Pós-Bolonha

Por Júlia Moritz Schwarcz


Mural na entrada da Feira de Bolonha.

Cheguei com as panturrilhas doloridas. Juro. Andei tanto pela Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha que não devo ter ficado longe de completar uma maratona. Foi assim…

Depois de quase um dia de viagem — avião, ônibus, trem, táxi, exatamente nessa ordem —, cheguei no meu quarto de hotel; havia saído de casa umas 19h da noite anterior e já eram 20h passadas. Chuviscava e fazia frio. Desacostumada a ficar sozinha, acabei desistindo de caminhar uma quadra até a cantina Snoopy, apesar do nome brilhante. Era domingo e a partir do dia seguinte teria nada menos do que 38 reuniões nas próximas 72 horas, uma rotina até tranquila em se tratando de uma feira, me disse meu pai.

Senti o clima profissio-internacional já no café da manhã: aquele monte de gente animada, bem-vestida, falando alto em línguas diferentes. “Preciso passar batom”, pensei, lembrando da recomendação da minha mãe de não usar jeans nos encontros.

Pedi ajuda ao concierge do hotel, que gesticulava, gesticulava, mas não conseguia acertar a direita e a esquerda de jeito nenhum, e foi incapaz de me ensinar como chegar à feira. Bom, eu tinha o Google Maps e não precisei de mais de 7 minutos, a pé. Esse caminho de ida e volta me acompanhou prazerosamente nos próximos quatro dias: seguia por uma via de bicicleta, passava por um parquinho infantil, um cruzamento de avenida e mais vinte passos, pronto. Nessa primeira manhã, sentia o ar gelado na cara e um frio na barriga. “Que raios eu vou falar com todas essas pessoas?”

Lá dentro, eram cinco pavilhões com muitos, mas muitos estandes — só de editoras de livros infantojuvenis. Tinha os alemães modernos e esquisitos; os italianos espalhafatosos e escandalosos; os indianos ultracoloridos e brilhantes; os franceses descolados e finos; os lituanos, grandes homenageados do ano e um tanto quanto indefiníveis, os americanos, bem americanos. Vi montes desses estandes na primeira manhã, que deixei estrategicamente livre. Gastei quase uma hora em um espaço coletivo que o governo de Taiwan montou para promover a sua literatura infantil, lendo alguns dos livros que tinham tradução, decifrando outros, adorando as ilustrações e sendo assediada por editores em busca de negócios. “I’m the editor of Muji Muji, nice to meet you, Brazil.”

Este é o intuito da feira: compra e venda de direitos. Não há livros para se pagar e levar para casa, estilo Bienal. Em Bolonha, os livros estão expostos para que os visitantes (que são, em 99,9% dos casos, profissionais do ramo) os folheiem, e depois, nos encontros, conversem sobre a compra dos direitos para traduzir e publicar a obra em seu país. No caso dos países “ascendentes”, como o Brasil, normalmente os editores vão para comprar, enquanto que os europeus e americanos investem pesado no departamento de vendas, importando pouquíssimos livros de outras nacionalidades.

Quanto aos encontros, foram, para mim, um verdadeiro festival da troca de cartões de visita. “Hi, I’m Júlia, I have a meeting with Sam/ Elinor/ Joanna/ Sarah/ Greg/ Wang/ Maheena/ Anne-Marie…”. As frases se repetiram bastante, porque eles sempre queriam saber “o que estamos procurando”, e a minha resposta não costumava variar. Depois de um “E este livro aqui?”, eles tiravam um exemplar do carrinho ao lado da mesa, ou da estante logo atrás. Algumas pessoas narravam as histórias do começo ao fim, enquanto outros, cansados de tanta repetição, se limitavam a virar as páginas, esperando uma reação. “Ah, c’est mignon!”, eu disse mais de vinte vezes. No começo achava difícil dizer um NÃO cara a cara com a pessoa que tinha acabado de me contar toda a história de um livro com grande animação. Mas, depois do septuagésimo-oitavo título que me era apresentado, e sabendo que vinham uns mil pela frente, saí dizendo “este não é para nós” com toda a naturalidade.

Cada encontro dura meia-hora, sem nem um minuto de folga entre um e outro. É dizer “bye-bye, very nice to meet you” e sair correndo atrás do próximo estande, H29/ A114, ou qualquer coisa do tipo. Se alguém é mais ágil e o encontro acaba uns cinco minutos antes, é a grande chance de correr para o banheiro.

De noite, ainda tinha os jantares. O ponto alto foi a turma dos brasileiros, editores, autores e ilustradores, todos muito simpáticos, felizes por estarem viajando, comendo um prato de massa em uma cidade tão bonita, e muito animados para um sorvete italiano.

Foram poucos dias totalmente recheados de acontecimentos, pessoas e coisas novas. E eu voltei para casa feliz por ter vivido, por uma semana, uma vida completamente diferente da minha.

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

12 Comentários

  1. […] de muita experiência — com quem partilhei um dia e três refeições e me diverti muito. Se em Bolonha me lembrei de passar batom para me sentir mais madura, desta vez até pintei as unhas, e aproveito para agradecer o marido, […]

  2. Ufa! que beleza vc conseguir dar conta do recado com tanta leveza.
    Bom fazer o que se gosta e dá para sentir que vc sente-se à vontade no métier.
    Tantos livros bonitos para crianças hj…
    Um abraço, Elianne

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