Depoimento de uma usuária do tu

Por Carol Bensimon

Usina do Gasômetro -Porto Alegre
(Foto por Anita Corral)

Não há nenhuma maneira de se sentir mais porto-alegrense que ouvir um porto-alegrense falar na tevê. “Esse é o meu sotaque?”, você pensa, e arremata com um “uau” de surpresa e decepção. E depois você ri de si mesmo, que é o que muitos gaúchos de bom-senso costumam fazer. Você não costuma ouvir porto-alegrenses na tevê, e aquela prosódia de chimarrão quente descendo pela garganta está bastante distante do padrão Globo. Então você estranha a sua imagem de espelho, como o resto do Brasil costuma o estranhar. Dizem que “no Sul” (só quem não é gaúcho usa essa denominação) as pessoas são muito mais cultas, por exemplo. E esse acúmulo de falsas impressões, propagadas tanto por um lado quanto por outro, vão colocando um tijolinho a mais no muro do separatismo.

A coisa mais concreta que nos separa do restante do país não é o que há na segunda casa depois da vírgula do índice IDH, nem os sobrenomes alemães, nem o frio cortante que entra pelas frestas de nossos apartamentos despreparados. A nossa mais concreta inadequação é que nós falamos “tu”. E com a conjugação errada*.

[*Alguns pontos do Estado conjugam os verbos de forma correta, “vais na padaria?”, mas, o que em Pelotas é habitual, ao porto-alegrense parece pedante].

Somos uns rebeldes da língua? Nem tanto. Vivemos no meio da promiscuidade entre tus e vocês. Alguns de nós, certos momentos, querendo ser corretos e adequados, apelam para um você no meio de um bar. Soam como operadores de telemarketing. Eu mesma, ao interagir com senhoras-professoras-de-pós-graduação, já hesitei: “Tu viu que” ou “Viste que”? Você saboreia a segunda opção na língua antes de usá-la, e o gosto não se parece com nada que você tenha provado antes. Então vai a opção A, o que não evita a sensação de ter se comportado como uma bagual.

Visualize então por um instante o torvelinho de agruras na vida de um escritor porto-alegrense. Se me permitem, direi como foi/é comigo. Mas advirto que cada escritor mastiga esse problema do seu jeito (o que importa é que todos são obrigados a mastigar o problema). Nos dois livros que publiquei, as histórias (três no primeiro e uma no segundo) se passavam em lugares não-nomeados. A cidade de Sinuca embaixo d’água é claramente Porto Alegre (para quem conhece Porto Alegre), no entanto não há nome de ruas, bairros, nem alguma marca de gauchismo no entorno ou nas personagens. Em outras palavras, importa muito pouco que seja Porto Alegre. Nessas narrativas, eu usei o “você” de cabo a rabo. Na narração, nos diálogos. Tive sorte de não causar estranheza a ninguém. E tive sorte de ninguém me condenar pela ausência do “tu” (acredite, essas coisas acontecem por aqui).

Nesse momento, estou escrevendo um romance que se passa em vários pontos do Estado, um romance protagonizado por duas gaúchas, não duas jovens de qualquer lugar do mundo, de modo que o problema veio à tona de forma um pouco mais complexa. Meu ímpeto inicial foi de ignorar qualquer particularidade linguística, e de fato escrevi páginas e páginas das meninas falando “você”, até que bati na mesa de fórmica arrasada e dizendo: “não vai dar”. E também: “imagina quando aparecer um peão de Bagé falando assim”.

A solução foi adotar um 4-2-3-1, digo, um sistema misto no qual o você é usado em toda a narração (mesmo que ela seja em primeira pessoa) e as bizarrices de nossos tus não-conjugados aparecem nos diálogos, como um tempero regional e a certeza de que não pecarei pela verossimilhança, nem terei de pedir asilo ao Maranhão.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

35 Comentários

  1. Helena disse:

    Adorei, simplesmente. Abç

  2. Carol Bensimon disse:

    Oi, Tadeu. Poxa, obrigada, que bom que tu tá gostando. :)
    grande abraço!

  3. Tadeu Renato disse:

    Precisava te encontrar neste mundo pra dizer que estou lendo Sinuca embaixo d’água e estou achando fantástico, o modo como constrói as singularidades dos narradores, as analogias, as reflexões que surgem fluidamente nas narrativas. Incrível, espero encontrar seu livro de narrativas aqui em SP…

  4. neuza disse:

    pois pensa o que é escrever uma simples redação em belém, ao presidente, num vestibular, onde falamos tu e conjugamos o verbo na segunda pessoa. o “você” nos massacra

  5. Edinan disse:

    Cara Carol,

    o que tens a dizer sobre trocar ti por tu?

    Eis uma pergunta do guitarrista da banda Cachorro Grande num especial da MTV: “Foi ti quem trouxe?”, feita ao tecladista, que tinha nas mãos objeto de trouxe, não identificado por mim.

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