Atividades sórdidas e desprezíveis

Por Érico Assis

Aos cinquenta e seis anos, o Comics Code Authority teve morte fria, solitária e quase imperceptível em fevereiro último. Conhecido como Código de Ética dos Quadrinhos, era a autoridade responsável por controlar o conteúdo dos gibis nos Estados Unidos, garantindo o entretenimento sadio e inócuo perante pais, crianças e donos de bancas. Seu fim foi recebido com a típica reação reservada a instituições arcaicas e celebridades que não se renovaram: “Ainda existe?”.

A DC Comics, casa-editora de Batman e Superman, anunciou em janeiro o abandono do CCA. O selo de aprovação do Código, símbolo de que havia passado por um rigoroso controle de censores invisíveis, era estampado na capa da maior parte das revistas da editora nas últimas cinco décadas.

No dia seguinte, a Archie Comics anunciou que também abandonaria o selo. Modelo da virtude puritana, seu personagem-título, o colegial Archie Andrews, passou 60 anos indeciso quanto a namorar a amiga loira ou a morena. Assim que decidiu (pela morena), tomou a decisão temente ao Código: casou-se. Apesar da nova liberdade perante as regras do bom-mocismo de gibi, não deve mostrar cenas da lua de mel tão cedo.

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Em 1954, os Estados Unidos viviam um dos momentos de maior popularidade dos quadrinhos. A circulação das revistinhas, mal impressas e ao custo de 10 cents, chegava à casa das dezenas de milhões. Com pouco menos de duas décadas, a mídia era uma febre entre crianças e adolescentes, num mundo sem computadores, videogames e ainda poucos aparelhos de televisão. Os maiores sucessos eram as histórias de crime e terror.

Foi o mesmo ano da publicação de Seduction of the innocent (A sedução do inocente). O livro do psiquiatra Fredric Wertham foi a epítome do repúdio aos gibis no país. Wertham dava razão aos pais, professores e clérigos que já vinham denunciando as revistinhas como instrumentos de sexualização precoce, incitação à delinquência juvenil e prejuízo à boa formação moral.

Para o psiquiatra, havia homoerotismo claro e nocivo na relação entre Batman e Robin. A Mulher-Maravilha, sempre às voltas com inimigas que a amarravam em poses sugestivas, simbolizava as taras sexuais (o que seu criador William Moulton Marston confirmaria, aliás). Superman, o homem melhor que os outros, só poderia estar estimulando impulsos fascistas. “Aquele S grande no uniforme — devíamos, creio eu, agradecer que não é um S.S.”

Wertham municiava um movimento que naquela mesma década já provocara a prisão de donos de bancas — por venda de material impróprio —, a promulgação de leis municipais e estaduais contra a comercialização de quadrinhos e, mesmo à sombra recente do nazismo, fogueiras para queimar gibis. Os incêndios organizados eram promovidos pelas escolas, que congratulavam o civismo do aluno que trazia sua própria coleção e a dos vizinhos. Serviu de iniciação política para vários baby boomers. E, como mostra A guerra dos gibis, de Gonçalo Junior, respingou até no Brasil via Reader’s Digest.

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O quiproquó chegou ao Senado, num comitê especial para tratar das causas da delinquência juvenil. Wertham depôs em audiência, como especialista no assunto, e trouxe exemplos lúgubres da depravação e do sadismo nas revistinhas. William Gaines, proprietário da EC Comics — a editora que concentrava as maiores vendas e as maiores críticas, por seus gibis de crime e terror — foi a voz de defesa da indústria. Seu desempenho, porém, não convenceu.

Às pressas, os donos das principais editoras da época reuniram-se em Nova York para montar a Comics Magazine Association of America. A associação criou as regras do Código de Ética e fez questão de propagandeá-las tão logo quanto pode. A ideia era mostrar que o mercado faria sua autorregulamentação antes que a censura viesse de cima.

Em 31 artigos, o Código mirava claramente os gibis de crime e terror, além da temática sexual. “Quando representados crimes, estes devem ser tratados como atividades sórdidas e desprezíveis”, diz um dos artigos. Mais: “em qualquer instância, o bem deve vencer o mal e os criminosos devem ser punidos por seus delitos”. Para deixar claro quem é o bem e quem é o mal, “policiais, juízes, representantes do governo e instituições distintas nunca devem ser representadas de forma a promover desrespeito para com estas autoridades estabelecidas”.

Para arrematar: “Perversões sexuais ou qualquer sugestão das mesmas são terminantemente proibidas” e “fêmeas devem ser desenhadas de forma realista, sem exageros quanto a seus atributos físicos”.

Todas as editoras deveriam enviar seus quadrinhos, antes da publicação, para serem revisados por um comitê cego. Caso se quisesse o selo de aprovação, a mocinha tinha que usar sutiã e a história acabava em beijos virginais — depois, claro, do mocinho entregar o bandido à altiva força policial. Bancas não vendiam quadrinhos sem o selo, e algumas gráficas recusavam-se a imprimir material não-certificado.

Enquanto isso, quem tinha televisão era agraciado com um episódio de Confidential File, espécie de Globo Repórter de 1955, dedicado à praga dos quadrinhos. Nas cenas dirigidas por Irvin Kershner — que, anos depois, dirigiria O Império Contra-Ataca —, um grupo de crianças envolve-se num ritual sádico de provocação e tortura após ler os maléficos gibis (assista aqui).

É de se imaginar como seriam os gibis hoje — um mercado de pouco mais de US$ 400 milhões nos EUA, nem 5% do que representa a venda de ingressos de cinema no país — se Wertham e o Comics Code não tivessem existido. Fosse ainda relevante ou não, é de se comemorar o apagamento do maldito selinho.

[Continua na próxima coluna]

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/