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Por Érico Assis


(Foto por Paul W. Locke)

“A maioria dos gibis de hoje tem 20 páginas, das quais pelo menos oito têm quadros gigantes com imagens de superfiguras se socando. Talvez quatro páginas sejam dedicadas a explicar por que eles estão se socando. Duas vão tratar de como eles se dão de cara um com o outro antes da troca de sopapos, e mais duas vão amarrar as pontas soltas depois do arranca-rabo. Não sobra muito espaço para ideias complicadas ou palavreado bonito. Então, se você escreve quadrinhos e tem uma mente sofisticada, original, hoje em dia não vai ter escape para todas aquelas considerações sobre a tragédia humana, ou sobre como o punk rock mudou sua vida, ou o que a meditação transcendental fez pelo Batman. E se não existe lugar para essas coisas todas nos seus quadrinhos, onde e quando você vai se livrar delas?” (Jonathan Ross, no Guardian)

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“Chris Ware, que por muitos e muitos anos foi meu herói, ficou a centímetros de mim várias vezes neste fim de semana, mas não falei com ele. Aprendi a aceitar a dignidade do fã silencioso, observador, maluco, quando fico perto dos meus heróis. Não tenho nada a dizer que possa expressar o que a obra dele significa pra mim, e me faltam culhões para soltar um desembaraçado ‘Ô, gosto do que cê fez, nós dois somos humanos, e é isso aí, né?’

Fico tão dividido, porque queria mesmo dizer a Chris Ware o quanto amo o trabalho dele e que as últimas coisas que ele fez são as melhores numa carreira cheia de pontos altos. Ao invés disso, retesei os músculos faciais e fiquei de olhos arregalados para ele na mesa e naquele momento inquietante em que ficamos em mictórios vizinhos.” (Joe Ollman, no Paris Review)

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“Chris Ware é um cartunista norte-americano cujo trabalho é tão fora do comum que há quem hesite em chamar o que ele faz de ‘quadrinhos’. Quando leio trabalhos dele, fico com uma sensação tipo a dos irmãos Wright, de estar no meio de algo grandioso, no momento em que está sendo inventado. A gente um dia vai saber como batizar o que ele faz, mas por enquanto temos só ‘graphic novel’. E sem dúvida não é o termo certo para nomear o que Ware vem fazendo. Você consegue entender no livro o que ele faz para te comover e sabe que esta mídia é a única maneira de dizer essas coisas.

Alguns acham que o que acontece na obra dele é literatura, e pensam que isso é um elogio. Existem livros sobre como ler quadrinhos de forma séria, como se fossem literatura; como desmontá-los para descobrir como funcionam. Se você fizer isso com gibis do Chris Ware, vai achar a estrutura complicada que lhe disseram que está lá, mas perde todo o resto. Ver o diagrama de um avião não é a mesma coisa que voar nele.” (Lynda Barry, no Guardian)

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“Quem faz graphic novel nunca pensaria em usar o termo graphic novel ao conversar com colegas. Normalmente só se faria referência ao ‘último trabalho’, ‘o projeto’, ‘uma coisa que estou fazendo’, ‘o gibi’ etc. O termo só deve ser usado como emblema ou uma antiga bandeira de guerra ou quando se pergunta a localização de determinada seção em uma livraria pouco familiar. As editoras podem ficar usando o termo o quanto quiserem até ele ter menos significado que o nada que tem agora.” (Eddie Campbell)

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“Ser artista é ter uma vida instável, então não há motivo para ficar fazendo sempre a mesma coisa. Você tem que se satisfazer com a instabilidade e variar. Por exemplo, eu queria muito assaltar um banco. Acho que seria demais. Quando ouço falar que um pessoal assaltou um banco sem machucar ninguém, fico sempre do lado deles. E quanto a polícia os encontra, fico triste. Desde que não haja violência, estou sempre do lado do assaltante. Talvez um dia eu faça isso.” (Marjane Satrapi, no Guardian)

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“Os quadrinhos vão muito bem, obrigado, na Espanha. Segundado dados da ‘Pesquisa do Comércio Interno do Livro na Espanha 2010’, apresentada pela Federação de Associações de Editores Espanhóis, a nona arte foi o único setor livreiro que teve vendas maiores no ano passado. Os quadrinhos faturaram em 2010 mais de 85 milhões de euros, superando as cifras de 2009 e de 2008 (…) 14,5% da população com mais de 14 anos lê quadrinhos ao menos uma vez por trimestre.” (Juan Rodríguez Millán)

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“Sou totalmente a favor de manifestações contra cortes nos gastos públicos. E é sempre um prazer ver tantas máscaras de V de Vingança na multidão. Tenho muito orgulho dessa criançada.” (Alan Moore)

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“Os quadrinhos conseguem representar sonhos geralmente melhor do que qualquer outra mídia. Tem algo neles que parece ser bem afinado para representar esta atividade mental. Talvez seja porque nós sonhamos ‘em quadrinhos’ a maior parte do tempo — a ciência nos diz que o montante de imagens em movimento que vemos nos sonhos é relativamente menor se comparado ao número de imagens paradas que vislumbramos uma após a outra na mente, e que são colocadas numa sequência contínua pela imaginação. As narrativas que criamos sonhando exercitam os mesmos processos mentais que usamos para ler quadrinhos. Então talvez não seja surpresa que ver sonhos desenhados em quadrinhos pareça tão normal, tão familiar.” (Matt Seneca, no Robot 6)

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Os melhores textos sobre quadrinhos, ou por quadrinistas, ou mesmo em quadrinhos têm saído no Guardian, na Paris Review e até no New York Times Review of Books. É o mundo perfeito, em que tanto se escreve bem sobre quadrinhos quanto são feitos ótimos quadrinhos. Não julgue o colunista preguiçoso por apenas traduzir textos dos outros e ficar recomendando links. Como em todas as outras colunas, só quero mostrar que os quadrinhos dominaram o mundo.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

Um Comentário

  1. Fabio Negro disse:

    Indústria dos quadrinhos entrando em supernova.

    Daqui a 2 anos a gente bota o telscópio pra ver se deu sol ou buraco negro.

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