Por Que O Prêmio Jabuti Deveria Ter Categoria Quadrinhos ou Por Que O Prêmio Jabuti Não Deveria Ter Categoria Quadrinhos (1)

Por Erico Assis

(Ilustração por Tiffany Ard)

Na semana passada, o Prêmio Jabuti anunciou mudanças no regulamento para sua 53ª edição. Principal premiação do mercado livreiro no Brasil, o Jabuti passa de 21 para 29 categorias. As novas categorias são inéditas ― como “Gastronomia” e “Turismo & Hotelaria” ― ou resultado de quebras ― a antiga “Arquitetura e Urbanismo, Fotografia, Comunicação e Artes” agora passa a ser quatro categorias distintas, por exemplo.

Com uma revisão tão ampla no Prêmio, por que não uma categoria “História em Quadrinhos”? A pergunta é válida, mas não existe resposta que não cause polêmica.

É possível comparar as categorias do Jabuti às seções de uma livraria, e todas as grandes livrarias do país já têm seções de quadrinhos. Também pode-se compará-las ao catálogo das editoras, e um bom número de editoras brasileiras vem publicando quadrinhos, exclusivamente ou lado a lado com os concorrentes tradicionais do Jabuti.

Por outro lado, puristas dos quadrinhos defendem que o Jabuti é um prêmio literário e que quadrinhos não são literatura. São quadrinhos. Uma mídia própria, com narrativas baseadas na combinação de imagens estáticas em sequência e, geralmente, texto.

Como diz o jornalista e crítico de HQs Rodolfo S. Filho, se houvesse categoria de quadrinhos no Prêmio Jabuti, também deveria haver categorias de cinema e teatro. “Acredito que os quadrinhos são uma forma de expressão tão válida quanto qualquer outra, mas são uma forma de expressão em si. E é como tal que as obras devem ser avaliadas”.

Sidney Gusman, editor-chefe do site Universo HQ, concorda que não deveria haver categoria específica ― mas defende que quadrinhos poderiam concorrer nas categorias já existentes do prêmio, como ficção, não-ficção e outras. Parece ser o entendimento do próprio Jabuti, que em 2008 premiou a quadrinização de O alienista, por Fábio Moon e Gabriel Bá, na categoria “Didático e Paradidático e Ensino Fundamental ou Médio”. Foi a única vez que quadrinhos venceram.

Também do Universo HQ, o crítico Eduardo Nasi defende motivos pelos quais a categoria não existe. “O Jabuti é um prêmio de mercado ― que avalia critérios artísticos, sim, mas é de mercado. Então é natural que ele responda às demandas do mercado. De certa forma, são poucas editoras que lançam quadrinhos com consistência. E, tirando algumas poucas editoras, nas demais as HQs não são responsáveis por uma fatia grande do faturamento.” Nasi concorda que os quadrinhos deveriam concorrer em outras categorias.

Outras vozes, como a do editor da Balão Editorial Guilherme Kroll e do crítico de quadrinhos do site Omelete Hector Lima, defendem que a categoria deveria existir. “Se todas essas 29 categorias estão sendo lembradas, acho que quadrinhos também mereciam a sua. E essa discussão não passa pelo âmbito de HQ ser ou não literatura (o que particularmente eu considero que não é), mas é uma premiação de livros e os livros de quadrinhos estão cada vez mais presentes no mercado editorial brasileiro”, diz Kroll. “O Jabuti premia Gastronomia, Ciências, Direito, Psicologia, Turismo. HQs estão mais perto de Literatura que eles. Nem é discussão se HQ é Literatura. É que graphic novels são relevantes artística e mercadologicamente hoje no Brasil”, concorda Hector Lima.

Paulo Ramos, jornalista e crítico do Blog dos Quadrinhos, e Joca Reiners Terron, escritor tanto de livros sem figurinhas quanto de quadrinhos (além de colega de blog), juntam-se ao coro deste lado: dizem que não há dúvida de que a categoria deveria existir.

Contrários à categoria e seus defensores convergem quanto à finalidade mercadológica. “Do ponto de vista comercial, talvez seja interessante a inclusão de quadrinhos no Jabuti, mas isso é com os editores”, diz Rodolfo S. Filho. “Também acho meio um tiro no pé a categoria não existir, porque é uma área que ganha espaço na imprensa bem grande e generoso, então ajudaria a fazer ainda mais matérias sobre o mercado editorial, ajudando de repente a criar até uma cultura de best-sellers das HQs nacionais”, expõe Eduardo Nasi.

A discussão passa por outra pergunta: se houvesse a categoria “Quadrinhos”, haveria concorrentes o bastante?

O crescimento dos quadrinhos nas livrarias brasileiras é fortemente baseado em obras estrangeiras ― as quais o Jabuti só premia na categoria “Tradução”. E há autores brasileiros, como os já citados e premiados Moon e Bá, que publicaram seu último trabalho no exterior antes de lançar no Brasil ― o Jabuti exige obras originais por editoras nacionais.

Tendo por referência o catálogo da Livraria Cultura, não chega a 50 o número de quadrinhos nacionais lançados em 2010. Descontando republicações e coleções de tiras, o número fica pela metade. Descontando aquelas adaptações literárias que são mais “literatura ilustrada” do que propriamente quadrinhos, só se passa de duas mãos cheias sendo gentil. Para ser categoria do Jabuti, não seria necessário um manancial de concorrentes potenciais maior do que este?

O debate continua na próxima coluna.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

19 Comentários

  1. Arthur disse:

    Quer dizer que o O Alienista do Bá e do Moon é o equivalente brasileiro do Maus do Spiegelman. Que legal, hein?

  2. Carlos Campos Souza disse:

    Deveriam sim. Quadrinhos cresce no mundo todo e é reconhecido pela crítica. É mais que justo ter esta categoria.

  3. Penso que os quadrinhos tem o maior “custo benefício” para os jurados. Vamos combinar: muitos álbuns em quadrinhos não chegam a 200 páginas e a maior parte dos livros tem daí para cima.
    Claro que quem nunca lê quadrinhos pode se perder, estranhar, mas o que seria adicionar esta categoria no prêmio? Uma estatueta e 3 mil reais. E o que seria para os quadrinhos ter uma categoria no Jabuti? Um reconhecimento histórico como mídia de mercado por parte do mais conhecido prêmio brasileiro.
    É um passo mínimo para o Jabuti.

    Aliás, se as outras mídias reclamarem, por que não premiar livros de roteiros de teatros e filmes? Acho perfeitamente válido.

  4. Demorou pra colocarem essa categoria no prêmio. Isso aumentaria a produção de quadrinhos nacionais e aos poucos mais e mais gente poderia concorrer. É um incentivo necessário.
    Mesmo que os prêmios no Brasil não representem um aumento exagerado nas vendas – conforme disse Milton Hatoum – é necessário valorizar através do prêmio. A divulgação facilitaria o acesso, ainda que o institucional não tenha um impacto gigantesco.
    Os quadrinhos já sofreram tanto preconceito, que avançaremos em uma longa estrada até uma consagração mais ampla.
    Depois o povo torce o nariz pra algumas categorias e aí alguns “letrados” condenam o povo que não lê, que não é “ilustrado”, etc, etc. Humilhar o leitor com rótulos é fácil, difícil é promover um trabalho sério com os quadrinhos, uma arte fundamental.
    Pra mim, essa categora é mais que bem-vinda.
    Obrigada pelo debate.

  5. A grande questão das HQs não entrarem como categoria no Prêmio Jabuti é puro preconceito. Quadrinhos ainda é visto como “coisa de criança”. Prova disso é os “especialistas” da área dizendo que HQ não é literatura. Uma discussão parecida surgiu tempos atrás dizendo que quadrinhos também não era arte. Quando a gente imagina que essa visão foi superada, surge um formador de opinião desinformado pra regredir a mentalidade.
    Quer dizer que o livro de receitas da Ana Maria Braga pode ser premiado e uma obra como MSP 50, por exemplo, não pode porque “não é literatura”. Lamentável…

  6. luiz gustavo vilela disse:

    Bem, “Cachalote” é um livro melhor que “Leite Derramado”.

  7. Eu acho muito válida a discussão. Acho que seria muito bacana incluir a categoria HQs, mas concordo que a produção atual fica ainda a desejar em termos de volume. Acabariam premiando ao invés do melhor, talvez, o menos pior. Creio que antes de se pensar em premiar a categoria, ela deveria amadurecer. As editoras deveriam investir mais em projetos autorais seguindo o exemplo da Barba negra. Talvez o próprio prêmio jabuti possa alavancar essa produção. Sei que existem muitos artistas e escritores de talento para essa mídia e muitos saem de área, ou até mesmo do país, por falta de incentivo. Quadrinhos, no Brasil ainda é coisa de amador, quando você se profissionaliza, você sai do país. Lamentável!

  8. Marcos disse:

    Concordo com o Kroll e o Hector. O Jabuti não é um prêmio (exclusivamente) de literatura, e sim de livros. Se pode premiar melhor livro de Gastronomia, pode premiar melhor de HQ também.

    Quanto ao volume de trabalhos, acho menos importante que a qualidade. A cada ano saem ótimas obras originais por aqui. É só conferir os premiados no HQMix.

  9. Laís Tavares disse:

    Deveria ter sim, por que não? Excelente ideia. Além de dar mais visibilidade aos bons artistas já existentes, poderá estimular o surgimento de novos talentos a médio e longo prazo.

  10. Renan disse:

    Legal você colocar a questão aqui Érico, esse tema merece debate, é importante e complicado…

    Abraço!

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