Eu sou Moby Dick

Por Vanessa Barbara

Baseado no romance homônimo de Ray Bradbury, o filme Fahrenheit 451 (1966, François Truffaut) fala de um futuro opressivo onde os livros são proibidos e incendiados. “É um trabalho como outro qualquer”, diz o protagonista Guy Montag, um bombeiro designado para apreender e tostar os objetos ilegais. “Às segundas, queimamos Miller; às terças, Tolstói; às quartas, Walt Whitman; às sextas, Faulkner; e aos sábados e domingos, Schopenhauer e Sartre. Queimamos até virar cinzas e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial.”

Certo dia, levado pela curiosidade, ele decide trazer pra casa alguns dos livros que confiscou. O primeiro que lê às escondidas é David Copperfield, de Charles Dickens. Daí pra frente passa a ler de tudo, com destaque para o verbete “rinoceronte” da enciclopédia.

Por fim, Montag é denunciado, mas foge e acaba encontrando um foco clandestino de resistência, formado por Pessoas-Livro (Book People). É gente que se propôs a decorar um volume inteiro de sua preferência, com vistas a salvá-lo do extermínio. “Guardamos os livros aqui dentro, onde ninguém consegue encontrá-los”, explica o líder, apontando para a cabeça. “Por fora, somos vagabundos. Por dentro, bibliotecas”, diz.

Uma moça se aproxima do forasteiro e pergunta: “Você se interessa pela República de Platão? Bem, eu sou a República de Platão. Posso me recitar pra você quando quiser”. O líder se apresenta como A vida de Henri Brulard, autobiografia de Stendhal, e aponta para os amigos: “Lá está O Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. E aqui O corsário, de Byron. Aquele sujeito magrinho é Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E onde está Alice através do espelho hoje? Deve andar por ali.”

Outros residentes: uma alegoria cristã de John Bunyan chamada O progresso do peregrino (o sujeito comeu o livro para que não pudessem queimá-lo), a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, As crônicas marcianas, de Ray Bradbury, as Memórias de Saint-Simon e As aventuras do sr. Pickwick, de Charles Dickens. Quando o recém-chegado diz conhecer o autor inglês, pois já lera David Copperfield, o interlocutor responde: “Oh! Nós temos um David Copperfield conosco. Ele está com outro grupo, mais ao sul” — o que provavelmente deve ter entristecido Montag, que bem podia querer ser ele mesmo tal obra. Ao protagonista, porém, cabe saber de cor Histórias de mistério e imaginação, de Edgar Allan Poe, que, se não é o seu preferido, pelo menos não é tão grande quanto o primeiro.

O príncipe, de Maquiavel, é um gordinho careca de jaqueta surrada e meia azul, que postula: “Como você vê, não se pode julgar um livro pela capa”. Orgulho e preconceito, de Jane Austen, recém-editado pela Penguin-Companhia, são dois irmãos gêmeos, cada qual com seu tomo. “Costumamos chamar um deles de ‘Orgulho’ e o outro de ‘Preconceito’. Acho que eles não gostam muito”, informa A vida de Henri Brulard.

Ou seja, trata-se de uma biblioteca incongruente, na qual romances clássicos se misturam a livros de poemas, teoria, biografia e teatro, numa barafunda editorial que me incomoda um bocado. Nada é disposto em ordem cronológica ou alfabética, e não há uma coerência entre os títulos — podia existir, por exemplo, um foco de resistência só de literatura francesa, ou de ensaios em latim, ou de ficção contemporânea. Aos mais velhos, reservar-se-iam os escritos mais antigos, e aos mais novos só os romances com uma quantidade moderada de mesóclises.

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Entre outros méritos, a história de Ray Bradbury dá novo significado à frase de Gustave Flaubert, “Madame Bovary sou eu”. Ninguém reparou, mas naquele momento ele anunciava sua opção, aludindo também ao fato de ter reescrito o livro demasiadas vezes. A má notícia aos que pretendem ser Pessoas-Livro vai para os fãs de Dostoiévski, obrigados a convocar esforços externos só para memorizar o glossário de nomes próprios de Os irmãos Karamazov, além de terem de se apresentar da seguinte forma: “Muito prazer, eu sou O idiota”.

Tudo isso pra anunciar que, diante da cervicalgia galopante e do recente colapso do espaço nas estantes (ver colunas anteriores acerca de feijões e prateleiras), decidi fazer como o povo da resistência e descentralizar mentalmente a minha biblioteca. À diferença da seleção de Fahrenheit 451, ela seria enxuta e criteriosa — mais criteriosa do que enxuta —, abrigando só ficção de estirpe, com ênfase nos clássicos, e alguma coisa de jornalismo literário e não ficção. Embora eu infelizmente não possa decorar livros que nunca li, espero que haja alguém disposto a memorizar o Mahabharata para quando eu tiver vontade de ouvi-lo.

Também darei preferência aos amigos com comprovada habilidade mnemônica, com exceção feita à minha mãe, que bem que gostaria de ser um épico como O senhor dos anéis ou Exodus, mas vai acabar tendo de se contentar com um soneto rimado, como este do Alphonsus de Guimaraens:

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

Se bem que sua memória não é lá essas coisas nem para as trovinhas e haicais, de modo que “cinamomos” logo serão substituídos por “reis Momos”, assim como “amor” sempre acaba virando “avô”, arruinando por completo os anseios de precisão do projeto, ainda que agregando criatividade ao conjunto. Em questão de semanas, A terra devastada se transformaria numa ode indefinida às tesourinhas de unha e supercomputadores, ao passo que A outra volta do parafuso, de Henry James, seria enriquecido com uma longa descrição de um pesadelo que ela teve outro dia, sendo Flora “aquela loirinha que fala engraçado” e a governanta impiedosamente cortada da versão final.

Ainda não sei qual livro pretendo me tornar (O grande Gatsby está na disputa, assim como Moby Dick e Tristram Shandy), mas sei que gostaria de conhecer Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, e Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela, de Werner Holzwarth.

E você, que livro quer ser?

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

42 Comentários

  1. Breno Carrijo disse:

    Sou “A maçã no escuro”, de Clarice Lispector. Mas me contentaria com “Apanhador no campo de centeio” de J. D. Salinger, ou então, quem sabe, com “A letra escarlate” de Nathaniel Hawthorne.

  2. […] Blog da Companhia das Letras 28 junho 2011, 3:44 pm […]

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