O desaparecimento dos autores literários

Por Tony Bellotto

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(Foto por Bentley Smith)

Outro dia, preso no aeroporto Santos Dumont, vi de longe o Sérgio Sant’Anna. O aeroporto estava um caos por conta de uma chuvinha, e ao ver o Sérgio caminhando do outro lado do saguão comecei a me mover na direção dele. Mas havia muita gente por ali, e acabei esbarrando no Zeca Pagodinho. Começamos a conversar sobre um tema inusitado para a ocasião: casamento, já que ele comprava numa joalheria do aeroporto uma aliança para a esposa. Comentávamos o fato de que, no casamento do príncipe William, ele, como futuro rei, se desobrigava de usar a aliança, ao contrário da adorável lady Kate Middleton. Quando me despedi do Zeca não vi mais o Sérgio. Fiquei desolado, porque queria dizer a ele o quanto estava gostando de ler o seu mais recente livro, O livro de Praga — Narrativas de amor e arte. O livro faz parte da coleção Amores Expressos, projeto que levou diferentes escritores a várias cidades do mundo. Foi o primeiro livro da coleção que li, e a julgar por ele, o projeto valeu a pena (pena aqui também no sentido figurado, o ofício do escritor).

O Sérgio Sant’Anna é um desses escritores que chamamos de escritor de escritores, com uma voz muito original e sempre referente às questões da arte em geral e da literatura em particular. O que mais gosto nele é como sabe equilibrar o sagrado e o profano, digamos assim, como se Carlos Zéfiro e Jorge Luis Borges escrevessem (ou desenhassem) um texto a quatro mãos.

Dias depois, lendo o mais recente romance de Vila-Matas, o Dublinesca, me deparei com algumas passagens que me fizeram lembrar do Sérgio Sant’Anna, e do tipo especial de escritor que ele é (do tipo do Vila-Matas, por exemplo). O personagem central do Dublinesca, Riba, um editor em crise existencial e profissional, topa no Google com um artigo que relata o fim da era de Gutenberg e o desaparecimento dos autores literários “em prol de um único livro universal, de um fluxo de palavras praticamente infinito, o que se conseguirá, naturalmente, diz o articulista, através da internet”.

Assombrado pelo que considera o prenúncio do fim do livro impresso, Riba sonha mais adiante com “o dia em que o fim do feitiço do best-seller dê lugar à reaparição do leitor com talento e se recoloquem os termos do contrato moral entre autor e público. Sonha com o dia em que os editores literários possam respirar de novo, aqueles editores que se desdobram por um leitor ativo, por um leitor suficientemente aberto a ponto de comprar um livro e permitir suavemente o desenho de uma consciência radicalmente diferente da sua própria”.

Não sei se o fim do livro impresso está próximo, ou se os autores literários estão de fato desaparecendo — embora na orelha do livro o escritor Ricardo Piglia afirme que às vezes acredita que já existem mais escritores do que leitores de literatura —, mas achei um mau presságio o Sérgio Sant’Anna desaparecer no meio do saguão lotado do aeroporto Santos Dumont.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

3 Comentários

  1. Ticiane kárita Gomes Alves disse:

    Penso que para nós ,que nascemos e pertencemos ainda à cultura livresca,o desinteresse das novas gerações e também de alguns autores pela cultura impressa é realmente desolador. Penso que isso ocorre graças à facilidade de publicação de textos através da internet, o que dá espaço para muito lixo vulgarmente chamado de literatura.

  2. Maurem Kayna disse:

    Penso que como todas as coisas boas e ruins planeta afora, o excesso traz alguns ônus. Publicação sempre foi antes de tudo um negócio, mas temos sempre a impressão de que antes havia mais coisas melhores (eu mesma sinto isso também…). E as facilidades atuais para expressão via web causam mesmo essa impressão de que há mais escritores que leitores… todos querem ser lidos, vistos, reconhecidos… alguns destes tantos escritores realmente escrevem bem, mas apenas alguns… igualzinho no tempo de Fitzgerald. Além disso, o serviço de publicação oferecido por muitas “editoras” contribuiu para isso – o sujeito quer publicar um livro, paga e publica. Ninguém filtrou a qualidade literária, a adequação gramatical ou qualquer outro atributo do texto. É mais um negócio. Mais ainda há bastante gente que gosta de ler e que se importa mais com o texto em si do que com o marketing da obra. Então… bem… seja impresso ou digital, a literatura ainda será um valor cultural por bastante tempo, creio…

  3. Rodrigo disse:

    Qual a relação entre o fim do livro impresso e o (continuam com essa bobagem) fim do romance?
    Um livro é o que está escrito, as palavras, a história… não a celulose.

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