Os escritores e a grana

Por Joca Reiners Terron


A edição de julho da revista Piauí traz uma seleção das cartas de Julio Cortázar a Eduardo Jonquières, seu amigo de adolescência. A correspondência, retirada do póstumo Carta a los Jonquières (Aguilar, 2010), retrata essa amizade de cinquenta anos, servindo como a autobiografia que Julio (depois de ler as cartas se torna impossível chamá-lo pelo sobrenome) nunca escreveu.

As primeiras resenhas que pipocaram na imprensa já chamavam a atenção para o principal assunto dessas cartas: dinheiro, ou a falta de. Nelas, o cronópio lamenta sua sorte, pede emprestado, chora o extravio de envelopes contendo notas, acusa atrasos em pagamentos, reclama de como sua falta lhe afeta a dieta, de como sua ausência o obriga a traduzir e a traduzir demais, e a escrever textos que não gostaria de escrever, e a viajar de classe econômica etc.

Em uma das missivas selecionadas e traduzidas por Davi Arrigucci Jr (que igualmente as apresenta), há uma descrição rabelaisiana do caos que impera a bordo de um navio da Compagnie Générale des Transports Maritimes no qual Julio embarcou ao lado de Aurora Bernárdez (sua primeira mulher), rumo a Dacar. Ambos viajam de terceira classe, e têm como vizinha de cabine uma escotilha que dá para o toilette feminino. Cansado da ruidosa faina do mulherio, ele empreende uma investigação em todos os banheiros de bombordo a estibordo, e depois escreve a Eduardo amaldiçoando a miséria e a fisiologia humanas.

O relato financeiro mais excruciante de todos, entretanto, está numa carta enviada em 9 de dezembro de 1953 de Roma, onde Julio e Glop (o apelido tão delicioso quanto sonoro de Aurora) vagabundeavam e aguardavam uma remessa de dinheiro enviada por Jonquières pelo correio. Com o atraso e o passar dos dias, o Correio (assim mesmo, com maiúsculas de nome próprio) vai adquirindo proporções de grande vilão. Para aumentar o suspense, as cartas eram entregues na Itália somente em dois dias da semana, na terça e na sexta. Julio se descabela, quase um mês se passa, e nada de a grana entrar por debaixo da porta.

O casal então adota economia de guerra, fazendo apenas uma refeição diária. Não existe mais dinheiro para o vinho, ó lástima! A barriga vazia, porém, não tornava Julio menos divertido: “(…) decidimos iniciar a era dos recursos heróicos. Descartamos o mais vulgar de lançar a sorte, a fim de incorrer no usual canibalismo. Aurora achava que era pequenina demais para me alimentar por muito tempo, e quanto a mim, sou um monte de ossos, e realmente não poderia lhe deixar muito para comer.”

Por fim, o drama monetário de Julio & Glop termina bem, com a chegada do envelope e os dois sendo devolvidos “à pizza e ao sonho sem íncubos.” Dilema historicamente ligado à existência dos escritores, a dureza permanece crônica para muitos deles (oi). Uma série de três crônicas de Simon Leys a esse respeito publicadas no Magazine Littéraire e reunidas no livro Le bonheur des petits poissons reúne alguns tristes (e magérrimos) episódios. Para que sirvam de alerta, não custa lembrá-los.

Com um paradoxo lapidar, Samuel Johnson definiu a origem do problema: “Nenhum homem, a menos que seja um perfeito idiota, ia querer escrever nunca nada, a não ser que se pague por isto”. Simon Leys lembra então que Johnson escreveu em algumas poucas semanas sua obra-prima Rásselas, príncipe da Abissínia, somente a fim de pagar o funeral da mãe. As atribulações econômicas da vida dos escritores sempre tinham editores por perto.

Com o desenvolvimento da indústria editorial no século 19, escritores deixaram de sobreviver às custas dos mecenas e das benésses da corte, passando cada vez mais a fazer parte de uma cadeia profissional que ao mesmo tempo lhes protegia e açoitava, permitindo surgir daí uma relação de natureza ambígua com editores, que Edmund Wilson afirmava “serem todos uns cães.” A recíproca não só era notória como verdadeira. Gaston Gallimard, o grande editor francês, dizia que “um escritor com frequência não é um homem, mas uma fêmea à qual se deve pagar mesmo sabendo que sempre está disposta a se entregar a outros. É uma puta”.

Contudo, nos últimos tempos amor e ódio arrefeceram, cedendo lugar a relações trabalhistas menos “calientes” e mais profissionais. A título de final melancólico, uma historinha com Dostoiévski, célebre durango kid, que de certo modo se relaciona àquela desventura postal vivida por Julio Cortázar. No estrangeiro, sem um puto no bolso e impossibilitado de retornar para casa, Dostoiévski escreveu velozmente o romance O eterno marido a fim de negociá-lo com seu editor russo. Depois de escrito o livro, no entanto, ao chegar na agência do Correio (sempre ele, o crudelíssimo supervilão), descobriu que nem ao menos tinha dinheiro suficiente para despachá-lo.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

14 Comentários

  1. Eduardo Alves disse:

    É justo querer ser recompensando financeiramente por algo que se faz bem.

  2. […] um trecho da coluna publica no blog da Cia das Letras: O casal então adota economia de guerra, fazendo apenas uma refeição diária. Não existe mais […]

  3. Lafaiete Luiz disse:

    Feodor sempre esteve com os bolsos meio vazios. Quase foi para a prisão por conta de dívidas. Saiu da Sibéria e telef.. ops… escreveu longa carta ao irmão (um tratado esta carta, há pouco publicada na novíssima tradução de Recordações da Casa dos Mortos, da Nova Alexandria) em que pedia livros, livros e mais livros – e livros também custavam muito dinheiro rsrs!

  4. Angela Belei disse:

    é… só me dá mais fome isso tudo. De letras e de mais vinho!
    Os tempos sempre serão difíceis pros escritores?! Blah.

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