Olivia em Quadrinhos

Querida Olivia,

Hoje você me deu um sorriso.

Cientificamente falando, foi queima de neurônios no tronco cerebral. Ou um espasmo involuntário. Depende de onde você lê. Você só tem quatro dias de vida, mas a gente gosta de atribuir sentido às caras, bocas e sons que você faz, meio por brincadeira, meio por auto-ilusão. Mas você arqueou a boca e os olhos. Sim, um sorriso com os olhos, completo, como a gente faz quando quer mostrar alegria sincera.

Dizem, Olivia, que toda vida é feita de vários pequenos momentos. Talvez a maioria das pessoas tenha na memória momentos completos, onde as coisas se mexem, têm cheiro, sons e gostos. Na cabeça do papai, estes momentos são imagens estáticas, cercadas por quatro linhas, sem cheiro, sem sabor e em silêncio. Papai lembra em quadrinhos.

É como a fotografia. Naqueles instantes congelados, há histórias que a nossa cabeça conta ou lembra. Às vezes a gente diz que vê, na cabeça, o que veio antes e o que veio depois desses instantes, ou preenche os espaços entre uma sequência de instantes congelados. Mas acho reducionista dizer que existe um “cineminha mental”. Acho que as boas fotografias, assim como os bons quadros nos quadrinhos, congelam uma fração singular do tempo que, mesmo sem movimento, conta uma história inteira – mas uma história que não se mexe, que tem antes, durante e depois contidos só naqueles traços parados.

Deixe que o mundo real se mexa. O grande diferencial dos quadrinhos, e das fotografias, está no fato de eles serem imóveis. Um momento eternizado, que acontece dentro daquelas quatro linhas.

Estou fazendo quadrinhos de você, Olivia. Alguns estão só na minha cabeça, como aquele em que você saiu da barriga da mamãe. Ou de antes, quando você deixava marcas ao chutar a barriga dela, de dentro para fora. A mamãe com você no colo, chorando porque eu coloquei “My Girl” para tocar. Você olhando para nós, no berço do outro lado da cama, ainda no hospital. Você cruzando os dedos sobre o peito, pensativa, cada vez que pegava o bico. Quando a sua cabeça saiu do corte na barriga da mamãe. A primeira vez que ficamos juntos, só eu, você e ela. A primeira vez no meu colo.

Mas outros quadrinhos eu ou a mamãe conseguimos registrar em foto. São eles que começam a formar a história mais importante que eu conheço:

Essa última é a do sorriso. Tudo que eu faço na vida, a partir de agora, é para ver ele se repetir.

Beijinhos,

Papai

* * * * *

A Olivia nasceu no dia 19. Tem 3kg, 49 centímetros e as minhas olheiras. No momento, está difícil falar ou pensar em outra coisa, então peço desculpas aos que vieram atrás de uma coluna só sobre quadrinhos.

Mas… ela não é a cara do Charlie Brown?

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

28 Comentários

  1. […] uma filha que está com três anos. Quando a Olivia tinha um ano, talvez antes, doutrinei ela a gostar de Meu […]

  2. […] adoro fazer. Como sempre, li menos do que gostaria, talvez até menos do que devia, mas tive uma justificativa forte e uma carga de trabalho que, bom, aí não tenho justificativa. Em 2012, como todo no-ano-que-vem, […]

  3. Alexandra Lima disse:

    Que texto emocionante… Meu filho já tem 12 anos, mas ao ler seu texto, todas as emoções dos meus primeiros minutos com ele, voltaram com força total, e lágrimas de alegria, claro.
    Muito obrigada e parabéns!

  4. Érico Assis disse:

    Eu e a Olivia agradecemos a todo mundo que comentou. E ela pede que acompanhem o http://twitter.com/garotazeitona

  5. Marcel Souza disse:

    Parabéns Érico! Que sorriso lindo que ela deu!!

  6. Éder Minetto disse:

    Érico, brilhante a forma como vc conseguiu descrever esse turbilhão de sentimentos que está vivendo agora, parabéns ao casal e tudo de bom.

  7. baita texto. parabéns!

  8. Alice Maia disse:

    Que linda e emocionante crônica!! Eu, como vó, compartilho a emoção de todos, pai, mãe e avós; não há como negar o sorriso da Olívia. Um beijão pra vocês.

Deixe seu comentário...





*