Os detetives selvagens

Por Tony Bellotto

I hate driving at night I
(Foto por Marcel Oosterwijk)

Coincidentemente, naquele mesmo dia eu tive uma reunião na Companhia das Letras e me comprometi a ressuscitar meu detetive, Remo Bellini, para uma história em quadrinhos. A reunião foi de manhã, e a tarde foi igualmente preenchida por reuniões com os Titãs — cenários e projeto de luz para o show do Rock in Rio, estratégias para divulgação de shows importantes no segundo semestre etc. À noite, um show em Mogi das Cruzes — um evento de lançamento de um grande projeto imobiliário, vejam vocês no que deu o rock brasileiro… — e às 22h20 eu já estava na estrada, rumo ao Rio, back home.

O motorista que me conduzia, Zé Rodrigues, paulistano arretado, é um exímio piloto noturno. Deitadão no banco de trás, arrisquei as primeiras páginas de Os detetives selvagens e alguns delírios e flashes mentais que me conduziram rapidamente ao poço do sono sem fundo. Por volta de 4h da manhã, nos aproximando do Rio, despertei e comecei a prestar atenção no caminho, já que o Zé, por melhor piloto que seja, conhece quase nada da dita cidade maravilhosa, a capital mundial da beleza e do caos. Optei pela Linha Vermelha, embora o bom senso me alarmasse com algumas imagens de tiroteios noturnos e assaltos cinematográficos, daqueles em que os assaltantes se fantasiam de policiais numa blitz. Foram momentos tensos, não havia carros passando pela Linha Vermelha àquela hora, mas tudo bem, fomos em frente.

Já próximos da cidade, depois de passar pela entrada para o Galeão, uma surpresa: a Linha Vermelha estava interrompida por um caminhão da prefeitura e alguns cones. Nenhum sinal, nenhuma placa, nenhum aviso. E ninguém para explicar nada. Só isso, a pista interrompida. Viramos à direita — única saída possível — num acesso para a Linha Amarela. Se a Linha Vermelha já me causou algum pânico, o que dizer da Amarela, que só conheço de noticiários  tenebrosos sobre tiroteios dignos de uma Chicago de Al Capone? Começou ali meu momento de detetive de minha própria cidade. Era preciso chegar a Ipanema, mas como fazê-lo?

Pulei para o banco da frente e vi uma placa com uma seta indicando Copacabana. Entramos por ali, apesar da rua escura se assemelhar mais ao que se chama popularmente de um beco sem saída. Ao dobrarmos a curva, outra surpresa: uma blitz da polícia! Ninguém na rua, nenhum carro passando, só um batalhão de PMs armados de metrancas portentosas. O policial foi simpático e nos indicou como chegar à avenida Brasil. Ufa, alívio. Conheço o caminho agora. Lá fomos nós. Depois de passar pela estação Lepoldina e tentar alcançar o Túnel Rebouças — que me conduziria à lagoa Rodrigo de Freitas e às paisagens familiares da zona sul —, uma outra surpresa: Túnel Rebouças interditado. Só cones cor de laranja a me avisar disso. Medo e delírio sob um viaduto do Rio Comprido em busca de uma placa, um retorno, alguém passando. Nada.

Depois de muitas voltas, em que quase caímos na ponte Rio-Niterói, voltamos à mesma blitz da Linha Amarela, em que o policial simpático, agora um pouco mais desconfiado, nos indicou de novo como chegar à avenida Brasil. Depois de voltar ao cais, passar pelo aeroporto Santos Dumont, atravessar o aterro do Flamengo, praia de Botafogo, Copacabana e Ipanema, num tour fantasmagórico pela sede da Olimpíada de 2016 pessimamente sinalizada, cheguei em casa, às 4h da manhã. Acordei agora, pra escrever esta crônica.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.