso não deve ser boa coisa.
    Não peguei os anos de chumbo, tinha uns 9 anos quando acabou a ditadura – o Lula era meu herói, claro. Mas, cara, eu também amo Lobato e o Belloto foi dez. Gostei bastante da resposta dele. Abraços.

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