Os detetives congelados

Por Juliana Vettore

Minneapolis Police Detectives, 1903

Em novembro do ano passado comecei a participar do clube de leitura da Companhia. A iniciativa de criar esses clubes, dentro e fora da editora, surgiu depois do estágio que o Luiz fez na Penguin em NY, após a parceria Penguin-Companhia das Letras ter sido fechada – lá nos EUA, os “reading groups” são muito comuns, acontecem em quase todas as livrarias e em boa parte das universidades.

Aqui, o projeto tomou corpo no final de 2010 e, desde então, é coordenado pela Janine Durand e pelo Pedro Schwarcz. Os resultados não deixam de nos impressionar: em seis meses, foram criados treze clubes em cinco cidades do país (Brasília, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo).  A partir de maio, com grupos em Campinas e Porto Alegre, serão dezesseis.

Confesso que no começo tive certo preconceito em relação ao formato: falar sobre livros com pessoas do trabalho em um intervalo da rotina me parecia esquisito, nem trabalho, nem lazer.  Eu pensava — e, aqui, espero que meus colegas de clube não me entendam mal — “não sei se me interessa saber de um por um se tal livro agradou ou não e os seus porquês”. Temia que, por ser uma conversa informal, as pessoas desatassem a falar da trama e das personagens com intimidade reservada a assuntos pessoais. Em algum momento, imaginei, vai surgir aquele  julgamento “ela [personagem adúltera] não gostava do marido, por isso aconteceu o que aconteceu, tava na cara desde o começo que ela não prestava”.

No entanto, nas nossas reuniões, mediadas pela Vanessa Ferrari, temos conseguido fugir do tom personalista. Escolhemos trechos para serem lidos em voz alta e defendemos pequenas teses sobre temas tratados no livro. O Outros quartos, outras surpresas, de Daniyal Mueenuddin, rendeu ótima discussão sobre a situação da mulher em alguns países do oriente, e As viagens de Gulliver, que, a princípio, teve uma leitura pouco entusiasmada de grande parte do grupo, acabou por render uma aula do Matinas Suzuki Jr. sobre a importância dos escritos do Jonathan Swift na Inglaterra do século XVIII, sua linguagem e conteúdo radicais para a época. Todos podem sugerir títulos e, ao final de cada encontro, fazemos uma votação para eleger a próxima leitura — nos reunimos uma vez por mês, sempre às sextas-feiras.

Depois de um “lobby” feito pelo Pedro S., e com o meu apoio, o escolhido para o encontro de hoje é o Putas assassinas , do chileno Roberto Bolaño. A figura do poeta é bem recorrente nos contos reunidos nesse volume e, por isso, aproveitei para trazer o livro de poesia do Bolaño, Los Perros Romanticos, ainda não publicado no Brasil.

Poucos sabem, mas o renomado autor de Os detetives selvagens e 2666 foi poeta antes de prosador. Os detetives, presentes no título do romance que deu projeção internacional ao escritor, já aparecem em Los Perros Romanticos, numa série de quatro poemas sequenciados. Selecionei um, “Los detetives helados”, para encerrar essa crônica. Espero que os leitores do blog e meus colegas do grupo de leitura gostem.

Soñe com detectives helados, detectives latinoamericanos
que intentaban mantener los ojos abiertos
en medio del sueño.

Soñe com crímenes horribles
y com tipos cuidadosos
que procuraban no pisar los charcos de sangre
y al mismo tiempo abarcar com una sola mirada
el escenario del crimen.

Soñe com detectives perdidos
en el espejo convexo de los Arnolfini:
nuestra época, nuestras perspectivas,
nuestros modelos del Espanto.

[Para inscrever-se em um dos clubes de leitura, escreva para clubedeleitura@penguincompanhia.com.br]

* * * * *

Juliana Vettore é jornalista e trabalha no departamento de divulgação da Companhia das Letras desde 2007.

15 Comentários

  1. Apreciei muito o seu texto. Parabéns!!!
    Muito bem escrito, fluente e objetivo. As informações, que tinha a seu respeito, eram as melhores possíveis. Confirmadas pelo seu texto. Brilhante!
    Também, Juliana, fiquei muito interessado em participar do Clube de Leitura. Mas, para mim, só poderia ser mesmo em São Paulo (Capital), porque tenho uma vida assaz atribulada.
    Mande-me, se possível, informações sobre.

    Abraços.

  2. Édio Pullig disse:

    Juliana,

    Obrigado pela resposta.

    Abraços e boa semana!

    Édio

  3. Juliana Vettore disse:

    Olá, Édio e Nara,
    a Janine Durand pode passar a vocês todas as informações sobre os clubes do RJ e de Campinas. Basta escrever para clubedeleitura@penguincompanhia.com.br

    Abs, Juliana

  4. Édio Pullig disse:

    Olá, Juliana.
    Fiquei super-interessado nesses clubes de leitura. Onde são feitas as reuniões aqui no Rio? Poderías me informar, por favor?
    Abraços,
    Édio

  5. Nara disse:

    Como faço pra ficar sabendo do clube de leitura de Campinas? Obrigada!

Deixe seu comentário...





*