A palestra que não será

Por Luiz Schwarcz

Há dois anos fui convidado para fazer uma palestra em Barcelona no Master Internacional en Edición da Universidat Pompeu Fabra. No convite, que chegou por email ― e explicava quem havia me precedido na tarefa e a importância desse curso que recebe alunos de 12 países diferentes ―, li que o evento aconteceria em junho. Não prestei muita atenção na data completa, aceitei na hora, e passei a discutir que semana daquele mês, no ano seguinte, me seria mais conveniente. Foi quando me disseram que o convite era para 2011, e não 2010, como eu, distraído, imaginara. Nunca havia sido convidado com tamanha antecedência para nada. Disse que, claro, sendo assim qualquer semana servia; topei honrado e feliz o convite. Hoje, ainda honrado, mas menos feliz, penso no que vou falar no dia 22 de junho que se aproxima.

Não gosto de falar em público, cortei completamente da minha vida as conferências em universidades e congressos, mas tudo o que cercava essa palestra ― até a enorme antecedência, tão chique ― me levou a aceitar o convite. Pois agora cá estou eu, pensando no que falar, arrependido por ter ouvido aos anseios do ego e cedido à tentação de encaixar uma viagem para Barcelona, bem no meio do ano, na minha atribulada agenda. Provavelmente o que querem é que eu, como um velho editor, dê conselhos práticos a jovens que sonham com a carreira: exemplos, histórias que estão por trás dos livros que formam o catálogo da Companhia das Letras. Talvez esperem, também, auto-elogios discretos, alusões ao mundo digital, um pouco da futurologia bem própria às pessoas que trabalham sempre imaginando o que acontecerá com livros ainda não escritos, traduzidos e lançados.

Fiquei, no entanto, com vontade de fazer algo diferente; aproveitar o ensejo e parar, pensar e escrever umas páginas caprichadas sobre o ofício de editor, algo que também pudesse ser lido ― e que, portanto, deveria ser bem escrito.

Pois o que vem a seguir é o esboço dessa palestra que não será, um pouco do que eu gostaria de falar, mas que certamente não é o que minha plateia deseja ouvir.

Escrevi um livro infantil, talvez o mais desconhecido dos que publiquei, chamado Em busca do Thesouro da Juventude. Dedicado a Jorge Zahar e Caio Graco, meus mestres, o livro, apesar de ser minha primeira tentativa de escrever ficção, traz uma explicação ao final, na qual relato ao leitor como tudo aconteceu, e o que está por trás daquela história. Essas explicações ao final são um vício de editor que não consigo evitar, uma forma de me desculpar pelas ficções cometidas em meio à minha vocação principal de leitor e editor. Neste livro eu conto que, lendo a coleção Tesouro da Juventude ao lado da cama da minha mãe, onde ela convalescia das inúmeras tentativas frustradas de ter mais filhos, nasceu o editor. Nasceu também quando, no final de uma aula, um professor ginasial parou a leitura do conto “A nova Califórnia” de Lima Barreto no ápice da trama e disse:

― Amanhã conto o resto.

Naquela noite, depois de voltar para casa com o conto interrompido na metade, mal consegui dormir, tamanha a minha ansiedade para conhecer o final da história. Durante aquelas horas, em que não pude fazer outra coisa a não ser pensar no conto interrompido, até a leitura final do professor (que só aconteceria no dia seguinte), a minha cabeça foi tomada pela  imaginação: eu tentava acabar o conto que não escrevera. Essa espera, assim como o silêncio que eu ouvia no quarto da minha mãe, nas longas tardes em que me sentava no carpete e lia fábulas recontadas para meninos, ou seguia os jogos e verbetes daquela enciclopédia peculiar, de encadernação azul, podem ter sido dois momentos crucias para que eu viesse a trabalhar com livros e ser o que sou.

O que melhor caracteriza um livro é a solidão que o cerca. Estou convencido de que não há experiência mais silenciosa e solitária do que escrever. Antes de publicar algo o escritor fala apenas consigo próprio, com personagens que existem exclusivamente em sua imaginação, por meses, ou anos. Falar sozinho talvez seja o mais dramático sintoma de solidão. Quando vejo alguém andando na rua, gesticulando e argumentando consigo próprio, sinto compaixão e melancolia profundas, e imagino que muitos que me leem agora sentem o mesmo. Pois escrever nada mais é do que falar sozinho. Até a publicação.

Os momentos de densa privacidade que antecedem a edição de um livro só se comparam à solidão dos personagens e dos leitores. Imaginar um personagem é destacá-lo do grupo, é preencher o vazio com alguém naturalmente só, pois para existir como ficção o personagem tem que estar só. Mesmo nos momentos em que a ação é coletiva, para ser descrito o personagem é separado, transformado em figura singular. Assim se justifica que grande parte dos personagens mais importantes da literatura sejam seres solitários, ou apartados da vida , gauches, exilados, desenraizados, párias. Mesmo em um enredo em que tudo dá certo ― se é que isso existe ―, ou em que a ação e o drama são essencialmete coletivos, o personagem literário existe por ser singular, diferente do resto ― ou não é personagem, ou não estamos falando de literatura. Um óbvio mas bom exemplo é a declaração de orfandade de Mersault, logo nas primeiras linhas de O estrangeiro, de Albert Camus: “Hoje minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”.

A leitura também se realiza apenas no momento em que descansamos da vida social, em que optamos pelo silêncio. A solidão do autor termina na do leitor, num encontro apenas imaginário, sem contato físico, sem tato, sem cheiro ou calor. Escritor, personagem e leitor só não são completamente solitários por estarem sempre acompanhados um pelo outro. No mais são como as pessoas que vemos andando na rua, falando com os braços, mexendo os lábios no ar, revertendo a melancolia desse gesto radicalmente triste em alguma forma de arte ou em exercício da imaginação.

É nisso que tenho pensado ao me imaginar em Barcelona. Isto é, em como algumas características biográficas me habilitaram a entender a solidão.

Esse seria o começo da minha palestra. Seria, mas não será.

Na semana que vem eu conto o resto. Ou não.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.