Desastres na Companhia – 1

Por Luiz Schwarcz


Ele era nosso primeiro convidado. Estávamos em 1987. A editora não tinha como bancar os custos da vinda de um autor dessa importância. Duas passagens de primeira classe, estadias em hotéis de luxo e todos as despesas necessárias para uma recepção de alta classe. Procurei instituições que pudessem me apoiar. A Folha de S.Paulo se interessou. Achou que teria como conseguir um bom acordo com a companhia área e topou se responsabilizar por essa parte. Em troca, promoveria um evento com o autor no jornal e daria ampla cobertura na Ilustrada; o suplemento que era a coqueluche da direção do jornal. A Unicamp — onde eu ainda trabalhava, dando uma consultoria semanal, promovendo eventos culturais e reestruturando a editora — também entrou na dança. Além de uma palestra aberta num ginásio local, a universidade teria direito a oferecer um almoço com o reitor, para o qual seriam convidados os principais diretores de faculdades, e alguns acadêmicos de destaque.

Sabendo que o escritor visitante gostava de festas, consultei amigos com experiência no assunto e preparei um roteiro caprichado. Conversei detalhadamente com o secretário de redação da Folha e com o então editor da Ilustrada, tentando prever a visita nos seus mínimos detalhes.

Pois na manhã da chegada de Gore Vidal e de seu companheiro, Howard Austen, no aeroporto de Cumbica, eu intuí que um sequência de desastres estava apenas se iniciando.

Entre todas as precauções que tomei, uma, certamente, salvou-nos de um desastre maior. O voo de Vidal, pela Alitália, era direto: Roma – Rio de Janeiro. Como o convidado era ilustríssimo, a companhia área prometeu tratamento VIP, e ficou de entregar os bilhetes da conexão para São Paulo. Aqui o casal seria recebido por mim e por um repórter da Ilustrada, Nelson Asher.

Pensando no pior, como sempre, pedi que outro repórter fosse ao aeroporto do Galeão, de madrugada. Sérgio Augusto, amigo meu e fã de Vidal, aceitou de bom grado a missão: graças ao Santo Deus. A Alitália não entregou bilhete algum para a continuação da viagem. De repente, Sérgio viu seu ídolo no saguão do desembarque, carregando muita bagagem e bufando sem parar. Acho que pensava na minha mãe, de maneira pouco cordial. Além da volumosa bagagem, Vidal pesava muito mais do que suas fotos atestavam. Não era fácil reconhecê-lo. Com incredulidade, Sérgio Augusto se aproximou, certificou-se de que se tratava do autor de De fato e ficção – Ensaios contra a corrente e encaminhou Vidal e Howard Austen para o balcão da Varig, onde os dois foram obrigados a comprar passagens para São Paulo.

Depois de um enorme atraso, e sem ter sido avisado de nada, eu consegui localizar Gore Vidal no aeroporto de Cumbica. Parado, e com expressão de profundo desânimo, ele segurava a cabeça com a mão, apoiado no seu carrinho repleto de malas. Esperava que alguém o reconhecesse e que a santa providência o salvasse. Gore e Howard deviam estar perambulando pelo aeroporto há um bom tempo, enquanto nós os aguardávamos no terminal de chegada internacional.

Antes disto, durante nossa longa espera, Nelson passara mal, e por conta de uma taquicardia teve que ser atendido no ambulatório do aeroporto. Deixei meu colega anfitrião por lá, com palavras pouco pacientes: “Nelson, agora não, pelo amor de Deus, eu não tenho como te acompanhar aqui no ambulatório. Vê se melhora logo e me encontra lá embaixo. Temos que receber o homem a qualquer minuto”.

Com meu colega anfitrião já recomposto, e os dois convidados com cara de pouca conversa, seguimos para o estacionamento. Carregávamos os carrinhos com as bagagens em silêncio. Era o melhor que podíamos fazer.

Preocupado com a superexposição do autor e com uma recepção elegante, lembrei de pedir à Folha que o carro utilizado para o transporte dos convidados fosse confortável e que não trouxesse o logotipo do jornal. Seria indelicado fazer Gore Vidal trafegar pela cidade nos carros brancos, com aquela faixa amarela e azul da Folha, como um garoto propaganda do jornal. Ao chegar no estacionamento, sem ter conseguido mudar o humor de Vidal, que ainda bufava abundantemente, vi que não havia sido bem-sucedido também naquele quesito. O logo da Folha reluzia em Guarulhos, na porta aberta do carro à espera dos convidados. Gore Vidal mal reparou na pequena grosseria.

Deixei Nelson se ocupar dos convidados, conforme o combinado, e voltei sozinho no meu carro. Uma das grandes gafes que cometi nessa ocasião foi a de aceitar que o jornal atribuísse ao seu repórter o papel de anfitrião e de crítico. Enquanto ciceroneava o autor, Nelson estava também incumbido de sacar diariamente furos jornalísticos, e depois cobrir a visita para a Folha de S.Paulo. Para tanto, precisava colar no convidado, desenvolver amizade e empatia, e depois, criticá-lo com isenção. A combinação de funções era uma bomba-relógio, que viria a explodir no meu colo logo mais.

Ao chegarmos no hotel Ca D’oro, Vidal teve sua primeira alegria. Adorou a suíte luxuosa e tradicionalíssima, com móveis em veludo e uma profusão de tecidos avermelhados. Ficou tão animado que disse: “Luiz, eu poderia viver aqui para sempre!”.

No entanto, devido ao atraso na chegada, tive de pedir que ele descesse imediatamente para a entrevista coletiva. Um bando de repórteres ávidos o esperava. Mal houve tempo para o pequeno descanso previsto na programação.

Tentando restabelecer o bom humor e satisfeito com o hotel, Vidal foi surpreendido com uma batelada de perguntas infelizes, entre elas, logo de cara a costumeira: “Sr. Vidal, quais são suas primeiras impressões do Brasil?”

Acostumado a lidar com este tipo de pergunta com alta dose de mordacidade, a resposta veio de bate-pronto: “Senhores, eu vim aqui como emissário secreto do FMI. Não devia confessar isso logo de cara, mas é que soubemos que o Brasil tem gastado parte de suas reservas com literatura, o que não é nada aconselhável. Vim investigar”.

A ida do país ao Fundo Monetário Internacional era o assunto do dia, e uma pedra no sapato do leitorado de esquerda — talvez aquele que mais crescia e o que mais lia a Folha Ilustrada. Os jovens jornalistas também se incomodavam muito com a suposta subserviência do governo brasileiro para com as instituições de controle das finanças mundiais. Com essa declaração, dada em tom de mais absoluto deboche, Vidal conseguiu desagradar a todos os jornalistas presentes na coletiva, que o esperaram por horas. Se a tragédia com Nelson Asher ainda viria a proporcionar grandes emoções, a relação com o resto da imprensa, que não patrocinava a vinda do escritor, azedou desde a primeira resposta.

A estadia de Gore Vidal em São Paulo mal completava sua primeira hora. Era difícil imaginar o que ainda estaria por acontecer.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.