Anthony Bourdain vs. Ronald McDonald

Quem gosta de programas de culinária já conhece o crítico ranzinza Anthony Bourdain. Com seu programa de tevê, ele roda o mundo atrás de bons pratos e das histórias de quem os prepara. Seja comendo carne apimentada num bar sujo em Chengdu ou descrevendo o menu quatro estrelas do chef Thomas Keller, o que importa a ele é o material humano que compõe esse rico universo da gastronomia.
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Dez anos depois do best-seller Cozinha confidencial, livro de memórias em que Bourdain narra os bastidores da cozinha de grandes restaurantes, o ex-chef volta com novas histórias em Ao ponto, que lançaremos dia 26. Nele, o autor participa de um banquete com os chefs mais renomados, circula de lambreta por Hanói atrás da sopa pho perfeita, come espetinhos com trabalhadores em Tóquio e bebe todas num carrinho de tacos no México.
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Claro que Bourdain não se furta a longas e saborosas descrições culinárias, com requintes de crueldade que ele mesmo admite. Mas os textos reunidos neste livro vão muito além de um bom jantar. Bourdain desanca medalhões da crítica gastronômica, examina a indústria de fast-food americana e revela os bastidores do reality-show Top Chef. Também revê seu passado com as drogas, agora sob a perspectiva de quem encara a paternidade pela primeira vez. E, como numa espécie de epílogo, narra o que aconteceu com os personagens de Cozinha confidencial uma década depois.
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Leia abaixo um capítulo de Ao ponto (tradução de Celso Nogueira):

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Capítulo 10: Educação básica

Minha mulher e eu estamos falando baixinho, bem na porta do quarto de nossa filha, onde ela finge dormir.

“Psssiiu! Ela vai ouvir tudo”, diz minha mulher, em tom teatral e conspiratório.

“Nada disso, ela já está dormindo”, sussurro em voz um pouco alta, como fazem os atores no palco.

Conversamos sobre Ronald McDonald novamente. Discutimos a possibilidade de seu envolvimento no desaparecimento de mais uma criança pequena.

“Não! Mais uma!”, suspira minha mulher, bancando a incrédula.

“Uma pena”, comento, preocupado. “Ela entrou para comprar batatinha frita e um McLanche Feliz e nunca mais foi vista…”

“Alguém procura por ela?”

“Claro que sim… estão vasculhando tudo que é lugar… foram até no Hamburglar, o esconderijo dos malvados. Mas eles desconfiam de novo do Ronald.”

“Por que desconfiam do Ronald?”

“Sabe… da última vez? Quando finalmente encontraram o menininho? Como era mesmo o nome dele… Timmy? A polícia descobriu várias pistas. O corpo… cheio de… piolhos.”

Era apenas mais um ato de nossa produção dramática — pequena contribuição a uma campanha mais ampla de guerra psicológica. O alvo? Uma menina de dois anos e meio.

Há muita coisa em jogo. Na minha opinião, nada menos que o coração, a mente, a alma e o bem-estar físico de minha adorada filha única. Decidi que o Império do Mal não a dominará, e para tanto estou preparado para usar o que Malcolm X chamou de “todos os meios necessários”.

O McDonald’s tem sido muito habilidoso em manipular criancinhas. Digam o que disserem sobre Ronald e sua turma, eles conhecem o mercado — e quem o controla. Eles não deixaram de visar as mentes jovens — na verdade, o orçamento promocional de zilhões de dólares parece destinar-se principalmente aos pequenos. Eles sabem que uma criança chorando no banco traseiro do carro de dois pais sobrecarregados e estressados determinará, na maioria das vezes, a escolha do restaurante. Eles sabem exatamente quando e como iniciar a campanha de identificação e fidelização à marca, usando palhaços coloridos e brinquedos atraentes. Sabem que o pequeno Timmy, com cuidado, paciência e exposição correta aos objetos coloridos, crescerá para se tornar um consumidor pleno de múltiplos Big Macs. Por isso dizem que Ronald McDonald é mais conhecido pelas crianças que o Mickey Mouse ou Jesus.

Pessoalmente, não me importa se minha filha conhece ou não os dois caras citados — mas o relacionamento dela com Ronald me preocupa muito. Desejo que ela veja a cultura americana de fast-food como eu a vejo: minha inimiga.

Em estratégias como seduzir crianças de escolas carentes da periferia à malandragem de construir brinquedos, o McDonald’s não se envergonha de foder com a cabeça dos pequenos de todas as maneiras possíveis. Eles são espertos. E eu não tiraria deles o direito de fazer propaganda e promoção, ou outras formas de divulgação. Se a Disney pode se insinuar na vida dos jovens de todas as partes, tudo bem que Ronald também faça isso. Não vejo justificativa defensável para levá-los aos tribunais. De todo modo, são poderosos demais.

Onde quer que você vá, o Palhaço, o Rei e o Coronel estão nas ruas. Ou, melhor dizendo, nas mesmas mentes juvenis impressionáveis que eles conseguiram enganar com sucesso por tanto tempo.

Minha intenção é ferrar com eles também.

Chega a chocar, de tão fácil.

O sério chamado às armas de Eric Schlosser, País fast-food, tem os fatos a seu favor, mas com eles ninguém convence uma menina de três anos a desistir do McLanche Feliz — nem mesmo atrai a atenção dela. O Palhaço, o Rei e o Coronel — e seus amigos cor de doce com alto teor de frutose — são inimigos formidáveis. E se a história nos ensinou algo, é que a melhor defesa é o ataque. Não ganharemos o debate com fatos. As crianças não dão a mínima para a quantidade de calorias, ou para o tipo de criação, ou para o impacto que o insaciável desejo americano por carne moída barata possa ter no ambiente ou na saúde de nossa sociedade.

Mas de piolho elas entendem.

Qual seria a coisa mais assustadora para uma criança? Talvez a dor da exclusão, de parecer ridícula aos olhos alheios, sendo atormentada e zombada na escola. Qualquer criança treme de medo só de pensar nisso. Trata-se de um instinto primordial: pertencer. O McDonald’s sem dúvida percebeu o fato. Além das cores específicas capazes de atrair a atenção das crianças pequenas, conhecem as texturas, filmes e programas de tevê capazes de atraí-las para os discos cinzentos de carne. Eles não têm o menor escrúpulo de manipular os medos e desejos inarticulados das crianças pequenas, e nem eu.

“Ronald tem piolho”, explico, sempre que ele aparece na televisão ou na janela do carro. “E, você sabia”, acrescento, baixando a voz, “que ele fede, também? Tem cheiro de… cocô” (devo dizer que tomo a precaução de acrescentar a palavra “supostamente” sempre que faço uma afirmação dessas, pois sei que meus sussurros para uma menina de dois anos podem ser equivocadamente considerados difamatórios, e usados contra mim no tribunal).

“Se a gente abraçar o Ronald… pode pegar piolho?” Minha filha pergunta, arregalando os olhinhos de horror.

“Dizem que sim”, respondo — não quero mentir —, para o caso de ela encontrar o elemento num aniversário infantil, algum dia. Uma resposta de advogado, mas funciona. “Muita gente reclama do cheiro, também… não quer dizer que vai pegar em você, mas se chegar muito perto…”, e deixei a frase no ar, por um tempo.

“Aiiiiiiiiii”, disse minha filha.

Sentados em silêncio, ela ponderou o caso, antes de perguntar: “É verdade que você pode ficar ree-tardado se comer o hambúrguer do McDonald’s?”.

Não pude evitar a gargalhada ao ouvir isso, e a abracei com força. Beijei sua testa antes de dizer, diplomático: “Rá. Rá. Rá. Não, de onde você tira essas ideias?”.

Eu talvez tenha plantado a semente da ideia algumas semanas antes, ou não, quando “sem querer” deixei sua amiguinha Tiffany entreouvir a conversa que eu fingia manter no telefone celular, depois da aula de balé das duas. Eu monitorei a informação duvidosa como uma refeição de bário percorrendo os canais subterrâneos de comunicação infantil — esperei, esperei até que saísse do outro lado —, e finalmente ela veio. Bingo.

A CIA chama isso de “antipropaganda”; trata-se de uma contraofensiva razoável, de baixo custo, creio, perante a superioridade monumental das forças alinhadas contra nós.

Recordo-me nitidamente de um boato sobre pelos de rato nos doces Chunky quando eu era pequeno. Percorreu os pátios escolares do país inteiro — isso bem antes da internet —, e, pelo que me lembro, causou um efeito terrível nas vendas da empresa. Não sei onde o boato começou. E foi provado que era tudo mentira.

Não estou sugerindo nada moralmente condenável e inquestionavelmente ilegal.

Só estou relatando.

A inclusão de informações nutricionais, com o total de calorias, não funciona, segundo um artigo recente do New York Times. As barrigas americanas aumentam sem parar. O diabetes tipo 2 cresce de modo alarmante entre as crianças.

Para mim, em princípio, é repugnante a sugestão de legislar sobre comida. Cruzaremos uma linha terrível se, como nação, nos infantilizarmos ao extremo de o governo precisar interferir e arrancar os Whoppers do Burger King de nossas mãos. É desanimador, mas provavelmente inevitável. Quando chegarmos a ponto de sermos incapazes de formar uma força militar de espécimes fisicamente aptos — ou a segurança pública for posta em xeque depois de um desastre, como o bloqueio da saída de emergência por uma pessoa obesa, em caso de incêndio — o governo intervirá, certamente.

Um “imposto sobre a gordura” provavelmente surgirá no horizonte, também — a ideia funcionou com o cigarro.

Primeiro tributaram o cigarro até não poder mais. Depois expulsaram os fumantes de seus locais de trabalho, restaurantes, bares — e até de casa, em determinados casos. Tendo sido punidos, marginalizados, atirados no frio feito animais, muitos — como eu — acabaram largando o cigarro.

Não quero ver minha filha sendo tratada assim.

E me pergunto: por que esperar?

Não creio que seja direito ou apropriado criar meninas num mundo onde atrizes assustadoramente anoréxicas e esqueléticas, além de manequins doentes de tão magras, sejam apresentadas como modelos de beleza feminina. Ninguém deveria ser pressionado a adotar essa imagem.

Da mesma forma, não acho legal alguém ser obeso mórbido. Não se pode falar em “estilo de vida alternativo”, nem de “escolha da imagem corporal”, se o cara só sai do carro com ajuda.

Penso constantemente em maneiras de ajudar minha filha em suas escolhas alimentares, mas sem pressioná-la a aceitar meus conceitos. “Veja como Miley Cyrus é linda” são palavras que nunca sairão de minha boca, pois essas noções podem levar uma jovem à bulimia, namorados ruins e até metanfetamina.

Portanto, quando li num estudo recente que as crianças se mostram bem mais dispostas a ingerir alimentos “difíceis”, como fígado, espinafre e brócolis — bem como outros clássicos “bons para a saúde” — quando servidos em embalagens brilhantes e atraentes do McDonald’s, fiquei primeiro espantado… depois, inspirado.

Em vez de pegar carona na credibilidade eficaz de Ronald entre as crianças, com objetivos de curto prazo, como fazer minha filha comer espinafre de vez em quando, eu posso fazer a engenharia reversa disso! Usando os estranhos e terríveis poderes dos Arcos Dourados para o bem — e não para o mal!

Pretendo cobrir um ingrediente bem nojento com chocolate e embrulhá-lo caprichosamente numa embalagem do McDonald’s. Nada perigoso, veja bem, mas um alimento que uma menina de dois anos e meio considera “podre” — e até assustador — ao extremo. Talvez uma esponja embebida em vinagre. Um tufo de cabelo. A cabeça da Barbie. Depois a colocarei dentro da conhecida embalagem de papelão e a deixarei — como se tivesse esquecido — em algum lugar, para minha filha encontrá-la. Talvez a alerte: “Se você vir alguma coisa do McDonald’s, não coma, pois é ruim”, direi antes de deixá-la com o pacote. “Seu pai é tonto, comprou chocolate e agora perdeu…”, posso resmungar audivelmente, como se falasse sozinho, antes de dar um longo passeio até a lavanderia.

Uma experiência precoce, traumática, com Ronald, só pode ser boa para ela.

2 Comentários

  1. […] Ao ponto, de Anthony Bourdain (Tradução de Celso Nogueira) Quem gosta de programas de culinária já conhece o crítico ranzinza Anthony Bourdain. Com seu programa de tevê, ele roda o mundo atrás de bons pratos e das histórias de quem os prepara. Seja comendo carne apimentada num bar sujo em Chengdu ou descrevendo o menu quatro estrelas do chef Thomas Keller, o que importa a ele é o material humano que compõe esse rico universo da gastronomia. Claro que Bourdain não se furta a longas e saborosas descrições culinárias, com requintes de crueldade que ele mesmo admite. Mas os textos reunidos neste livro vão muito além de um bom jantar. Bourdain desanca medalhões da crítica gastronômica, examina a indústria de fast-food americana e revela os bastidores do reality-show Top Chef. (Leia o capítulo “Educação básica”) […]

  2. Hahaha… a melhor pauta EVER!!

    Toma Ronald!!!

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