O dia em que eu conheci um presidente da República

Por Fabio Uehara

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Imagine um menino que quis aprender a ler para saber o que estava escrito naqueles balões de história em quadrinhos. Que seus primos um dia esconderam todos os gibis da casa para terem o companheiro de brincadeiras de volta. Que, em uma casa onde não havia o hábito da leitura, lia desde O pequeno príncipe até Sidney Sheldon, pela absoluta falta de escolha, e pelo deslumbramento por aqueles volumes que continham tantos mundos. Sim, era eu, um neto de japoneses que, aos 12 anos, já tinha 2,75 de miopia, absolutamente tímido, mas absurdamente fascinado por aquelas páginas que teimavam em ser empoeiradas, apesar de minha rinite. Uma criança que passava tardes e noites depois da escola num canto do quarto divido com dois irmão mais velhos, lendo. Minha mãe, muito zelosa dos estudos, não permitia TV além do tempo estipulado por ela, então eu lia até a Enciclopédia Britânica. Ali conhecia terras para onde a Brasília de meu pai não podia me levar.

A felicidade infantil só se comparava à do primeiro game portátil do Donkey Kong. Ou quando achei no quartinho da bagunça uma velha máquina de escrever, que batia em duas cores, letras maiúsculas e minúsculas, e ainda me servia como um microcomputador e cabine dos caças de Guerra nas Estrelas. Até meu irmão mais velho aparecer com um TK80, o primeiro computador pessoal do Brasil, que não tinha nem como gravar os programas. Para usar algum, era preciso programá-lo (na verdade, copiávamos de alguma revista) e quando o desligávamos, o programa era simplesmente apagado, pois não tinha HD ou disquete ou algo similar.

Depois disso passaram uma série de outras coisas chamadas computadores em nossa casa, devidamente comprados na Santa Efigênia e montados pelo meu irmão Luis, engenheiro e fuçador. Eu sempre ligava essas máquinas beges e com suas telas brilhantes e ficava fuçando naquele quarto cheio de irmãos (na verdade só dois: além do Lú, o gênio autodidata Ricardo), me divertindo por entre telas apenas verdes. Um dia, Luis apareceu com um mouse e um monitor a cores. Foi como quando descobri Vidas secas, ou Drummond: alegria, emoções! Apertar aquelas teclas e ver aquele parco Windows 3.1 responder (imagine então a emoção de abrir a caixa do meu primeiro iMac, do meu primeiro notebook, do meu primeiro smartphone).

Comecei a brincar com o programa de desenho, o tosco Paint, vendo a imensa variedade de fontes ― todas as 12 delas. Foi como ler O tempo e o vento ou Mario Quintana. Ali, naquele pequeno quarto com aquele dinossauro informático marrom, diagramando, desenhando com o mouse, vi se juntarem meus amores, que depois viraram minha profissão.

Ainda hoje me admira quando penso em uma capa que produzo ou crio dentro desta caixa metálica e que, depois de algumas semanas, vira aquele produto tão especial, que durante toda minha vida admirei, vivi e me fiz nele.

Hoje vejo a possibilidade de novamente juntar esses dois objetos de minha admiração, livros e tecnologia. Livros que podem ser um pouco mais. Imagine um livro com a trilha sonora pensada para AQUELE momento da trama. Ou um infográfico animado para explicar aquela teoria de física tão complexa. Não a ponto de se tornar um filme ou um jogo, mas de ter uma camada a mais de leitura que nos ajude a transportar aqueles tantos mundos que o autor criou.

A tecnologia não vai matar o livro. Ponto. Ela pode ajudar a expandi-lo, a ser mais. Ela pode ajudar, nos acrescentar muito. E pode trazer experiências inusitadas, como a de conhecer e conversar por um bom tempo com um presidente da República sobre como usar um leitor de e-books. Não que ele não pudesse entender sozinho, mas estes anos de nerd, enfiado entre livros e eletrônicos, me fizeram a pessoa indicada para essa função, de ser um manual de instruções ambulante. Naquele momento em que dava explicações para uma figura tão importante, me senti novamente aquele garoto de óculos, leitor de gibi, feliz. E tão orgulhoso.

E cheio de esperança de fazer os livros serem livros, mesmo quando não forem de papel.

* * * * *

Fabio Uehara é designer, fã de gadgets e produtor gráfico da Companhia das Letras, onde coordena o departamento de arte dos selos Companhia das Letras, Cia. das Letras e Companhia de Bolso.

14 Comentários

  1. que texto mais bonito, Fabio!

  2. Katia Rodrigues disse:

    Fá, parabéns, lindo texto.

  3. Maria Fernanda disse:

    Que bonito, Fábio! Consegui te ver em cada um desses momentos.

  4. Jaime Onofre disse:

    Fabio.
    Que maravilha de texto, está de parabéns.

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