As janelas das princesas que passam roupa

Por Carol Bensimon

Outro dia a Júlia Schwarcz disse que os livros infantis costumam ter muito mais garotos protagonistas que garotas protagonistas. Quando li a coluna, me lembrei do trecho de um documentário, o do pôster simpático aí do lado, em que uma pessoa analisa ilustrações de livros infantis ao longo da história e chega à conclusão que os meninos são representados fazendo uma porção de coisas — jogando bola, correndo e etc — enquanto as meninas usualmente olham pela janela. Então eles mostram desenhos de meninas olhando pela janela, um atrás do outro, diferentes paisagens, diferentes janelas, a menina olhando, até que o espectador fique realmente deprimido.

Há um outro trecho de que me lembro muito bem, e vou descrevê-lo para depois partir para uma reflexão literária meio leviana. Vemos uma loja de brinquedos. Primeiro, visitamos a seção para meninos, depois a seção para meninas. Nas duas ocasiões, o vendedor está mostrando para a câmera as opções de brinquedo para cada um dos sexos. Na seção dos meninos, há dinossauros, caubóis, astronautas, super-heróis, piratas, carrinhos. É bem comum — diz o vendedor — que os meninos misturem todos esses universos na mesma brincadeira. Na seção das meninas, há basicamente princesas e cozinhas em miniatura. Com variações sobre o tema, claro. Do tipo barbies e pequenas tábuas de passar. A menina brinca — diz o vendedor — com um universo bastante limitado, que com frequência é uma representação do universo materno. Então ele mostra as fantasias. Para os meninos, há todas aquelas coisas que citei ali em cima, e mais uma infinidade de “papéis” possíveis. Para as meninas, princesas, princesas, princesas.

Não quero ser psicanalítica demais, até porque deve existir mais ou menos um milhão de estudos sobre isso, mas a figura da princesa é a figura mais passiva do mundo, esperando que o macho enfrente o dragão, parada, olhando, como a menina da janela.

Tenho certeza que isso faz com que existam muito menos mulheres artistas e, especificamente, muito menos mulheres escritoras. As grandes figuras femininas da arte, elas nunca se enquadraram com perfeição no papel que a sociedade lhes reservou, e isso frequentemente explica suas trajetórias. É incrível como, por outro lado, hoje você vê muito mais mulheres do que homens em eventos culturais de qualquer natureza, mas, de novo, elas estão lá como espectadoras. Passivas. Princesas.

No ano passado, quando o prêmio São Paulo de Literatura anunciou seus finalistas, todo mundo ficou surpreso com um fato: dos 10 escritores da categoria romance de estreia, 8 eram mulheres. O meio literário queria achar uma explicação para isso. Lembro que perguntaram minha opinião e eu disse: se a quantidade de mulheres na categoria estreante significa alguma coisa, a completa falta delas na categoria dos autores “consagrados” (10 homens) também significa alguma coisa. Alguma coisa muito mais importante, provavelmente. E a cereja no topo do bolo da história foi que um homem acabou vencendo a categoria de romance de estreia, arruinando completamente as teorias de quem via aquilo como uma grande conquista feminina.

Conclusão: dê uma nave para as meninas brincarem.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

30 Comentários

  1. […] falar do que não entendo. Na verdade será mais um comentário sobre uma bela matéria que me foi indicada por um amigo. Esse sim, pode falar por conhecimento de causa, pai de um típico […]

  2. […] um do outro), ocorre que a caixinha rosa é muito mais apertada que a caixinha azul. Em um post de 2012, fiz algumas considerações sobre isso, evocando cenas do documentário La domination masculine […]

  3. Meissa Queiroz disse:

    Uma coisa que ainda me chateia é essa forçosa separação dos gêneros, definindo de antemão o que é adequado para meninos e meninas. Quem disse que todo menino gosta de brincar de super herói? Brincar de cozinhar é enfadonho para uma menina mais ativa. Espero que essa barreira em “coisas de menino e de menina” seja quebrada e que elas possam passear mais livremente entre super homens, bolas de futebol e dinossauros.

    Quanto às bonecas barbie, é uma imagem que fica muito enraizada nas mulheres. Elas continuam nas capas de revista. Todas com maquiagem perfeita, roupa da moda e sem atitude nenhuma. São bonitas e basta. Triste mesmo ter esse modelo passivo para as meninas que precisarão do dobro de atitude e agressividade dos homens para alcançar posições mais altas no mercado de trabalho.

  4. Denise disse:

    Adorei teu comentário, Francine! É muito comum, principalmente em homenagens ao Dia Internacional da Mulher e ao Dia das Mães, ouvirmos elogios do tipo “ternura, paciência, tolerância, carinho, cuidado” como atributos do feminino.Esquecemos que as grandes transformações da história só ocorreram com as características também femininas: garra, coragem, verdade, persistência, agressividade,justiça,compaixão, força, LIBERDADE e, além de tudo, o verdadeiro e único poder:O PODER DO AMOR!

  5. Maurem Kayna disse:

    Puxa, me senti menos “alien” agora. Já tentei argumentar sobre isso tantas vezes com meus amigos / amigas / conhecidos e colegas que de tanto passar por chata e planfletária, meio que desisti. É impressionante como as próprias mulheres não fazem essa análise de sua história e usam isso para não repeti-la com seus ou suas descententes e para questionar os scripts que vivem achando que estão escolhendo quando, na verdade, estão só cumprindo um roteiro pré-definido. Felizmente tive uma família com idéias menos óbvias e ganhei muitos livros (não apenas ilustrados), carrinhos e outros tipos de brinquedo além das tradicionais “barbies” (aliás, tinve uma Susi esportista…). Acordemos, para que o mundo não seja apenas cor-de-rosa, mas de todas as cores que a natureza e a química conseguem produzir.

  6. Excelente! Lembrei do “Um teto todo seu”. Obrigada pela reflexão brilhante!

  7. Rogério disse:

    Francine,
    Concordo com seu comentário. Mas a parte que pegou do meu não foi uma opinião minha, foi um dado estatístico.
    Eu não sou da opinião de que as mulheres devam ocupar cargos subalternos. Até porque, preciso citar meu caso, do cargo que ocupo, até o topo, todas são mulheres e ressalto, gosto pessoal e profissionalmente de todas elas. Sem puxasaquismo. Reconheço a competência que tem para ocupar esses cargos.
    Carol, se meu comentário pareceu machista, grosseiro ou outra coisa dessa natureza, desculpe.

  8. Rogério Sallaberry disse:

    Interessantíssimo. Eu proponho que se vá a seção infantil de uma loja de departamentos e tente, e eu já tentei, comprar uma roupa neutra, que não contenha estampas masculinas e femininas, como os ex. citados acima (futebol, princesas, etc.). Tarefa árdua.

  9. Oi Carol!

    Parabéns pelo texto. Vou tomar a liberdade de dar uns pitacos a partir de alguns comentários.

    Sobre o que a Ana Maria disse “A mulher passiva, ao contrário, pode conseguir tudo o que quer sem precisar fazer nada: o outro faz por ela.”: quem é esse outro? Concordo que contemplação é diferente de submissão, mas passividade não é o mesmo que contemplação. Sobre esse outro que “faz por ela” fiquei pensando nas milhões de empregadas domésticas (a maioria de origem pobre e negra) que possibilitam que as mulheres de classe média priorizem a carreira e tenham seus momentos de contemplação.
    Ainda sobre o que a Ana Maria falou “a necessidade de trabalhar, buscar filho na escola, ir ao mercado, negociar com o gerente do banco, levar filho na festinha de aniversário do amigo, fazer ginástica, limpar a casa (ou contratar alguém)” Oras, o estresse desse acúmulo de tarefas vem do fato que ainda não há divisão de tarefas entre o casal em muitas famílias de classe média. Permanece a visão de que tudo que é relacionado ao ambiente doméstico e aos filhos (levar e buscar as crianças nos lugares, limpar a casa, etc) cabe a mulher. Quando ela não consegue, contrata outra mulher para realizar parte dessas tarefas.

    Sobre as meninas aceitarem livros com personagens masculinos e os meninos resistirem a histórias com meninas, creio que esse comportamento vem também do fato que crianças repetem a visão da sociedade de que aquilo é feminino é inferior. Mulheres vestindo terninho e tailleur são poderosas, afinal são peças que vieram do guarda-roupa masculino e olha só, representam poder. Homens usando vestidos só pra rir no Carnaval. Felizmente de vez em quando vem um Laerte pra bagunçar as coisas.

    Sobre o que o Rogério disse “são maioria nas profissões onde lidam com pessoas: médicas, professoras, pedagogas, psicólogas etc e são minoria nas áreas que lidam com objetos e sistemas:engenheiras, analistas de sistemas. Porque elas escolheram essas profissões, não acredito porque esperavam princípes encantados vindos do departamento de engenharia ou porque brincavam com bonecas.”: as profissões ligadas ao cuidar são frequentemente associadas ao “feminino”: pensamos em enfermeirAs e médicOs, professOr universitário e professorA do ensino fundamental. E se olharmos o número de mulheres entre diretores de hospitais e reitores de universidades, xi….É porque elas não querem esses cargos de chefia? Ou porque ainda há barreiras para seu acesso? O poder ainda é visto como masculino? Veja bem, poder lembra força, agressividade. Não vejo vantagem em continuar repetindo para as meninas que são qualidades femininas a doçura, a contemplação, a diplomacia, já que nunca vi ninguém derrubar barreiras sem um pouco de agressividade. Cabe as mulheres zelar pelo fofura no mundo? Francamente. Quando tivermos igualdade de gênero nos altos cargos financeiros e políticos (que afinal, no mundo de hoje decidem o destino de homens e mulheres) aí sim poderemos parar pra olhar pela janela.

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