Amaldicionário da Literatura Brasileira (parte III de III)

Por Joca Reiners Terron

[Leia as partes I e II do Amaldicionário.]

Marcando o lançamento do selo Má Companhia, eis um dicionário deveras idiossincrático acerca da literatura maldita brasileira em três capítulos. Ó raios, que maldição!

Quimera – O anseio literário costuma nascer desse aniquilante desejo de expressão subjetiva, invariavelmente descambado num sonho inatingível que, no início de uma manhã qualquer, metamorfoseia-se em Quimera mitológica, cuja bocarra só de caninos devora o escritor quando ele menos espera.

RawetSamuel Rawet, o autor de Abama (1964), Os Sete Sonhos (1967) e O Terreno de Uma Polegada Quadrada (1969), judeu polaco de nascimento, apóstata, homossexual, primeiro um engenheiro calculista na construção de Brasília, depois imerso na própria solidão nos subúrbios do Rio de Janeiro, explorou em sua ficção e ensaística embebidas em filosofia essa dupla condição estrangeira, de imigrante e homossexual. A novela que dá título ao volume de contos O Terreno… talvez seja um dos monólogos mais violentos jamais escritos em língua portuguesa (Começa assim: “— Merda, aqui não há uma explosão metafísica, sem uma outra, psicopatológica!”). Teve sua obra ficcional reunida não faz muito tempo, o que costuma ser raro com malditos desse naipe.

Realismo – Não existe coincidência alguma no fato de a quase totalidade dos textos e autores aqui listados serem trânsfugas de um realismo literário mais plano e conformado. Cito o argentino Marcelo Cohen, cujo ensaio “Como si empezáramos de nuevo — apuntes por un realismo inseguro” me parece bom parâmetro de reflexão: “Meditando sobre a técnica, lá pelos anos 20 Musil escreveu: Conquistamos a realidade e perdemos o sonho. Por um paradoxo cuja origem nos escapa, o relato de hoje, herdeiro de um sonho recente, pleno como um universo, reside num sonho moderado cujas repetições parecem dar o real como perdido”. Nesta época em que termos como “realidade expandida” se tornou um clichê, entretanto, não deixa de ser surpreendente a predileção do público (ou seria das editoras?) pelo romance de talhe decimonônico, linear e redondo. Assim, a ficção realista estaria assumindo sua condição de abrigo contra um mundo caótico e fragmentado, além de um espaço onde o ócio — por meio da extensão que esses romances têm — pode ser exercido num tempo onde não parece haver mais tempo? Fica a interrogação e a anedota, só aparentemente descontextualizada, retirada da orelha de Dia do Juízo (1961), romance do malucaço Rosário Fusco, outro maldito:

“Certa vez alguém perguntou a R.F. com irônica piedade pela vagarosa procura e diminuta audiência de seus livros:

— Por que você não escreve logo uma prosa linear, sem complicações, clara, direta, boa de ler, como as de Fulano e Beltrano, por exemplo? Eu, se fosse você, escreveria. Dá prestígio e dá dinheiro.

A resposta do escritor foi pronta e lógica:

— Aposto que eu não escreveria.”

Reinaldo – Moraes, claro, e a maldição do Reinaldão procede por três motivos: 1) Seu alter-ego Ricardo (o protagonista de Tanto Faz) importa a maldição (de baixo, de cima, de onde vem a maldição, do céu ou do inferno?) para a classe média (“O que acontece na frente do pênis? O que acontece atrás do pênis?”); esse movimento é inaugural na literatura brasileira, geralmente mais afeita ao maldito de extração lúmpen ou aristocrata decaído; 2) Contudo, Moraes é um sobrevivente de sua geração, um Keith Richards em melhor estado que sobreviveu a P. Leminski, Ana C., Caio F. e ao abecedário inteiro, conseguindo usufruir naturalmente (em vez de sobrenaturalmente) de sua obra ainda em andamento; 3) Sobreviver, claro, cobra suas tarifas, e uma delas foi a de permanecer quase trinta anos sem escrever, pasmado que esteve por todo esse tempo diante do umbigo da existência. Outro Reinaldo importante é Reinaldo dos Santos Neves ou Reinaldo dos Santos Never, tamanha a maldição desse capixaba que permanece exilado em sua própria genialidade lá pras bandas de Vitória (o que não deixa de ser irônico); autor de romances de alto nível de fatura e experimentação tais como As Mãos no Fogo (1984), A Longa História (2007) e A Ceia Dominicana: Romance Neolatino (2010), entre outros, Santos Neves é sempre temerário ao exigir inteligência demasiada do leitor contemporâneo: seu último livro, o recém lançado A Folha de Hera: Romance Bilíngue, cria uma estrutura na qual o romance fictício (?) The Alfield Manuscript, de Alan Dorsey Stevenson, é traduzido ao português por Reynaldo Santos Neves (sic): “será uma obra de literatura em língua portuguesa com uma “concessão” inglesa, como está sendo editada, ou de literatura inglesa com tradução portuguesa, já que o texto inglês precedeu o texto português? Ou, se ambas as coisas, então teríamos aqui um romance de dupla nacionalidade?” (excerto da apresentação). Rapaz, que amaldiçoada erudição!

Surrealismo – Quase não zaranzou por aqui, e que falta isso fez. Mas não sua facção bretoniana, mais política, metida e delirante (essa é bem representada por poetas como Roberto Piva e Cláudio Willer). Autores que tenham devorado a loucura divertida e desregradora dos sentidos de Apollinaire, de Jacques Prévert e de Benjamin Péret, por exemplo, a não ser por uma ou outra mastigação de Murilo Rubião (catolicão demais), Murilo Mendes (outro carolão, embora genial) e Oswald de Andrade (comunista alterado e loucão). É muito pouco, né. Todavia, houve um Campos de Carvalho, e isto talvez nos baste.

Sussekind & Sussekind – O que dizer de Carlos Sussekind que já não tenha sido dito neste perfil feito por André Conti & Vanessa Barbara?; ou então de livros como Ombros Altos (1960), Armadilha para Lamartine (1976) e Que Pensam Vocês Que Ele Fez (1994), a não ser WAKE UP, BRAZIL!? Carlos Sussekind precisa ser descoberto, lido e amado, pois é, senza dubia, um dos mais divertidos, líricos, elegantes, melancólicos e inteligentes escritores brasileiros do século 20 em plena ebulição no século 21. Assim sendo, pra que deixar pra lê-lo somente no século 22?

Uilcon – De superego ligado na literatura pós-moderna, o paulista Uilcon Pereira concebeu ao menos um feito, sua trilogia No Coração dos Boatos (composta pelos romances Outra Inquisição, 1982, Nonadas, 1983, e A Implosão do Confessionário, 1984, nunca foi reunida num só volume). Entrevista em formato pingue pongue que ao longo de três volumes cita, parafraseia, plagia e liquidifica trocentas referências numa variação sem fim de registros de linguagem que vão de crônicas de futebol e Homero, de Montaigne às Seleções do Reader’s Digest, da Bíblia ao caipirês do Vale do Jequitinhonha, necessitaria ser republicada para que sua literatura tão livre das relações de causa e efeito possa com efeito ser revista. Aqui, um bom artigo de Nilto Maciel sobre Uilcon.

Valêncio – Em meio à mesmice, ser dono de originalidade extrema pode atrair maldições implacáveis. Esse parece ser o caso de Valêncio Xavier, autor de O Mez da Grippe (1981), O Minotauro (1985), entre outras “novellas” e “raccontos”. Criador único, em sua exploração obsessiva da morte nas mais variadas encarnações (a morte coletiva, a morte individual, a morte na mídia, a morte anônima, a morte autoral, entre tantas mortes). Sua obra esparsa publicada ao longo das décadas de 80 e de 90 implora por publicação imediata. Está me ouvindo, Companhia das Letras?

WolffFausto Wolff ou Faustin von Wolffenbüttel escreveu um dos grandes romances brasileiros dos anos 90, À Mão Esquerda (1996). Coisa, aliás, que até mesmo o Jabuti percebeu, premiando-o. Porém muito antes disso, lá no início da carreira, Wolff publicou dois livrinhos que compõem a maior homenagem — pois caprichadas imitações de estilo e tema — que a obra de Campos de Carvalho poderia ter recebido, O Acrobata Pede Desculpas e Cai (1966) e Matem o Cantor e Chamem o Garçom (1976). Deste último o próprio imitado afirmou: “Diante das insólitas florestas pintadas por Franz Marc, criou Marcel Brion a expressão DEMÔNICO (tão diferente de demoníaco) para apontar a onipresença do Diabo numa obra de arte, na própria pessoa da artista. Pois estamos aqui diante de um livro demônico”.

X – da Questão: no Brasil maldição é regra, não exceção.

Y – Complicou.

Z – Zhe End.

Tupi Continued?

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.