Gatsby no cinema

Por Vanessa Barbara

Em 29 de setembro, a Penguin Companhia irá lançar O grande Gatsby, com introdução e notas de Tony Tanner e tradução desta vossa humilde criada. Até então, o clássico de F. Scott Fitzgerald havia sido publicado no Brasil em 1980, pela Abril Cultural, em tradução de Brenno Silveira, e este ano pela Record, traduzido por Roberto Muggiati.

Durante os quatro meses que passei com Nick Carraway em Long Island, pude assistir três das seis versões cinematográficas do romance. Da primeira, lançada em 1926, restou apenas o trailer, mas sabe-se que era bastante fiel ao romance (embora fosse um filme mudo). A segunda é muitíssimo interessante, mas pelos motivos errados.

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Gatsby de 1949

Lançada em 1949 e dirigida por Elliott Nugent, esta adaptação ganhou um delirante subtítulo em português: O grande Gatsby – Até o céu tem limites. Encontrei muitas resenhas elogiando a performance de Alan Ladd no papel principal, e foi com grande expectativa que me dispus a ver o filme, após procurá-lo febrilmente pelos torrents desta vida.
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Quase morri de decepção. O longa já começa equivocado: vinte anos mais tarde, o casal Nick e Jordan visita o túmulo do notório gângster Jay Gatsby (o leitor não precisa se preocupar com spoilers, já que muita coisa dessa trama passa bem longe do original). Sim, pois as cenas seguintes deixam bem clara a ocupação do nosso herói: ele é visto trocando tiros com a polícia, traficando bebidas alcoólicas, sendo perseguido pela Lei e tocando o horror num flashback moralizante e destituído de nuances.

Em sua lápide, uma passagem bíblica escolhida por Nick: “Tal caminho parece reto para alguém, mas afinal é o caminho da morte”. Fiquei imaginando que tipo de gente bota uma coisa dessas na lápide do amigo.

Uma a uma, todas as ambiguidades do romance são destroçadas a golpes de marreta: com sua estola de peles, Myrtle sai da oficina correndo e grita: “O carro amarelo! É ele! Pare!”, algo que é apenas sugerido no livro — se tanto. A cena mostra sem pudor quem estava ao volante do automóvel, o momento da colisão e o ímpeto vingativo de George Wilson.

Antes disso, no quarto do hotel, em lugar de uma situação tensa e trágica, Daisy se decide a ficar com Gatsby, exclamando: “Estou indo embora e nada no mundo vai me segurar!”. Confesso que ri em voz alta. Mais que isso, ela faz menção de se entregar à polícia e pede ajuda ao marido. “Não me deixe ser covarde, não me deixe ser fraca e egoísta. Por favor, pela primeira vez na vida, me ajude a ser leal e decente, fazendo o que é certo”. Tom responde: “Não, você está tentando me confundir”. Em seguida, tenta avisar Gatsby de que alguém está atrás dele.

Nessa versão, assim como nas demais, Nick é um santo: não só precisa ser contido em sua ânsia de fazer o bem (“vocês não podem deixar Jay levar a culpa!”), como no final se casa com Jordan. Tom é coagido por um homem armado, mas ainda assim não dedura o rival.

É como se fosse tudo um mal-entendido, um azar cósmico, e não uma consequência direta dos atos dos personagens, todos egoístas e descuidados — sem exceções, como observa Tony Tanner sobre Nick em sua introdução.

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Gatsby de 1974

A mais famosa das adaptações para o cinema é a dirigida por Jack Clayton e roteirizada por Francis Ford Coppola. Mia Farrow está no papel de Daisy, Sam Waterston é o narrador e Robert Redford é Jay Gatsby, numa eterna pose blasé com as mãos nos bolsos que até hoje me vem à mente quando penso no personagem.
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Trata-se de uma versão quase literal dos acontecimentos do livro, unanimemente massacrada pela crítica por ser fiel ao texto e equivocada quanto às emoções e simbolismos do livro. O próprio Coppola renega o roteiro, dizendo que o diretor nem deve tê-lo levado em conta. Antes de Coppola, Truman Capote arriscou-se na função, mas parece que seu rascunho inicial fazia de Nick um homossexual e de Jordan uma lésbica vingativa. Foi demitido, e Coppola escreveu seu roteiro em três semanas.
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O resultado é um filme idêntico ao livro na aparência. Por dentro, é “tão morto quanto um cadáver que está há muito tempo no fundo da piscina”, conforme um crítico do Times. É superficial e melodramático, focando apenas no romance entre os personagens, mas, ainda assim, foi a versão que mais me agradou — fiquei satisfeita de poder assistir à história e às cenas do livro, com diálogos literais, embora o fato de Mia Farrow resistir a um Gatsby interpretado por Redford não faça o menor sentido. (Talvez tivesse sido melhor escolher um ator menos charmoso — entre os nomes cogitados à época, Warren Beatty e Steve McQueen dariam na mesma, mas Jack Nicholson seria uma boa opção, pois que é mais feioso.)

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Gatsby de 2000

A adaptação seguinte foi feita para a TV e dirigida por Robert Markowitz, numa parceria entre o canal norte-americano A&E e a britânica Granada Produções. Mira Sorvino faz o papel de Daisy, Paul Rudd é o narrador e Toby Stephens é Jay Gatsby.
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Esta versão também situa Gatsby como protagonista, numa trama invariavelmente focada no romance entre os dois amantes, prestando pouca ou nenhuma atenção ao narrador. Embora a adição das palavras finais do livro seja louvável, não gostei dos atores que fazem Gatsby e Tom — este último, que é pra ser um brutamontes, atua de forma quase gentil. Ele acerta no desdém, mas falha em agir como um grandalhão preconceituoso e agressivo, sem o menor respeito pelas mulheres. Tanto que, na cena da bofetada, ele chega a pedir desculpas à amante, como se o próprio ator não conseguisse evitar seu cavalheirismo.

Outro deslize do roteiro é associar grosseiramente o Homem dos Olhos de Coruja ao anúncio do Dr. T. J. Eckleburg, como se estivéssemos filmando um Gatsby for Dummies.

Uma das principais cenas do livro, a meu ver, é o encontro final entre Tom e o narrador, quando este finalmente cede e decide cumprimentar o brutamontes — apesar de tudo o que houve. Em nenhuma das adaptações a cena foi bem resolvida, tornando-se mais um momento de piedade do que de submissão moral do narrador perante as atrocidades dos demais.

Contudo, esta adaptação de 2000 é uma versão interessante que contém um quê da atmosfera do livro, e devo confessar que a Daisy de Mira Sorvino me agradou mais do que eu estaria disposta a admitir.

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Outros Gatsbies

Além dessas adaptações, há um filme obscuro do diretor Christopher Scott Cherot, de 2002, chamado G: Triângulo amoroso, cuja história é vagamente baseada no romance de Fitzgerald. O herói é um magnata do hip hop que deseja conquistar de volta o amor de sua vida.
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Em 2007, o coreano Lee Kang-hoon dirigiu uma série de TV para o público jovem chamada The Great Catsby que, a despeito do que se pensa, não é uma adaptação direta do romance, mas de uma história em quadrinhos protagonizada por gatos — esta, sim, foi vagamente baseada no livro. Daisy ganhou o nome de Persu e troca Catsby por Houndu, um executivo bem-sucedido. Um trecho dessa insólita série pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=UmRgUn7PTCE.
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Por fim, chegamos a 2011, quando o diretor Baz Luhrmann decidiu filmar, na Austrália, uma adaptação em 3D do clássico romance. Leonardo DiCaprio está no papel principal, Tobey McGuire é o narrador e Carey Mulligan é Daisy.

Os críticos já prenunciam mais um desastre, argumentando que é impossível adaptar o livro para as telas do jeito que Hollywood gostaria, já que o protagonista não é Gatsby, mas Nick Carraway, e o livro trata de seus dilemas morais.

A despeito de toda essa polêmica, há uma adaptação que ninguém menciona e que se ergue soberana entre as demais: O grande Gatsby para NES, um jogo de 8-bits com cara de antigo, criado por Charlie Hoey e Pete Smith. Este, sim, captura as nuances simbólicas do livro e se arrisca a modificações necessárias, como a jornada de Nick pela rede de esgoto novaiorquina e a aparição de espectros holandeses na praia, que são derrotados quando o herói arremessa seu chapéu. Os olhos do Dr. T. J. Eckleburg são um dos chefes de fase, bem como a luz verde que pisca no cais. Também é a única versão que acerta no protagonista: Nick Carraway.

Para jogar: http://greatgatsbygame.com.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

16 Comentários

  1. Caríssima,

    Como sou fã de ebooks estou sofrendo um pouco com o, digamos, “delay” da Companhia em lançar as versões dos livros da Penguin-Companhia em ebook. Por exemplo, estou esperando Oscar Wilde, o novo Henry James e o Tolstoi em ebook, mas está difícil :-)

    Espero que o Grande Gatsby e Ulisses sejam lançados em ebook simultaneamente pois são livros que quero ter em edição da Penguin-Companhia pelos ensaios que geralmente acompanham essas obras, que são um show à parte, sem iguais no mercado editorial.

    Náo custa sonhar :-)

  2. Miguel Del Castillo disse:

    será que tem o game em app pra iphone?

  3. […] Raquel Cozer escreveu no caderno Sabático sobre a superprodução e encalhe de livros e engenheiros expõe réplica róbotica do escritor Philip K. Dick na Feira de Tecnópolis (em espanhol). E no Blog da Companhia, Vanessa Barbara fala sobre Gatsby no cinema. […]

  4. Bruno Gabriel disse:

    E que tal o Gatsby em quadrinhos da Nicki Greenberg, já viu? Eu mesmo ainda não li, mas minha filha no. 3 leu e disse que é muito bom, haha! Disso aqui dá pra ter uma idéia razoável de que a coisa é séria:

    http://nickigreenberg.blogspot.com/2010/05/talking-about-adapting-gatsby.html

    E o seu Hamlet parece ainda mais pirado, olha só:

    http://www.allenandunwin.com/_uploads/BookPdf/Extract/9781741756425.pdf

    Bem que a Cia. podia trazer essas jóias pra cá pelo selo de quadrinhos. Passe a dica lá pros caras. Abs.

  5. Allan Araujo disse:

    Há uma semana li a edição da Abril. Não sei se por conta da tradução, mas alguns trechos quando não entendi, achei-os maçantes. Já planejava procurar outras edições. Adorei suas análises e comprei recentemente ‘O verão do Chibo’ e o ‘O Livro Amarelo…’ e espero me deliciar com suas obras.
    ;D

  6. Arthur disse:

    Tá, não resisti, voltei ao jogo e, dessa vez, zerei.
    Por hoje é só.

  7. Arthur disse:

    Chegar em casa e ter texto novo da Vanessa… não tem preço. Ainda mais quando o texto tem esse tamanhão. =)
    Sobre o Gatsby, eu comecei a lê-lo uma vez, mas não fui além das primeiras páginas. Acho que vou esperar pela edição da Penguin e bancar o “leitor reclamão” caso a tradução não tenha a mesma fluência e elegância do texto d’O livro amarelo do terminal. =P
    O jogo é bom demais, mas eu não acho que tenha conseguido passar da fase com os prédios e caras que atiram coisas e tal. Ou foi do trem que eu não consegui passar? Não lembro direito qual vem depois de qual (nem vou cair na viciante armadilha de voltar a jogá-lo).

  8. Vanessa disse:

    Sim, eu cheguei a sonhar com o Sam Waterston! Ele está demais no filme.

  9. Daniel Couri disse:

    Ótima análise, Vanessa! Também acho a versão de 1974 a melhor, apesar de não ter sido bem recebida pela crítica. A única versão traduzida que li foi a da Abril Cultural, mas estou curioso para ler a sua. Sucesso!

  10. denise bottmann disse:

    ah, e sam waterston é absolutamente sublime no papel do narrador. por si só valeria qualquer grande gatsby :-)

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