Escuta só: do clássico ao pop

Por Alex Ross

[O texto abaixo é o prefácio do livro Escuta só, de Alex Ross, com tradução de Pedro Maia Soares. O autor fará uma conferência sobre o 2° capítulo do livro, “Chacona, lamento, walking blues” em São Paulo e Rio de Janeiro na próxima semana.]

iPiano
(Foto por Charis Tsevis)

Escrever sobre música não é especialmente difícil. Quem cunhou o epigrama “Escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura” — a declaração foi atribuída em diferentes momentos a Martin Mull, Steve Martin e Elvis Costello — estava turvando as águas. A crítica musical é certamente uma ciência curiosa e dúbia, e seu jargão varia do inexpressivo (“A Quinta de Beethoven começa com três sóis e um mi bemol”) ao floreado (“A Quinta de Beethoven começa com o destino batendo à porta”). Mas não é mais dúbia do que qualquer outro tipo de crítica. Toda forma de arte luta contra a armadilha de uma descrição verbal. Escrever sobre dança é como cantar sobre arquitetura, escrever sobre literatura é como fazer edifícios sobre balé. Há uma fronteira envolta em névoa que a língua não pode atravessar. Um crítico de arte pode dizer de Laranja e amarelo de Mark Rothko que a tela consiste de uma área de tinta amarela que flutua acima de uma área de tinta cor de laranja, mas de que serve isso para alguém que nunca viu um Rothko? O crítico literário pode copiar algumas linhas da “Esthétique du mal”, de Wallace Stevens —

And out of what sees and hears and out
Of what one feels, who could have thought to make
So many selves, so many sensuous worlds…

— mas quando tenta explicar o significado desses versos, quando tenta expressar sua música silenciosa, outra dança irrealizável se inicia.

Então por que se arraigou a ideia de que há algo de peculiarmente inexprimível na música? A explicação pode não estar na música, mas em nós mesmos. A partir de meados do século XIX, as plateias se acostumaram a adotar a música como uma espécie de religião secular ou política espiritual, investindo-a com mensagens tão urgentes quanto vagas. As sinfonias de Beethoven prometem liberdade política e pessoal; as óperas de Wagner inflamam a imaginação de poetas e demagogos; os balés de Stravínski liberam energias primais; os Beatles incitam uma revolta contra antigos costumes sociais. Em qualquer momento da história, existem alguns compositores e músicos criativos que parecem deter os segredos da época. A música não é capaz de suportar esses encargos com facilidade, e quando falamos de sua inefabilidade, talvez a estejamos protegendo de nossas próprias exigências excessivas, pois mesmo quando adoramos nossos ídolos musicais, também os obrigamos a produzir emoções particulares no momento certo: um adolescente ouve ensurdecedoramente um hip-hop para se estimular, um executivo de meia-idade põe para tocar um CD de Bach para acalmar seus nervos. Os músicos se veem, de uma forma estranha, ao mesmo tempo adorados e escravizados. Ao escrever sobre música, tento até certo ponto desmistificar a arte, desfazer a prestidigitação, ao mesmo tempo que respeito a complexidade humana ilimitada que lhe dá vida.

A partir de 1996, tive a imensa sorte de ser o crítico de música da New Yorker. Eu tinha 28 anos quando obtive o emprego, muito jovem por qualquer medida, mas me esforcei para aproveitar o máximo a minha sorte. Desde o início, meus editores me incentivaram a ter uma visão ampla do mundo musical: não cobrir apenas o desempenho de astros no Carnegie Hall e no Metropolitan Opera, mas também espiar espaços menores e ouvir vozes mais jovens. Na esteira de meus distintos antecessores Andrew Porter e Paul Griffiths, sustentei que os compositores modernos merecem o mesmo tratamento generoso que é dado a mestres canônicos — uma convicção que levou ao meu primeiro livro, O resto é ruído: Escutando o século XX. Também fiz incursões periódicas ao pop e ao rock, embora, tendo sido criado na música clássica, me sinta inseguro ao pôr os pés fora dela. No conjunto, abordo a música não como esfera autossuficiente, mas como forma de conhecer o mundo.

Escuta só reúne vários artigos publicados na New Yorker, muitos deles submetidos a profunda revisão, e um longo texto escrito especialmente para esta ocasião. O livro começa com três ligeiras avaliações da paisagem musical, que abrangem tanto o terreno clássico como o pop. O primeiro capítulo, de onde vem o título, começou como um prefácio para O resto é ruído, embora eu logo tenha percebido que tinha de ser um ensaio autônomo. É uma espécie de memória que virou manifesto, e quando foi publicado, suscitou uma resposta inesperadamente forte dos leitores, com centenas de cartas e e-mails chegando durante vários meses. Muitas dessas mensagens vieram de estudantes de música e recém-egressos de conservatórios que lutavam para conciliar a tradição em que haviam sido educados com a cultura pop em que tinham crescido. A intensa frustração que eles e eu sentimos diante do estereótipo do pincenê da música clássica percorre todo o livro. O segundo capítulo, “Chacona, lamento, walking blues”, é a coisa nova: uma história em redemoinho da música contada através de duas ou três linhas de baixo recorrentes. “Máquinas infernais” reúne vários pensamentos sobre o cruzamento entre música e tecnologia.

Estabelecido um mapa rudimentar, sigo as pegadas de cerca de uma dezena de músicos vivos e mortos: compositores, regentes, pianistas, quartetos de cordas, bandas de rock, cantores-compositores, professores de banda escolares. Na seção final, tento descrever de forma mais pessoal três figuras radicalmente diferentes — Bob Dylan, Lorraine Hunt Lieberson e Johannes Brahms — que tocam em coisas quase profundas demais para serem expressas em palavras. Meu último livro se transformou numa grande tela histórica, em que as forças políticas a toda hora ameaçavam esmagar a voz solitária; este livro é mais íntimo, mais localizado, e retorna várias vezes à questão permanente do significado da música para seus criadores e seus ouvintes, no nível mais elementar. Acima de tudo, eu quero saber como uma poderosa personalidade pode imprimir-se em um meio de natureza inerentemente abstrata — como uma breve sequência de notas ou acordes pode assumir as peculiaridades reconhecíveis de uma pessoa próxima.

A única característica que esses homens e mulheres dotados musicalmente talvez tenham em comum é que são diferentes uns dos outros ou de qualquer outra pessoa. Muitos são exilados, andarilhos, pesquisadores inquietos. Um tímido finlandês de vanguarda se transforma numa celebridade em Los Angeles. Uma cantora islandesa dança pelas ruas de Salvador, Brasil. Uma pianista japonesa interpreta o repertório alemão no sopé de uma montanha de Vermont. Um veterano do rock and roll serpenteia pelo país, desconstruindo seus sucessos. Um grande compositor alemão atravessa uma paisagem interior devastada pela tristeza. De uma forma ou de outra, eles abalam o gênero que habitam, tornando estranho o familiar.

A Grande enciclopédia soviética, em um de seus momentos mais sensatos, definiu a música como “uma variante específica do som feito por pessoas”. No fim das contas, a parte difícil de escrever sobre música não é descrever um som, mas descrever um ser humano. É um trabalho delicado, pretensioso no caso dos vivos e especulativo no caso dos mortos. Ainda assim, espero oferecer alguns vislumbres prolongados de todas essas naturezas sensíveis.

* * * * *

Alex Ross nasceu em 1968 em Washington. Iniciou-se na crítica musical ainda nos tempos de faculdade. Em 1992, mudou-se para Nova York, onde trabalhou para o New York Times até ser contratado pela revista New Yorker, da qual hoje é crítico de música. Seu primeiro livro, O resto é ruído — Escutando o século XX (Companhia das Letras, 2009), foi finalista do prêmio Pulitzer.

7 Comentários

  1. […] isso, tentava terminar a leitura de Escuta só, de Alex Ross, e do novo romance de Javier Marías, Os enamoramentos. Missão fracassada. Ainda […]

  2. […] Minha erudição roqueira talvez tenha sido muito superior ao meu conhecimento literário de hoje. Por isso, ser o editor de Alex Ross é uma realização tão grande para mim. A mistura de erudição musical com simplicidade, o fluxo de referências literárias e políticas que migram para a música e vice-versa, compõem o modelo de intelectual que — só hoje entendo — eu sempre quis ser e nunca consegui. No fundo, acredito que queria mesmo era ter sido Alex Ross! Escrever com o mesmo brilho e simplicidade sobre Schubert e Radiohead. […]

  3. […] capítulo um do livro Escuta Só (Companhia das Letras), de Alex Ross (você pode ler o prefácio aqui). Um autor que luta acorde por acorde para mostrar que ninguém deve ter medo da música clássica […]

  4. […] Escuta só, de Alex Ross (Tradução de Pedro Maia Soares) Em Escuta só, Alex Ross reúne momentos significativos de sua atuação como crítico musical da prestigiosa revista New Yorker, da qual é colaborador desde 1996. Após o sucesso de O resto é ruído, o livro convida a uma urgente reavaliação dos rótulos e preconceitos que continuam a segregar a chamada “música clássica” do cotidiano da maioria das pessoas. De Kurt Cobain a Bach, de Schubert a Bob Dylan, o repertório selecionado pelo autor propicia uma fascinante viagem pelo mundo da música e de seus compositores. A escrita erudita e refinada de Ross, híbrida entre a reportagem, a crítica e o ensaio, relaciona assuntos tão contrastantes como a estrutura da sonata clássica e a vitalidade anárquica do punk com a sutileza das modulações de um prelúdio de Debussy. Leia o prefácio do livro aqui. […]

  5. […] momento de glória 28 julho 2011, 10:30 am […]

  6. marcio passos disse:

    estou “louco ” pra devorar este livro. Alex Ross, me aguarde!!!

  7. Sadrac disse:

    Está em preparação o filme Bel Ami, baseado na obra de Maupassant, a edição é da Estação Liberdade; haverá alguma ação especifica para o livro “125 Contos de Maupassant”?

    Abraços!!!

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