As leituras inconfessáveis

Por Joca Reiners Terron


Borges e sua irmã Norah, em 1908. (Colección Jorge Luis Borges; Fundação San Telmo)

A origem do gosto pela leitura é um grande mistério, principalmente se depender da sinceridade do leitor que a confesse. Depois de adquirir certo status, tornando-se o leitor profissional que todo escritor é obrigado a ser em temporadas de dureza (que podem levar a vida toda), raramente alguém confessa o endereço da nascente, preferindo mascará-la ao citar autores que não comprometam a qualidade desse “prestígio” tão frágil.

Por isso é bastante comum encontrar poetas que se apaixonaram pela poesia ao ler Baudelaire aos sete anos de idade, além de romancistas mirins que espoucaram a cilibrina enquanto gargarejavam o monólogo de Molly Bloom no original etc. É verdade tida como biográfica em casos como os de Jorge Luis Borges ou Fernando Pessoa, privilegiados por sua condição familiar (estrangeira e anglófona em ambos, além de burguesa). Mas na maior parte não passa de deslavada mentira, equivalente a comer o Frangolino dos desenhos da Warner e arrotar o Peru, de Gordon Lish — um peru bastante literário, portanto.

O caso de Borges é sintomático de certa assunção aristocrática do leitor. Bilíngue de berço devido à ascendência da família paterna (sua avó, Fanny, era natural de Staffordshire), o grande argentino temperou contos, poemas e ensaios com a influência recebida da literatura clássica de língua inglesa. No final da vida, quando já estava cego, os espetáculos de Borges pelas academias do mundo incluíam o momento apoteótico no qual recitava poemas em inglês arcaico memorizados na juventude ao ouvir seu pai, um erudito advogado e professor de psicologia, recitá-los.

Borges e sua literatura, apesar de pertencerem cronologicamente ao século 20, são frutos do 19 (e, em alguma medida, do 18, graças às imitações juvenis de Wordsworth). Em Ensaio autobiográfico, ditado em inglês a seu tradutor Norman Thomas di Giovanni (publicado pela New Yorker em 1970 e depois utilizado como prefácio à edição americana de O Aleph), Borges enumera suas primeiras leituras: Twain, H.G. Wells, Poe, Longfellow, Dickens e Dom Quixote — todos em inglês, incluindo este último. “Quando mais tarde li Dom Quixote na versão original, pareceu-me uma má tradução”, afirma.

É curioso que Roberto Arlt, considerado o introdutor da literatura argentina ao século 20 (ou vice-versa, do século 20 à literatura argentina), igualmente descendente de imigrantes e bilíngue, tenha construído sua ficção a partir de leituras diametralmente opostas às de Borges. Não à toa os dois são colocados nas antípodas um do outro: Borges, cerebral e literário, quando não demasiado bem escrito; Arlt, direto e rueiro, em geral de escrita apressada e malfeita.

A origem dessa imperfeição literária de Arlt estaria nas suas leituras de formação — de deformação —: filho de alemães pobres e insatisfeitos com a vida de imigrantes em Buenos Aires, conviveu com os pais monoglotas e instruiu-se de maneira autodidata. Estavam entre suas leituras prediletas os manuais de mecânica e de informações técnicas variadas (Arlt ambicionava ser inventor) e traduções ruins de Dostoiévski e de outros russos. A má influência dessas leituras ecoaria nas crônicas do submundo portenho que ele publicaria desde cedo na imprensa argentina. Ricardo Piglia, seu maior leão-de-chácara crítico, subvertendo a afirmação pejorativa feita por alguém de que Arlt falaria “lunfardo com sotaque estrangeiro”, concluiu que esta era uma excelente definição do efeito de seu estilo.

Em Roberto Arlt, novamente de acordo com Piglia, “há uma crítica frontal ao que poderíamos chamar de produção imaginária de massas”. Ou seja, ao cinema, ao folhetim e sobretudo ao jornalismo. Apesar de retratar a Buenos Aires dos anos 20, conclui-se que o argentino visionário desde então lamentava a perda do poder libertário (no sentido de perdição) da literatura, em substituição às ilusões sociais promovidas pelas novas máquinas de imaginar.

Assim, ainda estavam por nascer autores que confessassem entre suas principais influências a leitura pé-de-chinelo de histórias em quadrinhos, para ficar num só exemplo de gênero bastardo (e poderiam ser tantos: fotonovelas, policiais, ficção científica, romances açucarados de bancas de jornal etc). O poeta norte-americano e. e. cummings foi pioneiro, encarnando o leitor do século 20 ao prefaciar a primeira edição em livro da despirocada Krazy Kat, o cartum surrealista de George Herriman que também tinha entre seus fãs H.L. Mencken e Jack Kerouac. Depois destes e de alguns outros, John Updike (que sonhou ser cartunista antes de ser escritor) escreveu um ótimo ensaio sobre a magia dos quadrinhos (publicado no Brasil na segunda edição da revista Serrote). E daí, mais recentemente, veio a torrencial homenagem de Umberto Eco ao gênero, com o romance A misteriosa chama da Rainha Loana.

Resta saber se existe alguma verdade na influência desses tantos meios mestiços no modo que compreendemos a formação da leitura nos apocalípticos dias atuais. Mas, para chegarmos a tal ponto, é necessário que nasça aquele escritor-leitor que, ao ser perguntado sobre sua principal influência e suas primeiras leituras, responda: “A internet”.

PS. Para saber mais sobre dois livros fundamentais de Borges e Arlt, assista ao divertido Impreso en Argentina, programa — em espanhol — estrelado pelo escritor Pedro Mairal e pelo quadrinhista Juan Sáenz Valiente.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.