Os Kikos Marinhos e os fungos alucinógenos da leitura

Por Joca Reiners Terron

Recordo perfeitamente a primeira vez que entrei num sebo. Eu devia ter uns 12 anos, dois a menos do que nessa foto aí de cima, e foi em Marília, interior de São Paulo, onde minha avó calabresa Maria Spina vivia às turras com meu avô espanhol Juan José Terrón Fernández. O sebo ficava em frente ao extinto mercado municipal da rua 9 de Julho e cheirava a peixe. Não me lembro se pertencia a um japonês, mas creio que sim. Quem me acompanhava a contragosto naquela tarde era o Nando, meu irmão do meio (Paulinho, o caçula, só iria nascer em 1979). Eu tinha lhe prometido comprar uns Kikos Marinhos que viviam e cresciam e se reproduziam orgiasticamente em colônias nos aquários grandões do mercado em frente, mas ao chegarmos lá um vendedor de bigodão tentou me vender os Kikitos num envelope.

— É assim mesmo — ele disse. — Eles vêm nesse pozinho branco aqui dentro que você joga na água e só depois é que eles crescem. Daí nasce braço, perna, cabelo etc, parece gente, só que pequenininha. Tó, leva, tá barato.

O Nando acreditou, eu meio que acreditei (na época era muito zeloso com minha mesada e por isso resolvi ir embora; eu, na verdade, acreditei por muitos anos que os Kikos pareciam gente de verdade, e quando alguns anos depois estreou na TV a série O Homem do Fundo do Mar, cheguei a pensar que o ator era um Kiko Marinho que tinha crescido demais porque alguém o alimentara com carne crua — era, ao menos, o que o bigodudo tinha afirmado). Ao irmos embora, descobri o sebo.

Eu tenho uma teoria sobre o amor pela leitura que venho desenvolvendo ao longo dos anos e que tem a ver com Kikitos Marinhos, vendedores bigodudos, mercados municipais extintos e sebos mofados e que envolve meus irmãos Nando e Paulo e que agora vou tentar explicar, mas meio rapidinho, pois tô atrasado pro cinema e minha mulher tá me olhando feio, ok? Agradeço a compreensão. É o seguinte: naquela tarde o Bigode contou a lenda dos Kikos Marinhos com uma riqueza de detalhes e com tamanho colorido que assombrou a imaginação do Nando pro resto da vida (e a minha, que até hoje tô lembrando disso, sendo que talvez o Nando não lembre mais — mas disso eu duvido).

Depois daquilo, o Nando sonhou a infância toda em ser caminhoneiro (pra viver aventuras por aí e tal) e vendedor, o que na verdade ele é, e genial (se formou em veterinária e representa um laboratório de produto médico pra bicho). Contudo, imediatamente depois de o Bigode nos contar daquele jeito maravilhoso sobre a vida dos Kikitos e tal, eu entrei num sebo fedorento arrastando o pobre Nando pela mão e lá fiquei durante umas 3 horas. O Nando era alérgico. Ou é o Paulinho que é alérgico? Enfim.

Eu fiquei lá, fascinado com aquela montanha de gibi velho, virando e revirando pilhas de O Samurai, Combate, Kripta, Raio Negro, Mandrake, O Fantasma, aqueles gibis da Ebal, da Vecchi, da Edrel, da Editora Outubro etc, enquanto o Nando espirrava e sonhava com Kikitos Marinhos fazendo sexo em miniatura. Bem, aqui entra minha teoria particular sobre a leitura: fascinado pela destreza oral do Bigode, o Nando acabou nunca lendo um livro, pois duvidava que algum deles pudesse encerrar histórias tão boas quanto aquela contada pelo vendedor. Já eu acabei sendo exposto ainda na infância aos fungos alucinógenos que nascem no meio das páginas de livros e gibis velhos. São fungos altamente tóxicos, minúsculos, que nascem da tinta impressa na microtextura das páginas úmidas e contaminam o leitor pela boca (os dedos passam neles e depois vão pra boca), mas também pelos olhos. Esses fungos são mais poderosos que o L.S.D., e proporcionam “viagens” inesquecíveis. Mas tem um problema: eles viciam.

Então, quando voltávamos pro Mato Grosso (só íamos a Marília nas férias pra visitar meus avós), eu ficava pelos 11 meses seguintes cerca de 2 mil quilômetros distante do sebo mais próximo, mergulhado numa síndrome de abstinência que me fazia sonhar com um sebo gigante em forma de labirinto onde eu me perdia em meio a uma profusão de milhares de páginas multicoloridas de gibis raros, fotonovelas italianas, enciclopédias estrangeiras, folhetins pulp, livros da Melhoramentos e da Saraiva, além de centenas de revistas de mulher pelada (eu tinha 12 anos e já não era de ferro). Quando acordava, porém, não havia sebo algum, e os livros mais à mão eram novinhos, daqueles da Ática ou da Ediouro e do Círculo do Livro que meu pai comprava pelo correio, sem fungos alucinógenos entre suas páginas recendendo a tinta molhada. Era terrível, como vocês podem imaginar.

Ainda minha teoria do gosto pela leitura: meu irmão Paulinho (que hoje em dia é jornalista e edita a Rolling Stone) fuçou desde cedo os meus gibis velhos. Resultado: viciou-se incorrigivelmente em fungos alucinógenos e viagens ficcionais literárias, ao contrário do Nando, que permanece um conversador irremediável. Mas não se preocupem, pois minha síndrome de abstinência teve um final feliz: em poucos meses nos mudamos pruma cidade um pouco maior onde existia um colégio enorme de padres salesianos. E lá havia uma biblioteca bem parecida com o sebo dos meus sonhos.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.