Liberdade à propinquidade

Por André Conti

A convivência com tradutores é muito importante para o dia a dia na editora. Conhecer os gostos, estilos, manias e defeitos de cada colaborador é a melhor maneira de saber com que tipo de livro ele vai se dar bem. Há tradutores com mão para livros teóricos, biografias, ensaios. Outros que se dão bem exclusivamente com ficção. E mesmo em cada gênero, há subdivisões: se for uma ficção labiríntica e enciclopédica, vai para um tradutor. Se for mais lírica e poética, outro. Se for urbana, carregada em gírias, de diálogos ágeis, um terceiro. Isso sem falar em poesia, divulgação científica etc.

Há tradutores especializados — que trabalham com apenas um autor, por exemplo —, e outros que transitam por diversos idiomas e gêneros. Ninguém vem com bula, infelizmente, e descobrir o estilo de cada tradutor é algo que leva tempo. E por mais que troquemos e-mails, telefonemas e nos encontremos, é só na leitura de uma tradução que essas características se tornam mais evidentes.

De modo que, quando passei o Liberdade, premiado romance de Jonathan Franzen, ao Sergio Flaksman, sabia que a tradução ia ficar boa. Trabalho com o Sergio há quase seis anos — todo meu tempo de editora —, e sei o quanto ele se dedica a cada livro. E o Sergio já encarou o As correções, romance anterior do Franzen, e conhece os cacoetes do autor, os parágrafos intermináveis, os trocadilhos intraduzíveis.

Mas eu já tinha lido o Liberdade no ano passado, e sabia que ia dar um trabalho imenso. A cada parágrafo, dezenas de orações coordenadas sem conectivos, caminhões de pronomes e advérbios, um fuzuê de nomes científicos de aves e plantas. Fora a trama, que avança e volta no tempo, muda de tom, o diabo. E o tradutor, além de se preocupar com tudo isso, ainda precisa traduzir o livro em si: acertar a voz do narrador, a cadência das frases, o jeito de falar de cada personagem, o senso de humor, o drama. E descobrir como diabos se chama um cerulean warbler em português. Pra mim, é tudo “passarinho”.

Quando recebi a primeira parte da tradução, alívio. O Sergio acertou a mão no livro, estava tudo lá. As várias armadilhas que me deixaram sofrendo por antecipação haviam sido resolvidas. Tanto que, nessa segunda leitura, passei a gostar ainda mais do livro, me envolvi com os personagens, enchi o saco de deus e o mundo falando da Connie Monaghan, minha coadjuvante favorita. O texto tinha passado pela preparadora, então li a tradução acompanhada das sugestões e dúvidas dela. É uma negociação tripla: a voz do autor, as opções do tradutor, a leitura da preparadora. Experimente acordar indeciso.

As pessoas costumam associar edição à correção de erros gramaticais e ortográficos, mas a verdade é que os tradutores derrapam muito pouco na gramática e na ortografia. Algumas coisas de sentido acabam passando — ainda mais num livro de seiscentas páginas —, mas o grosso do trabalho é adequar o texto ao original. Uma tentativa (eternamente frustrada) de recriar em português a experiência que o leitor do original teve. É necessário, portanto, adaptar o vocabulário e a sintaxe: as palavras precisam pertencer ao mesmo universo semântico, ou seja, a frequência de uso na língua e o significado precisam ser os mais próximos possíveis, e o registro do narrador tem de ser o mesmo.

É aí que as pessoas discordam, claro. São envolvimentos diferentes com o livro. O tradutor passa meses debruçado, faz pesquisas, consulta colegas e amigos, recorre centenas de vezes ao dicionário. O preparador tem três, quatro semanas para cotejar o original, ver se o tradutor não pulou alguma linha, checar nomes de pessoas, lugares, manter a coerência interna do texto, acertar pontuação, levantar dúvidas, descobrir o nome do cerulean warbler (é mariquita-azul). E o editor tem duas semanas para ler as duas versões (integradas num mesmo documento de Word), bater com o original, resolver e levantar dúvidas, importunar um monte de gente.

Mas a diferença de tempo não se traduz numa escala de propriedade sobre o texto (partindo do pressuposto que o texto é do autor). E todos esses leitores, e mais os dois revisores, apontam questões pertinentes, bolam soluções miraculosas, fazem essa e aquela frase funcionar direitinho. Mas também podem errar, se confundir e perder referências, portanto essas leituras precisam se complementar de alguma forma, atendendo ao original. É um processo quase sempre pacífico, mas aqui e ali as visões sobre o texto simplesmente não batem. Quantas amizades não foram ceifadas pelo mais antigo (e pertinente) dos argumentos: “Esse personagem nunca falaria assim.”

Terminei a leitura mas senti que tinha deixado passar alguma coisa, então pedi à Maria Emilia, diretora editorial e fã do Correções, que lesse também. Enquanto isso, o Sergio relia o texto com as minhas anotações e as da Lenny, a preparadora. No fim, incorporei as sugestões do Sergio e da Maria, repassei as emendas, e esse é o texto final. Gostei demais do resultado: todo mundo se envolveu e foi atrás de soluções que dessem conta de um original denso — a história se passa ao longo de quarenta anos — e intricado, já que as próprias vozes dos personagens vão sofrendo mudanças ao longo da narrativa.

Nesse meio tempo, continuei conversando com o Sergio, que além de colaborador de longa data da editora, é também meu amigo. Já fizemos altas caminhadas pelo Rio de Janeiro falando de ficção científica e edição de dicionários (ele foi da equipe original do Houaiss), mas também já tivemos vários arranca-rabos de trabalho. O Sergio é muito zeloso de suas traduções, um pouco territorial às vezes, e briga até o fim quando acha que está certo. Numa das trocas de e-mail, ele desconfiou que a Maria ia mudar uma palavra em específico, a temida “propinquidade”, que significa “proximidade”, e que gerou uma longa e aguerrida discussão por e-mail.

O argumento do Flaksman era que “propinquity” era tão obscura e pouco utilizada em inglês quanto “propinquidade” é em português. Isso é um problema comum: o inglês tem mais vocábulos, o que o torna uma língua bastante específica, e somos obrigados a recorrer a termos mais abrangentes. Nesse caso, não havia consenso. Caí na besteira de apontar que, no Google, havia apenas oito mil ocorrências para “propinquidade”, enquanto “propinquity” batia nos duzentos mil. Claro que não se decide uma coisa dessas pelo Google, estava só tentando apontar um dado, enfim, mas claramente escolhi a hora errada e sobrou pra mim também.

Nem sempre é fácil encarar tudo profissionalmente, então ainda trocamos uns tantos e-mails de paz — o meu era bem cafona —, sobretudo porque estávamos apenas fazendo nosso trabalho. No volume final, nada disso estará aparente. Para quem lê, espero, prevaleceu o Franzen, e o livro tem engenho o suficiente para obscurecer esse trabalho todo. Outros colegas da editora já estão lendo e gostando, e todos os comentários foram sobre os personagens (“Pobre Walter Berglund!”) e sobre a história — ninguém se importa com nosso sofrimento. E quem chegar mais ou menos na metade do livro vai se deparar com a inexorável propinquidade, claro. Às vezes você ganha, às vezes você perde.

* * * * *

André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

31 Comentários

  1. Maria Luiza Newlands disse:

    Isso é que é levar o trabalho (maravilhoso) a sério, admitir os erros publicamente e corrigi-los na impressão seguinte.
    Ainda não li mas já gostei.
    Abraços e parabéns de novo.

  2. admin disse:

    Henrique, Anna, Andre: já foi lançada uma nova reimpressão que corrige os erros que, infelizmente, saíram no lançamento.

  3. Para começo de conversa: obrigado Cia das Letras por publicar este livro fantástico. De fato, o livro do ano.

    Sobre os erros de revisão, realmente existem. Inclusive resenhei o livro este mês no meu blog e não pude deixar de comentar. Isso QUASE atrapalha a leitura. Só não acontece porque grandes livros são imunes até más traduções. (alguém aqui pensou em Martin Claret?).

    confiram> wwww.culdesacblog.com

  4. anna v. disse:

    Concordo com o comentário do Andre. Independente da qualidade do livro e da excelência da tradução, estou chocada com a quantidade de erros de revisão. Também tenho vontade de abandonar a edição brasileira e ler o original em inglês.
    “Patty umas roscas velhas e virou algumas páginas…” (p.129)
    “… sabendo deviam ter dito a elas” (p.99)
    “… continuou em renovando até se ver na calçada” (p.85)
    “Patty sobiu as escadas correndo e eles começara a gritar” (p.33)
    “devido a uma vida inteira de trabalhos forçados a que fora perigada por seu pai bêbado” (p.23)
    “espetáculos de mágia” (p.21)
    E outros que não tive a pachorra de marcar.

  5. Andre disse:

    O livro é maravilhoso, mas é extremamente decepcionante deparar com tantos e tantos equívocos de tradução E de revisão. Exemplo: “terem constituído um vinculo constituído uma ligação” – pág 223. É um dos grandes livros da década, mas minha vontade – ainda estou na metade – é jogar meu recém adquirido exemplar em português no lixo, e adquirir o original em inglês.

  6. Silvia disse:

    Olá André…
    Eu devorei o livro e ao chegar a última página tive uma frustação: passei pela PROPINQUIDADE sem notar! Liberdade me envolveu de tal forma que não vi a palavra e agora folheio o livro sem conseguir achá-la.
    Por favor me ajude, se puder, me dizendo em que página encontrá-la.
    Obrigado e parabéns pelo seu trabalho!!!!!

  7. […] de falar de algo chamado Freedom. Não é um discurso pacifista, nem uma impressão sobre o livro do Franzen. É um software disponível para PC e para Mac, que recebeu essa alcunha por razões óbvias: […]

  8. […] os interessados em tradução literária, sugiro a leitura de um ótimo texto do André Conti, sobre o processo de tradução/edição do livro Liberdade, do Jonathan […]

  9. Renata Guerra disse:

    Companheiros de pedreira, em meus anos de enciclopedista (fui editora-assistente da Nova Enciclopédia Barsa), quando tinha de pular do verbete “espaço-tempo” para “espada-de-são-jorge” sem cair do cavalo e sem perder a pose, descobri uma técnica para a tradução de nomes vulgares/nomes científicos de plantas e bichos. Desculpem-me os que a acharem óbvia. Você tem lá no original um raccoon, para dar um exemplo simples, e digamos que vá ao dicionário e não encontre nada. Ponha raccoon no google e virão resposta em inglês, algumas delas com o nome latino do bicho, no caso, Procyon lotor. Aí põe Procyon lotor e pede respostas em português. Escolhe uma resposta que pareça confiável e lá está: guaxinim! Não é infalível, mas com um pouco de bom senso ajuda bem.

  10. Maria Luiza Newlands disse:

    Concordo com o Flaksman: não se mexe na propinquidade alheia.
    E sorte de vocês existir a mariquita-azul e o nome vulgar do pássaro não ser vulgar. Já precisei batizar espécies de acácias africanas – com o apoio moral de uma especialista do Jardim Botânico do Rio, graças a Deus.
    Abraços e parabéns a todos pelo trabalho maravilhoso.

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