Muito orgulho, nenhum preconceito

Por Alexandre Barbosa de Souza


Ilustração de Hugh Thomson para a edição de 1894 de Orgulho e preconceito.

Do outro lado do Canal da Mancha, em 1827, Stendhal escrevia no prefácio de seu primeiro romance, Armance:

“Em 1760, era preciso graça, espírito e não muito humor, nem muita honra para ganhar o favor do senhor e da senhora. É preciso economia, trabalho obstinado, firmeza e ausência de qualquer ilusão para tirar partido da máquina a vapor. Essa é a diferença entre o século que acabou em 1789 e o que começou por volta de 1815.”

De fato, como observou Antonio Candido em “O personagem de ficção”, se o romance do século XVIII eram basicamente histórias complexas sobre personagens simples, na virada para o século XIX, e depois para este que passou, o que veremos são histórias de enredo relativamente simples, com personagens complexas. Elizabeth Bennet, a heroína de Orgulho e preconceito, é talvez a primeira dessas personagens complexas. Também Mary McCarthy, na famosa entrevista à Paris Review, conta que dividia os romancistas modernos em duas colunas: “razão” e “sensibilidade” — e se incluía, ao lado de Jane Austen, na primeira coluna. Essa “ausência de ilusão” parece ser a clave de toda a prosa de ficção bem escrita desde então no Ocidente.

Do ponto de vista da fatura do texto, trata-se de uma muito bem dosada têmpera de três elementos: narrador onisciente, cartas e diálogos. O narrador não interfere, e apenas no último capítulo se declara nominalmente um “eu”, num longo período, ironizando a mãe das cinco Bennet girls. A julgar pelo tom cômico, epigramático, isso bem podia ter sido escrito hoje em dia:

“Eu gostaria de poder dizer, em benefício de sua família, que a realização de seu mais profundo desejo de casar tantas filhas tivera efeito tão feliz a ponto de torná-la uma mulher razoável, afável e bem informada pelo resto da vida; mas pode ter sido sorte do marido, que talvez não soubesse apreciar uma felicidade doméstica tão incomum, que ela ainda fosse eventualmente nervosa e invariavelmente fútil.”

Quando me propuseram traduzir Pride and prejudice, aceitei na mesma hora. Primeiro, porque o senhor Bennet — espirituoso e bonachão — me lembrava muito o meu falecido pai (Darcy se refere ao dele, também falecido, como “meu excelente pai”); segundo, porque minha única outra experiência de tradução de obra do século XIX havia sido o Moby Dick, o grande romance americano. Além do mais, era uma oportunidade de me colocar na estante ao lado do genial Lucio Cardoso, que havia traduzido, em 1940, o romance de Austen para a editora José Olympio: o primeiro volume da coleção Fogos Cruzados era a tradução que eu lera ainda adolescente, onde eu tinha tudo anotado a lápis. Mas meu principal motivo, no entanto, era a sensação de que Lucio Cardoso teria deixado de lado algumas especificidades dos personagens de Austen: no original, o senhor Collins era ainda mais ridículo e retórico; Lady Catherine devia soar mais solene e imperativa; a declaração de Darcy podia ser mais intempestiva, a carta, mais elevada — mas, sobretudo, a senhora e o senhor Bennet precisavam de mais humor no tratamento, e Lizzy era obrigatoriamente mais moderna, direta e sagaz.

O fato é que quando me perguntavam o que eu estava fazendo, naqueles três meses de trabalho em que praticamente não saí de casa, eu respondia com orgulho — “Traduzindo a Jane Austen” — e só recebia da parte dos meus amigos o preconceito que este livro enfrenta desde sua publicação em 1813. Só encontrei a devida admiração entre minhas amigas mulheres e amigos gays, que se dispuseram inclusive a ler as mais de quarenta cartas traduzidas, antes da entrega do serviço.

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Alexandre Barbosa de Souza é tradutor e autor dos livros Livro de poemas (Giordano, 1992), Viagem a Cuba (Hedra, 1999), XXX (Dolle Hond, Amsterdã, 2003), Azul escuro(Hedra, 2004) e do infantojuvenil Autobiografia de um super-herói (Hedra, 2003).

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No vídeo acima, Raquel Sallaberry, do JaneAusten.com.br, fala um pouco sobre Orgulho e preconceito, que a Penguin-Companhia acaba de lançar. O livro é super conhecido e elogiado, mas, junto com outros clássicos respeitados, às vezes entra para aquela lista de obras cuja leitura postergamos eternamente.

Dito isto, nós queremos saber: por que você não leu Orgulho e preconceito ainda?

Deixe sua resposta nos comentários até as 23h59 do dia 12 de julho. No dia 13 sortearemos 2 comentários, e seus autores ganharão um exemplar do clássico de Jane Austen pela Penguin-Companhia.

Orgulho e preconceito é uma história de amor das mais lindas já escritas.

Difere das obras românticas tradicionais porque não tem mocinho e bandido, dama indefesa ou herói galopante, na verdade o que mais envolve o leitor é justamente os personagens serem “gente como a gente”, vivem em outra época sim, mas simplesmente erram e acertam, amam e deixam de amar e amam de novo… como todos fazemos na “vida real”.

O mais interessante em O&P é, na minha opinião, a forma como Jane Austen descreve a sociedade de sua época com todas as suas particularidades, incorporando a essa história uma protagonista forte, de personalidade, certa de suas escolhas mesmo quando erradas, uma personagem feminina à frente de seu tempo.

A relação de Lizzie e Mr. Darcy é cheia de encontros e desencontros, mal entendidos e sentimentos conflitantes, é uma história extremamente real, plausível porém, como ficção que é (e onde cabem nossos mais loucos desejos), tem o final feliz que toda mocinha romântica poderia um dia desejar.

Jane certa vez disse que suas personagens têm sua cota de sofrimento mas que sempre daria a elas o final que merecem: repleto de felicidade.

— Gisele L. Cano de Oliveira, São Paulo/SP

Orgulho e preconceito é uma obra prima não somente por causa de Darcy, Elizabeth e suas constantes disputas. Jane Austen se preocupa com cada detalhe da trama, desde os cenários, os personagens secundários até os costumes sociais; o ambiente é tão bem construído que durante gerações leitores têm viajado para o século XVIII através das palavras e essas continuam vivas atualmente.

— Bárbara Garcia, São Paulo/SP

Como acontece com muita gente, Pride & prejudice (Orgulho e preconceito) foi o primeiro livro que eu li de Jane Austen.  Na minha adolescência, eu entrei para uma estatística que eu calculo que deve ser baixa: não apenas eu amava literatura, paixão transmitida pelo meu avô que havia sido educado em Coimbra, como adorava os clássicos e PRINCIPALMENTE Machado de Assis, que eu considero meu primeiro mestre na vida.  Foi por causa dele, por exemplo, que eu entrei um dia aos 19 anos em um sebo chamado Berinjela, no centro do Rio, e comprei um livro da coleção “Harvard Classics” que continha dois romances: A sentimental journey through France and Italy (Viagem sentimental através da França e da Itália) do Laurence Sterne, um dos autores favoritos de Machado, e… ele mesmo: Pride & prejudice, de Jane Austen.

Àquela altura, eu já tinha ouvido falar de Austen, mas como aqui no Brasil não se estuda muito literatura inglesa no segundo grau, ainda não tinha lido nenhum livro dela.  Pois bem: resolvi começar a leitura deste livro (que eu tenho até hoje) pelo segundo título.

É claro que assim que eu botei o olho na frase de abertura — “It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune must be in want of a wife” (É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro de posse de uma grande fortuna deve estar procurando uma esposa) — não consegui mais desgrudar do livro. Quando acabei a leitura, eu me lembro que fiquei tão triste — embora o final seja feliz — que eu tive que voltar para reler alguns passagens, rindo sozinha comigo mesma — minto: rindo junto com Jane. Depois, tive que ler as críticas e uma biografia xôxa que a minha edição trazia. Depois, nunca mais parei de ler Jane Austen, comprei outros romances, outras edições, li outras biografias. O fato é que não se sabe nem como nem por que Jane Austen tem o poder de escrever evidências. Verdades universalmente reconhecidas.  Só que parece que outros não viram ou não conseguiram expressar essas verdades da maneira como ela fez.

O que eu acho mais interessante de O&P é que mexe com o imaginário das mulheres até hoje.  Trata-se de um conto de fadas basicamente — a personagem principal, Elizabeth Bennet, é a própria Cinderella, as irmãs do Bingley são as irmãs malvadas da Cinderella e a sua família e sua casa são eternos ratinhos e sua abóbora, que nunca se encantam, hora nenhuma do dia. Ora, ocorre que assim como nós, mulheres emancipadas e modernas, Lizzy Bennet não tem fada madrinha, ela tem que improvisar e se virar sozinha. E não apenas ela vai ao baile e encontra um príncipe. Ela vai ao baile e encontra um ser que possivelmente é a pessoa mais arrogante, orgulhosa e preconceituosa do mundo. Ocorre que ESTA PESSOA vem a ser o tal príncipe, o que mostra que o mundo não é fácil, os relacionamentos não são fáceis e tudo o que parece ser não é. Esse é o mote principal do livro que, aliás, na sua primeira versão, quando Jane começou a escrevê-lo, chamava-se “First impressions” (Primeiras impressões). Acho sensacional o modo como ela transforma uma história basicamente simples em uma complicada comédia de costumes.

Li que Jane começou a escrever O&P (ou “First impressions”) alguns meses após a separação de um possível pretendente. No inverno de 1795-6, há registros de uma possível ligação amorosa entre Jane Austen e Tom Lefroy, sobrinho do Reverendo George Lefroy de Ashe, mas é possível que a família de Lefroy tenha visto nessa aproximação um perigo, já que ambos não tinham dinheiro, e o mandado de volta para Londres.  Essa breve ligação foi tema do filme Becoming Jane (2007), com Anne Hathaway e James McAvoy nos papéis principais.

Se essa história é verdadeira ou não, e se Jane de fato se apaixonou por Tom , é impossível dizer. Mas depois que eu li sobre isso fiquei pensando se O&P seria uma espécie de “resposta” de Jane a sua situação. E que resposta!

— Marcia Caetano, Rio de Janeiro/RJ

Aos 15 anos de idade, descobri Jane Austen. Minha mãe já tinha lido e apreciado tanto a obra-prima quanto o romance Razão e sensibilidade dessa autora e, por isso, incentivou-me a travar conhecimento com seus livros. Uma vez que tenho gostos literários muito parecidos com os de minha mãe, iniciei a leitura de Orgulho e preconceito, certa de que também gostaria muito de tal obra.

Apesar de já ser uma grande fã de costumes e histórias antigas, encantar-me com o mais famoso romance da mais renomada escritora britânica não me ocorreu de imediato. De fato, não senti qualquer entusiasmo em relação aos personagens, situações e acontecimentos apresentados nos primeiros capítulos; a partir de um dado ponto da trama, contudo, toda a minha percepção acerca do romance se alterou. Os diálogos estabelecidos entre os diferentes tipos humanos, as descrições de seus hábitos e sentimentos, bem como a divertida ironia de Austen, começaram a exercer um fascínio inexplicável sobre mim, levando-me a ler com imenso prazer cada página do livro. Ao terminar Orgulho e preconceito, decidi conhecer as demais obras da autora e, assim, li outros cinco romances seus.

Atualmente, digo com grande orgulho que Jane Austen é minha escritora favorita e que todo aquele preconceito que eu nutria em relação a ela foi convertido em um amor incondicional.

— Karen Monteiro de Lima, 21 anos, Campinas/SP

230 Comentários

  1. Fernanda disse:

    Por preconceito!

    Comecei a ler, mas achei que as críticas sociais dos EUA dos anos 1800 não compensavam a história de Cinderela que teria que engolir. Vejo uma Jane Austin que, romanticamente, ansiava pelo grande amor e pelo belo casamento. Não acho que seja uma crítica disfarçada de romance e sim um romance disfarçado de crítica. Ela, que não é assim tão bonita, compensa o que lhe falta de beleza com a inteligência e anseia por um homem que a note e a ame por essa qualidade que ela tanto valoriza. Bla bla bla….a mesma história da Cinderela…

    Simplesmente pra mim a vida e as pessoas são mais complexas que isso.

  2. […] Confira o Post “Muito orgulho, nenhum preconceito” no Blog da Cia. […]

  3. Bruna Tavares disse:

    Orgulho e Preconceito nunca é demais. Pretendo reler muitas e muitas vezes.
    Jamais me cansarei de ler a declaração de Mr. Darcy para Elizabeth.

  4. samara disse:

    Oi.. axo q não vale mais né?? rs ñ pude entrar ontem, mas msmo assim vo colocar a minha frase…

    Gostaria de ler orgulho e preconceito porque tenho bastante orgulho dentro de mim, de forma que me identifico muito com os romances de jane austen, principalmente com Elizabeth…rs
    E possuo um infinito preconceito relacionado a tudo o que desconheço como esse livro, por isso como forma de desfazer a minha ignorância, gostaria de possuí-lo, porém axo que a peguim- compania não me dará mais o exemplar, rs, o jeito é.. comprar.. bjs.

  5. Mila Argolo disse:

    Porque ele esta na categoria dos livros tão conhecidos, comentados e filmados que é como se já tivesse lido.

  6. Renata disse:

    Simplesmente por preconceito. Até então não havia uma tradução à altura da obra-prima de Jane Austen. Agora, tenho certeza que lerei com muito orgulho a edição da Pinguin-Companhia das Letras.

  7. Gustavo Batista Chaves disse:

    Não li ainda por não ter sido apresentado a obra! Nem tudo é orgulho e/ou preconceito, apenas desconhecimento!

  8. Carla Bitelli disse:

    Li somente em inglês, mas ainda quero muito ler uma edição em português. Que seja a da Penguin-Companhia!

  9. Porque já ter lido duas vezes não foi suficiente. =}

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