Antigas cicatrizes

Não é de hoje que o antissemitismo na França é tabu. Assunto ainda mais controverso é a colaboração com os ocupantes nazistas (a maior vergonha nacional francesa no século XX talvez tenha sido a rápida tomada do país pelos alemães em maio de 1940, e a instalação do governo fantoche em Vichy). Passados quase setenta anos do fim da Segunda Guerra, acusar algum figurão de collabo continua a fazer a terra tremer.

O frisson que o assunto pode causar entre a opinião pública foi bem ilustrado pela polêmica em torno da mais recente biografia de Chanel (Dormindo com o inimigo, com lançamento pela Companhia das Letras previsto para meados de setembro), na qual o jornalista americano Hal Vaughan sustenta que a grande dama da haute couture teria sido agente da Abwehr, a inteligência alemã, nos anos em que viveu com um certo Spatz (“pardal”, em alemão) em uma suíte do Ritz.

Nos comentários de leitores às críticas do Le Monde e do Libération, as defesas calorosas da inventora do “pretinho básico” e da fragrância feminina mais popular de todos os tempos são muitas vezes risíveis. Além de um belo aperitivo à leitura, são retrato das marcas da ocupação nazista (e da colaboração) no imaginário francês.

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Otávio Marques da Costa é editor assistente da Companhia das Letras.