Terramarear: Peripécias de dois turistas culturais

Ruy Castro e Heloisa Seixas são dois grandes viajantes. Nas últimas décadas, têm rodado o mundo, levados por vários motivos, inclusive profissionais. Mas eles não são meros turistas. Quando viajam, buscam sempre o espírito dos lugares — a cultura das ruas pelas quais passeiam e suas relações com a história, a arquitetura, a música, o cinema, a gastronomia. Com isso, descobrem os roteiros mais surpreendentes, em Nova York, Paris, Roma, Veneza, Madri, Barcelona, Sevilha, Havana, Moscou, Saint-Tropez, Rio — e que, agora, eles nos revelam em Terramarear, que será lançado esta sexta-feira.

Leia abaixo o 1º capítulo do livro, escrito por Ruy Castro, sobre Veneza:

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Caffè Quadri

Flanando pelo dédalo de ruelas — A cidade que Charles Dickens tinha medo de descrever

Por Ruy Castro

Acordar numa cidade que não a nossa é sempre uma experiência e, não importa de onde você venha, acordar em Veneza é uma experiência difícil de superar. Principalmente se você também passou ali a noite e a madrugada anteriores — o que significa que, ao contrário de 99% dos turistas, você chegou a Veneza para ficar por alguns dias e, se não se cuidar, seu coração pode escapar pela boca no alto da ponte dos Suspiros e rolar para dentro do canal.

Mas, enfim, você acabou de acordar em Veneza, já se maravilhou com o cenário visto pela janela do hotel e saiu para dar uma volta. O histórico Caffè Quadri, na Piazza San Marco, com o aglomerado de mesas na calçada, parece ideal para se tomar, com toda a calma do mundo, o primeiro espresso da temporada. São dez horas da manhã, o céu é de um azul alucinante e, milagre, a praça está quase vazia. Entre bocejos, meia dúzia de turistas alimenta outra meia dúzia de pombos. Os pombos também estão bocejando. O silêncio cobre a praça, envolve a basílica de novecentos anos e conforta as poucas almas ao seu lado no café.

Ali, naquele próprio Caffè Quadri, há 150 anos, Balzac e Stendhal costumavam sentar-se às mesas ao ar livre, talvez buscando ideias para seus livros. Quem sabe se capítulos inteiros de Pai Goriot, de Balzac, ou de A cartuxa de Parma, de Stendhal, não foram bolados na mesma mesa em que você se sentou, entre goles de uma delícia introduzida pelo Quadri em fins do século XVIII: o caffè alla turca, precursor do espresso. No tempo de Balzac e Stendhal, a dose ainda era tão forte quanto generosa — o café vinha em canecas e levava o dia todo para ser tomado. Claro que, no fim do dia e da caneca, devia estar intragável, de tão frio e amargo, o que pode explicar o pessimismo que os dois escritores às vezes punham em seus romances. Com o tempo, o Quadri foi apurando e concentrando o espresso de tal forma que a dose diminuiu, passando a ser servida em xícaras — até chegarmos ao atual corto, com menos de uma unha de altura e outro tanto de espessura. Na verdade, o espresso é hoje um café tão curto que não se sabe por que não o servem em dedais.

Mas, enfim, ali está você, na sala de visitas de Veneza, e o sossego impera. Mas não por muito tempo. Dez da manhã é quando os vaporetti começam a desovar as levas de turistas na praça. E, de repente, eles surgem, em batalhões — 150, duzentos, trezentos de cada vez, por minuto! É o estouro da boiada. Japoneses, americanos, alemães, o que você quiser, brotam do cais em bandos, como soldadinhos de chumbo, olham para cima e para os lados e, respectivamente, exclamam coros de “Ohnnn!”, “Wow!” e “Putzig!”. À frente de cada pelotão, a oitenta quilômetros por hora, segue marcialmente uma guia, de braço levantado e empunhando uma bandeirinha, para que ninguém do grupo se perca e se junte sem querer a outro grupo de turistas paraguaios ou afegãos. E com razão, porque são 70 mil turistas por dia em Veneza, para engrossar uma população residente de apenas 270 mil.

Eles vêm de toda parte, e só o comportamento é igual. Chegam, espalham-se como formigas pelos canaletos, pontes e vielas, cruzam os canais nos vaporetos, gôndolas e motoscafos, galopam pelos museus, igrejas e edifícios históricos, infestam as lojinhas de suvenires e disputam camisetas de gondoleiros nos camelôs como se, embora esteja ali há 1500 anos, Veneza fosse acabar no dia seguinte. Bem, essa hipótese não está descartada — sob o peso desses exércitos que marcham de tênis e botas sobre ela, não admira que a cidade esteja afundando.

E o pior é que a grande concentração é na Piazza San Marco. Do seu, até há pouco, delicioso posto de observação no Caffè Quadri, não há mais o que observar. Não só todas as mesas ao redor foram tomadas, como a praça ganhou uma plateia de comício. Ao meio-dia há mais turistas do que pombos, e eles já estão jogando milho uns para os outros — os turistas, quero dizer. E, então, seis horas depois, como que obedecendo a um invisível relógio de ponto, todos os turistas se enfiam nos barcos e vão-se embora também em massa.

Mas, já? — dirá você. Sim, a média de permanência dos turistas em Veneza é de seis horas — tempo em que eles precisam ver tudo. Mas, o que é ver tudo em Veneza e, mais ainda, em seis ou oito horas? É uma façanha, considerando que escritores como Goethe, Mark Twain, Proust, Hemingway, Ezra Pound e Mary McCarthy passaram um bocado de tempo nela, nos séculos XVIII, XIX e XX, e não viram tudo. Charles Dickens definiu-a como “a única cidade que tinha medo de descrever” — medo de não lhe fazer justiça —, e ele também não viu tudo. Lord Byron morou anos em Veneza, Henry James visitou-a quatorze vezes — e nem eles chegaram a ver tudo. Mas não vamos subestimar o turista contemporâneo.

Eu, por exemplo. Quando concluí que a única variedade em torno da Piazza San Marco estava na cor das bandeirinhas das guias de excursão, peguei o motoscafo (uma simpática lancha para cinco ou seis passageiros) e cruzei o canal Grande rumo ao Dorsoduro — que, como o nome indica, oferece reduzidas possibilidades de o turista molhar os pés. É a zona comparativamente seca da cidade, e que, por isso, atrai muito menos gente. Os poucos turistas que se aventuram pelo Dorsoduro o fazem por conta própria — não em manadas, o que o torna deliciosamente passeável.

A exemplo do poeta Robert Browning, em 1885, e do compositor Cole Porter, em 1921, desci perto do Ca’ Rezzonico e fui direto para o próprio. O Rezzonico é um palazzo do século XVIII, defronte ao canal. A diferença é que Robert Browning e Cole Porter o adentraram para morar nele, enquanto eu tive de me contentar em visitá-lo, já que é hoje um museu. Os dois imprimiram sua marca no Rezzonico: Browning, para não deixar dúvidas, morreu nele, em 1889, ao passo que Cole, trinta anos depois, agitou-o pelas festas que dava ali — festas para as quais convidava seus oitocentos amigos mais íntimos, e os salões continuavam vazios, o que dá uma ideia do tamanho dos ambientes. E não só o tamanho: alguma coisa, nos tetos e paredes do Rezzonico, faz com que, ao passar por aqueles espelhos e se ver refletido de tênis, jeans e camiseta, você se pergunte, como eu fiz, se não estará mais bem vestido para um rodeio em Barretos do que para um bordejo por Veneza.

Flanando pelo Dorsoduro, perdendo-se naquele dédalo de ruelas, você refaz os caminhos de escritores como George Sand em Abril em Veneza, Charles Dickens em Um sonho italiano e Thomas Mann em Morte em Veneza. Se tiver uma cabeça mais de cinema (por que não?), pode refazer também os românticos caminhos de Katharine Hepburn e Rossano Brazzi em Quando o coração floresce (Summertime, 1955), de Florinda Bolkan em Anônimo veneziano (1970), de Woody Allen e Julia Roberts em Todos dizem eu te amo (1998) e até mesmo os de Julie Christie no assustador Um inverno de sangue em Veneza (Don’t look now, 1973) — todos esses clássicos foram rodados ali.

Veneza exige olhos bem abertos, e como foi que não pensei nisso antes? Fazer expedições literárias ou cinematográficas pode ser a melhor maneira de explorar uma cidade sem ter de disputar espaço a cotoveladas com 515 turistas por metro quadrado. Por algum motivo, eles não se interessam por esses lugares que, no passado remoto ou recente, atraíram tanta gente criativa e/ou louca. É verdade que, por não querer se misturar a eles, você correrá o risco de ser chamado de esnobe e de metido a sebo.

E daí? Você está em Veneza, onde a piedade matou minhas ninfas (um verso de Ezra Pound, que morreu lá) e, um dia, haverá um preço a pagar por tanta beleza.