Freedom, o truque

Por Carol Bensimon


(Foto por Felicity Green)

Gostaria de falar de algo chamado Freedom. Não é um discurso pacifista, nem uma impressão sobre o livro do Franzen. É um software disponível para PC e para Mac, que recebeu essa alcunha por razões óbvias: Freedom bloqueia a internet e deixa seu trabalho offline fluir sem distrações. Talvez seja um tipo de Ritalina digital. Acho que ouvi falar sobre Freedom no twitter, mas não dei bola e, para falar a verdade, não tinha sacado muito bem o que era. Semanas depois, fui ler um artigo da escritora americana Dani Shapiro — compartilhado, novamente via twitter, pelo Daniel Galera. Era um texto sobre o ato de escrever ficção e o ato de distrair-se com a internet. Era um texto também sobre Freedom, o software.

Dani Shapiro experimentou o Freedom e aprovou-o. No mesmo dia, fiz a experiência. Na verdade, tenho usado o programa há mais de uma semana.

É difícil falar sobre ser um escritor conectado sem repetir muito do que já está dito no texto de Shapiro. Trabalhar na mesma ferramenta que você usa para fazer n outras coisas é uma tarefa meio ingrata. Jonathan Franzen resolveu a questão colocando um computador primitivo e sem internet em uma sala espartana, onde não deve haver nem um mísero clips para ser dobrado. Mas, para todos os outros escritores que não saem na capa da Time, isso soa meio utópico.

O problema, na verdade, é a soma de dois: quando você escreve, a maioria do seu tempo não é gasto para efetivamente escrever as frases que caracterizam aquele cara, que descrevem aquele lugar, as tiradas & reflexões sobre a vida que você põe na boca de um menino de quinze anos ou na mulher madura na porta do bingo clandestino. Quase todo o seu tempo é gasto PENSANDO em como fazer tudo isso. Isso quer dizer que você fica um tanto imóvel diante do computador, com as conexões cerebrais a toda. Não é a situação mais confortável do mundo; não há muito romantismo nesse árduo trabalho de não conseguir mover os dedos em direção ao teclado.

Mas na sua cabeça há muito caos, é claro, de forma que é natural que uma ou outra coisa externa à obra de ficção em curso acabe se infiltrando no rio caudaloso das ideias. Uma gama tão variada quanto Preciso combinar o almoço de quarta, De que ano é “Luz em Agosto”?, Quais serão as atrações do SWU Festival?, Talvez aquele contrato já esteja no meu e-mail. E tudo isso é tão fácil de ser resolvido que você acaba caindo na tentação.

(Se você tivesse que tirar a enciclopédia Britannica da prateleira mais alta da estante, nada disso estaria acontecendo)

Freedom é um software feio, simples, que ironicamente parece saído de um tempo onde não havia internet. De qualquer maneira, ele não precisaria mais do que isso: a caixa cinza que se abre e pergunta “How many minutes of freedom would you like?” Depois de escolher o tempo e clicar em OK, o único jeito de desabilitá-lo é dando um force quit e reiniciando o computador. Trabalho demais. Então você tem a sua disciplina. É vergonhoso, eu sei, é infantil, é boboca. Mas não mais boboca do que trabalhar em cima de um deadline, por exemplo.

Por último, é preciso dizer que, além da escrita fluir naquelas horas de liberdade, voltar à internet também é uma experiência compensadora: talvez alguma coisa relevante tenha acontecido nesse meio tempo. Talvez você tenha e-mails acumulados na caixa de entrada.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.