Lanzmann e Les Temps modernes


Claude Lanzmann com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.

Em tempos de polêmica, vale lembrar o Lanzmann lutador das grandes causas. Entre 1965 e 1967, o então futuro cineasta e editor da revista Les Temps modernes, hoje por ele dirigida, organizou uma iniciativa inaudita: pôr lado a lado, num mesmo volume, artigos de árabes e israelenses sobre o conflito que se agravava. (Pouco antes do fechamento do citado número da revista — depois que os artigos foram entregues mas antes que o organizador escrevesse sua introdução —, eclodiu a Guerra dos Seis Dias.)

Reproduzimos aqui a apresentação de Lanzmann a “O conflito israelo-árabe”, e o trecho de A lebre da Patagônia em que o autor conta sobre o processo de edição e a viagem que fez ao Egito e a Israel para comemorar a futura publicação. A propósito, a foto que ilustra a capa do livro — Lanzmann, Sartre e Simone de Beauvoir — foi tirada nessa ocasião.

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Empreendi, portanto, uma segunda viagem, descobri um Israel que não conhecia e consegui fazer com que Faplan admitisse a pertinência de minha posição. Ali se encarregaria da parte árabe. Depois de longas e minuciosas negociações, ficara acertado que a revista seria um mero receptáculo, e não uma tribuna de discussão: os árabes, pela primeira vez, consentiam em figurar lado a lado com os israelenses numa mesma publicação, com a condição de terem absoluta liberdade de escolher seus autores, os temas abordados, e que ninguém desse resposta a ninguém. Haveria no número uma seção árabe e uma seção israelense, totalmente separadas, o que Sartre, em seu prefácio, denominou “contiguidade passiva”. Expliquei, em minha própria introdução, que esta contiguidade nos custara, porém, suor e lágrimas. Não vou entrar nos detalhes, mas um autor argelino, Razak Abdel Kader, que por iniciativa própria me enviara um artigo excelente, foi recusado por Ali e pela parte árabe por se alinhar excessivamente com o ponto de vista do “inimigo”. Era pegar ou largar, cedemos e pegamos. Da mesma forma, Maxime Rodinson, judeu francês de origem bundista* polonesa, comunista, antissionista teórico e, ao mesmo tempo, visceral, islamólogo por profissão, ofereceu à parte árabe um longo panfleto de oitenta páginas intitulado: “Israel, fato colonial?”. Os árabes solicitaram o texto para a abertura de sua seção, ou em outras palavras, do número, uma vez que concedêramos que fossem os primeiros a atirar.

Foram necessários dois anos para levar a termo essa iniciativa sem precedentes: salvo alguns artigos, o número, intitulado sem floreios “O conflito israelo-árabe”, estava praticamente pronto no início de 1967. Teria mil páginas e eu conseguira manter, apesar de todos os obstáculos, um sábio equilíbrio na quantidade de artigos de cada seção, se não na de páginas. Com exceção de Rodinson, os artigos árabes — palestinos, egípcios, marroquinos, argelinos — eram claramente mais sucintos que os israelenses.

Então se verificou aquilo que eu pressentira ao longo de nosso trabalho comum: Ali também era um homem influente e seu envolvimento no lançamento e na realização do projeto como que cumpria uma legítima missão de ordem política que lhe fora confiada pelo poder egípcio. Ele me anunciou que, para comemorar a futura publicação do número (seu próprio artigo, dissera ele, ficaria pronto pouco antes da impressão), Sartre, Simone de Beauvoir e eu seríamos convidados ao Egito por Mohamed Hassanein Heykal, o diretor do Al-Ahram, maior jornal diário do Cairo, fiel e amigo pessoal do rais Gamal Abdel Nasser. A viagem, que seria de duas semanas, estava prevista para março. Era, na verdade, como que uma viagem oficial, só poderia ocorrer com o consentimento pessoal de Nasser, o que permitia avaliar quão poderoso era o intermédio de Ali. Mas esse convite, que muito me alegrava, pedia outro, de Israel. A diferença é que não existia nenhum Nasser israelense e que Sartre não aceitava ser convidado apenas pela esquerda israelense, ou seja, por Flapan e seus amigos. Só vou mencionar aqui, sobre esta viagem ao Egito — Simone de Beauvoir certamente a relatou —, tanto turística como política, alguns fragmentos de lembrança: a confusão sem lei do Museu do Cairo, a Cidade dos Mortos, o deslumbramento de Luxor e do vale dos Reis, a abertura, para Sartre, das tumbas mais preciosas fechadas aos visitantes comuns, Assuan e suas cataratas, a formidável represa do Nilo, planejada e construída pelos soviéticos, alta e larga muralha de terra e pedra, “represa de gravidade” sem nenhuma beleza mas indestrutível, que os especialistas opõem à “represa em abóbada”, cuja graça aérea pode se revelar mortal caso um ínfimo erro se infiltre nos cálculos dos engenheiros projetistas. E, a montante da barragem, num Cessna de quatro lugares mandado pelo rais, o sobrevoo da imensa retenção do rio, batizada lago Nasser, tão cintilante e atraente sob o sol duro do vasto Sul egípcio que cogitei mergulhar nele e nadar, até que o piloto me informou ser proibido banhar-se naquelas águas infestadas de esquistossomos, a aterrissagem, enfim, em Abu-Simbel, às portas do Sudão, onde, expulsas pela construção da barragem, as maravilhas de Assuan tinham sido transportadas e estavam em processo de reinstalação. Numa faluca restaurante atracada no Cairo, a uma margem do Nilo, a mais famosa dançarina do ventre do Egito rodopia ao redor da mesa à qual jantamos com o diretor do Al-Ahram, pega na minha mão e me puxa para o centro do palco, onde permaneço imóvel, feito um poste totêmico, diante de Sartre, da Castor, de Ali, enquanto seus quadris enlouquecidos, as audácias e recuos repentinos de seu púbis, a oferecem e esquivam de mim, insuportavelmente. Aquilo durou um bocado de tempo. Quando ela terminou, inclinou-se diante de Heykal tratando-o, poesia pura para mim, por “Efêndi”.

* Relativo à União Geral Operária Judaica da Lituânia, Polônia e Rússia (Bund). (N. T.)

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O conflito israelo-árabe — Apresentação

A coexistência inerte e a contiguidade passiva custaram suor e lágrimas. A nova ambição — para Les Temps modernes — de se pretender puro receptáculo foi paga com o difícil aprendizado da diplomacia secreta e de um laborioso trabalho de preparação. Foi o inverso da nossa “ausência”. Cá estamos, enfim: para mim, que assumi há um ano e meio a responsabilidade por este número, simplesmente conseguir publicá-lo já é uma vitória. Proclamo: é porque Sartre não tem hoje o estilo épico que explicaria este longo parto. É também porque meço as lacunas e as imperfeições de uma obra como esta: verão que elas se devem precisamente ao fato de que tudo se opunha à sua existência, e que paliar isso teria retardado ainda mais seu nascimento, fazendo-a com isso correr um grande risco de morrer antes mesmo de ter vivido. Este monstro, que Les Temps Modernes apresenta a vocês, nós tratamos de pentear o melhor possível, mas pedimos que sejam indulgentes com ele: ele existe.

Quando, dois anos atrás, nasceu a ideia de fazer, com conhecimento de causa, árabes e israelenses colaborarem num mesmo número da Temps modernes, erigimos como princípio que a revista não interviria: a escolha dos temas a tratar e dos autores caberia, com plena soberania, a cada uma das partes. Mantivemos a palavra. Sucedeu então o seguinte: os árabes se opuseram à publicação de um artigo de A. Razak Abdel-Kader, argelino e partidário fervoroso da reconciliação judaico-árabe. Veto absoluto: eles se retirariam se Abdel-Kader escrevesse. Os israelenses objetavam que, se os árabes negassem a Abdel-Kader o direito de falar em nome deles, a Temps Modernes podia pelo menos lhe conceder o direito de se exprimir como indivíduo. Caíamos na célebre querela das “personalidades representativas” ou não, típica dos comitês. Argumentar teria sido inútil: era ou Abdel-Kader, ou não sairia o número. Privilegio — entre várias outras — essa “peripécia” porque, por um lado, ela manifestava que, para os árabes, o simples consentimento da “contiguidade passiva” já implicava um esforço inaudito — e quero expressar aqui minha gratidão para com os que, dentre eles, lutaram para que este dossiê existisse — e, por outro, anunciava uma dissimetria entre os dois conjuntos de artigos, que se deve ao mesmo tempo a uma radical oposição na maneira de considerar o conflito e à diferença de natureza entre os regimes políticos dos países interessados. Ainda que não tenham mandato expresso de seus governos ou de suas organizações, a maioria dos autores árabes — salvo os magrebinos — só se expressou após consultas e defende uma posição comum; os israelenses, ao contrário — como é normal numa democracia à ocidental — falam cada um em seu nome pessoal ou como porta-vozes de seus partidos, que são numerosos, como se sabe. Encontraremos, portanto, no conjunto israelense, uma maior diversidade de pontos de vista e de atitudes muitas vezes bastante críticas em relação à política oficial. Do mesmo modo, a esquerda israelense é mais bem representada aqui do que o governo ou a direita. É sempre normal: a esquerda desejava esse número com todas as suas forças, os outros se mostravam mais céticos quanto à utilidade ou mesmo a possibilidade do projeto. A grande abertura que se manifesta em certos textos israelenses não implica necessariamente que seus autores tiveram o poder de realizá-la nos fatos.

Depois de três reuniões comuns em Paris, foram constituídos dois comitês separados — um árabe, outro israelense —, com o encargo de descobrir os autores e solicitar os artigos. Decidimos nessas reuniões estruturar o número procedendo por temas, um artigo árabe seguindo-se imediatamente sobre um mesmo tema a um artigo israelense ou vice-versa. Era excitante para o espírito. Mas, assim que recebemos os primeiros manuscritos, ficou claro que esse projeto era insustentável, por absoluta falta de paralelismo na colocação dos problemas. Perseverar a qualquer preço contorcendo-se e abrindo “falsas janelas” para estabelecer uma simetria fictícia teria tornado a assimetria ainda mais manifesta. Preferimos apresentar em dois blocos a totalidade dos artigos árabes e a totalidade dos artigos israelenses: cada um ganha força com isso. Os autores árabes — já que a unanimidade deles tornava difícil a escolha de um critério lógico para estabelecer a ordem de sucessão das suas contribuições — foram agrupados por nacionalidade (palestinos, egípcios, libaneses, magrebinos) —, e a prioridade dada a uns não foi, de nossa parte, de forma alguma consequência de um juízo de valor sobre a qualidade do trabalho dos últimos…

Renunciamos do mesmo modo a outra de nossas ideias: que esse dossiê tivesse um terceiro capítulo, no qual cada parte discutiria os principais artigos da outra, que lhe submeteríamos previamente. Tal intenção, a julgar pelo tempo já destinado à redação, à tradução e, muitas vezes, à copidescagem dos textos, teria remetido às calendas gregas a publicação do número. E, depois, teria sido o início de um diálogo, o que não se desejava. Além do mais, era inútil: todas as respostas possíveis estão contidas nestes 45 artigos.

Outra fraqueza contra a qual não pudemos nada é a repetição: a mil, dois mil ou três mil quilômetros de Paris, cada autor, apesar da troca de correspondência e da delimitação precisa do seu tema, muitas vezes se acreditou sozinho, confrontado com a totalidade do problema. Porque este é de fato total e só pode ser abordado circularmente: tudo está interligado, como escreve Sartre, nessa geometria apaixonada. Cortar algo nessas cadeias de razão era ao mesmo tempo impossível e vedado; além disso, a própria repetição desses argumentos, expostos cada vez de um prisma diferente, indica suficientemente com que profundidade eles foram interiorizados por cada um, como se tornaram verdadeiros e intocáveis.

Dois europeus, Maxime Rodinson e Robert Misrahi, escrevem neste número: eles estiveram associados à sua concepção desde o início. Ambos são judeus franceses, mas têm sobre o problema posições perfeitamente opostas. Para sermos breves, Rodinson é pró-árabe, Misrahi, pró-israelense. Mas Rodinson se recusava, por questões de princípio, a ser integrado ao conjunto árabe. Teria sido lógico, portanto, isolá-lo em companhia de Misrahi. No entanto, o longo artigo de Rodinson — oitenta páginas —, que é uma vasta exposição histórica, tinha necessariamente de preceder o bloco árabe. Assim, Misrahi — em virtude da escolha da sequência enunciada anteriormente — não podia vir imediatamente depois de Rodinson, ser enfiado entre este e os árabes. Como Rodinson, ele deveria ter precedido o conjunto israelense, sem ser incorporado a ele. O próprio conteúdo do seu artigo, que se intitula “A coexistência ou a guerra”, não permitiu isso: só podia vir mesmo depois — e não antes — dos textos israelenses, que também tratam o problema historicamente. Em desespero de causa, inseri Misrahi no bloco israelense. Essas indicações não são bizantinas.

Há dezessete artigos árabes (sem contar Rodinson) contra 26 israelenses (fora Misrahi). Mas estão compreendidos entre os israelenses quatro árabes de Israel e um druso. Estes últimos são cidadãos israelenses e se apresentam como tais: se os árabes quiserem anexá-los a seu conjunto, temos um total de 21 árabes (sem o druso) e 21 judeus (sempre sem o druso), igualdade maravilhosa. A neutralidade da Temps modernes não chegou no entanto a ponto de cortar os textos para que o número de páginas dos dois blocos fosse idêntico. As exposições israelenses são geralmente mais longas. Assim é.

Que nossos leitores tenham indulgência com as asperezas de estilo. A maioria desses artigos é traduzida do árabe ou do hebraico, o francês raramente era a primeira língua de nossos tradutores. Fizemos o melhor que pudemos para remediar essas asperezas. Mas subsistiram algumas.

O leitor encontrará num anexo um mapa, uma cronologia, trechos de resoluções da onu, algumas definições e, a título de referência, certas declarações do presidente Bourguiba, porque os israelenses fizeram frequentes alusões a elas.

Para terminar gostaria de agradecer a todos aqueles e aquelas que nos ajudaram a elaborar este dossiê, em particular Monique Howard-Neumark e Simha Flapan, para a parte israelense, e Ali Elsaman, para a parte árabe.

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Isto foi escrito antes dos últimos acontecimentos. O número está no prelo, nas últimas linhas, não tenho mais a possibilidade de acrescentar o que quer que seja. Uma palavra no entanto: nosso trabalho tinha um só sentido, servir à paz.

Claude Lanzmann

Tradução de Eduardo Brandão