Atividades sórdidas e desprezíveis (2)

Por Érico Assis

[Leia aqui a parte 1 do texto sobre o Comics Code Authority]


Dr. Fredric Wertham, psiquiatra que depôs no Senado americano ligando os quadrinhos à delinquência juvenil e à depravação.

Critérios gerais – Seção A: (…) (11) As letras da palavra “crime” na capa de uma revista de quadrinhos nunca deverão ser relevantemente maiores em dimensão do que outras palavras contidas no título. A palavra “crime” nunca deverá aparecer sozinha na capa. (…)

Critérios gerais – Seção B: (…) (4) A inclusão de histórias que lidem com comportamento desvirtuoso só poderão ser utilizadas ou publicadas quando o intento for o de ilustrar uma questão moral, e em caso algum o mal pode ser representado de forma atraente, tampouco de maneira que fira as sensibilidades do leitor. (…)

Diálogos: (1) Blasfêmias, obscenidades, indecências, vulgaridades ou palavras ou símbolos que tenham adquirido conotações indesejáveis são proibidos. (…)

Sexo e Casamento: (1) O divórcio não deve ser tratado com humor nem representado como desejável. (…) (3) O respeito pelos pais, pelo código moral e pelo comportamento honroso devem ser fomentados. A compreensão compassiva dos problemas do amor não é licença para distorções mórbidas.

São trechos do Comics Code, versão original de 1954. Você pode ler o Código completo aqui.

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Com o passar das décadas, o Código foi sendo revisado e a interpretação dos avaliadores tornou-se mais flexível. Em 1971, por exemplo, às portas do Watergate, autorizou-se que o governo ou outras autoridades fossem representados com algum nível de corrupção. Mas ainda aconteciam controvérsias: no mesmo ano, quando o roteirista Stan Lee quis mostrar um amigo do Homem-Aranha tendo problemas com drogas, a história teve que sair sem o selinho.

Na década de 80, estabeleceu-se o “direct market” — quadrinhos passaram a ser vendidos quase que exclusivamente em lojas só de quadrinhos, numa tentativa de estimular a diversidade do mercado (e facilitar a contabilidade, pois as lojas não devolveriam encalhe). As ameaçadoras páginas coloridas começaram a deixar as bancas, mercearias e drogarias, protegendo Johnnys e Marys de tentativas de sedução.

O mesmo período é conhecido como a chegada da maturidade dos quadrinhos nos EUA. Super-heróis ficaram mais soturnos e ganharam tramas mais complexas, em alguns casos até abrindo mão do selinho para permitir-se sangue, violência e insinuações sexuais. E, correndo por fora desde os anos 60, gibis underground como os de Robert Crumb haviam ajudado a criar toda uma vertente do mercado que não estava nem aí para Códigos de Ética — ou tinha prazer em desobedecer cada um dos artigos.

Em 2001, a Marvel Comics, hoje maior editora de gibis do país, abandonou o Código, tendo por pretexto querer publicar quadrinhos para todas as idades. Assim, adotou uma classificação indicativa própria — mesma medida que a concorrente DC Comics anunciou este ano, ao também deixar o selo. A maioria das editoras preferiu esta opção na última década.

Mas a história ganhou um contorno kafkiano: a DC informou que pagara em 2010 sua anuidade de associação ao Código e até então enviava suas HQs pelo correio para receber a benção. Só não sabia para quem enviava nem de quem recebia.

A jornalista Vaneta Rogers apurou que o selo vinha sendo administrado por uma representação, a Kellen Company, até 2009. Terminado o contrato com a Kellen, uma das funcionárias da empresa, Holly Munter Koenig, tomou para si a tarefa de avaliar os quadrinhos — voluntariamente e fora do expediente. Disse que fazia isso por admirar a causa da organização, cinquentenária como ela.

Ou seja: o Código só teve sobrevida por conta de uma carola com um carimbo nas mãos, aproveitando-se do anonimato.

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O principal sucesso do Comics Code Authority foi afugentar diversos talentos do roteiro e dos desenhos, que tinham os gibis como ganha-pão nas décadas de 30 a 40. Ao serem ostracizados como corruptores da juventude, centenas deles decidiram buscar empregos mais legítimos. 10-Cent Plague, livro recente do jornalista David Hadju, registra 902 nomes de profissionais que nunca mais assinaram um gibi após as décadas de 40 e 50.

Na interpretação de alguns, o Comics Code foi um movimento para derrubar a portentosa EC Comics. Acabou afundando todo o mercado. Hoje, as editoras só fecham as contas quando conseguem licenciar seus heróis para o cinema, os games e outras mídias mais lucrativas. As vendas de quadrinhos (fora livrarias) movimentaram US$ 420 milhões em 2010 — menos de 5% do que representa, por exemplo, a venda de ingressos de cinema nos EUA.

O maior trunfo do Código, porém, foi fazer os quadrinhos sumirem de vista. Fora a entrada nas livrarias na última década, nos EUA os gibis ficaram praticamente restritos às lojas especializadas, concentradas em cidades de grande porte. Brinca-se, com certo fundo de verdade, que o consumidor médio atual das revistinhas tem 35 anos e mora no porão da casa dos pais. Os gibis não são mais danosos à juventude, pois a juventude não os conhece — e nem faz questão de conhecer. Perversões sexuais, instituições dilapidadas e mulheres de proporções irreais estão a um Google de distância. Neste mundo, o Comics Code realmente não faz mais sentido. Se é que um dia fez.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

5 Comentários

  1. […] partes 1 e 2 de “Atividades sórdidas e desprezíveis” foram publicadas no Blog em […]

  2. Fabio Negro disse:

    Érico, passe uma tarde de sábado na livraria onde eu trabalho e veja meninas de 14 anos perguntando por “alguma coisa do Batman” ou engravatados de 23 anosperguntando a opinião do vendedor se é melhor um gibi da Liga daJustiça ou um dos X-Men.

    A própria Quadrinhos na Cia mostrou mais de 2 vezes uma jovem mamãe pelada nas páginas de Três Sombras, e vende muito bem!

    A juventude está aí!
    A “sedução” também!

  3. […] Blog da Companhia, Joca Reiners Terron fala das leituras inconfessáveis, Érico Assis fala sobre atividades sórdidas e desprezíveis, André Conti sobre os trocadilhos intraduzíveis e […]

  4. VÔGALUZ disse:

    Fui um leitor assíduo de quadrinhos, principalmente na década de 80, lembro-me de perder o fôlego várias vezes lendo DareDevil desenhado por Frank Muller, a arte dos quadrinhos é fantástica. Acho que muito da derrocada dos quadrinhos também se deve à fraca desenvoltura dos roteiros desenvolvidos a partir da década de 90, mas lamento profundamente que uma censura maldita tenha causado tanto estrago a este gênero artístico. Abraços. vogaluz.blogspot.com

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