Fregueses vs. livrarias

Por Hillé

O cenário é o de sempre: livraria de grande porte no coração da cidade mais tresloucada do país. Apesar de todo o charme arquitetônico, o que realmente chama atenção de quem a observa com um pouco mais de carinho são os fregueses. Tem de tudo, vai por mim, estou lá há quase três anos. Tem a japonesa que chega às dez da manhã, pega o primeiro livro de concurso público que encontra pela frente e só vai embora quando o expediente da loja chega ao fim; o velhinho de chapéu panamá e sua implacável obstinação em ter todas as edições do kama sutra; a senhora de idade que gasta seus 156 salários mínimos em livros com jovens descamisados na capa (e que ela mesma já admitiu não ler); entre tantos, tantos e tantos outros.

— Você já leu alguma coisa sobre esse livro? Isso é novo? O que você sabe sobre esse aqui? E sobre esse? Esse livro é bom? Alguma revista já falou sobre esse? E esse aqui, é lançamento? Esse é bom? E esse?

Quem dispara a série de perguntas, enquanto aponta para alguns livros expostos, é um frequentador assíduo do lugar onde trabalho: vou chamá-lo carinhosamente de senhor metralha. O senhor metralha é o típico freguês que acha que nós, livreiros, somos seres iluminados e que temos à nossa disposição todo o tempo do mundo para ler o acervo inteiro da livraria. E mais, ele acredita cegamente que temos o privilégio de consumir todos (e quando eu digo todos, creia em mim) os lançamentos antes mesmo do livro ser imaginado pelo próprio autor. Mas o senhor metralha não é o único, há toda uma gangue que, diariamente, tenta deixar a autoestima do povo livreiro lá embaixo com indagações do tipo: “como assim você ainda não leu o novo livro da nossa maior escritora de autoajuda?”. É, meus amigos, não é fácil pra ninguém.

Pra deixar o ambiente ainda mais divertido (ai, que divertido), além da gangue do senhor metralha, existe também a turma dos fregueses que sai de casa confiando apenas na nossa memória visual. “Anotar o nome do livro que eu preciso comprar? Mas que nada! O livreiro daquela livraria conhece TUDO, cê vai ver só”. Sendo assim, não é preciso muito para começar a gincana: “Oi, semana passada eu estive aqui e tinha um livro bem pequeno em cima daquele balcão. Onde ele está?” ou “Eu fui lá na outra loja de vocês e tinha um livro vermelho que falava sobre borboletas jamaicanas. Você sabe qual é?” ou “Oi, eu queria um livro, mas não sei o título, o autor, não sei sobre o que se trata, não sei se tem páginas, mas posso garantir que a capa é azul”. Não disse que era pura diversão?

Embora os dois grupos de fregueses citados acima tenham espaço cativo no coração de todo ser que trabalha em livraria, há o grupo daqueles que nos deixa, assim, de joelhos, de tanto amor. Faz parte desse grupo aquele freguês que confunde alho com bugalhos; que mistura título com autor, livraria com biblioteca, cachorro com gato e Machado de Assis com Brás Cubas. É aquele freguês que diz que Tolstói escreveu a trilogia do Senhor dos Anéis e pergunta se, além de Memórias póstumas, Brás Cubas escreveu outros livros. Não fica de fora, também, o freguês que marcou um x no meu coração, depois de travar o seguinte diálogo comigo ontem:

— Moça, você já tem o livro do filme A árvore da vida?
(peraí, peraí, peraí)
— Mas esse filme foi inspirado em um livro?
— Claro. Já tem?
(“claro”. livreira olha no sistema, revira a internet, pede ajuda às cartas, aos universitários, aos escritores já falecidos, ao universo, e nada.)
— O senhor tem certeza que o filme foi inspirado em um livro?
— Ué, e não foi?
(hahaha ma che!)
— Olha, então, pelo o que eu tô vendo aqui, não, viu?
— Mas eles transformam em livro, né?
— O quê?
— Filme que faz sucesso, moça. Todo filme que faz sucesso não é transformado em livro?
— Como assim?
(ok, o “como assim?” mas, né, desenha o que você tá falando porque eu não tô entendendo nada.)
— Ah, moça, vários livros, né?
— Não, meu senhor, na grande maioria dos casos, livros são transformados em filmes e não o contrário.
— Ah, mas o contrário não acontece mesmo?
(OLHA)

manual prático de bons modos em livrarias:
assim como o personagem de Bill Bailey, da série Black Books (extinto seriado inglês, que retratava o cotidiano de uma pequena bookstore em Londres), antes de trabalhar com pessoas e livros, eu imaginava a livraria como um retrato fiel do paraíso profissional: livros all over, pessoas inteligentes, conversas agradáveis etc etc etc. Mas te dou uma realidade? O delírio cobre tudo isso aí. E, apesar da loucura desenfreada, dos fregueses psicodélicos, diariamente, fico emocionada com alguma situação. A mais marcante, até hoje, foi o caso do senhor que morou por dez anos na rua e diz ter sido salvo pela literatura. E eu poderia passar horas e horas falando sobre os bastidores do meu trabalho, mas o (querido) Rogério Ortega/Ruy Goiaba me mandou um textinho do George Orwell que retrata, de forma brilhante, o trabalho livresco. Para ler, só clicar aqui.

* * * * *

Hillé comenta sobre seu dia-a-dia de livreira no blog [manual prático de bons modos em livrarias].

42 Comentários

  1. Adriana Mota disse:

    Adorei o que escreveu sobre a rotina nas livrarias.Muito sutil,carinhoso e realista. Já convivi com essa realidade e tenho muita saudade desses momentos( e outros que não mencionou). Parabéns pelo texto.

  2. Vitória disse:

    mas apesar de tudo isso deve ser tão bom,
    até essas doideiras devem ser legais – ao menos depois .-.
    uahsaush
    adoooro o Manual Prático de Bons Modos em Livrarias (;

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