Traje para a jornada de trabalho: calça de moletom

Por Carol Bensimon

Na vida de um jovem ficcionista, há uma questão que todos precisam encarar, e ela vem a ser: a partir de quando você pode se auto-denominar escritor? Parece tão complexo quanto demarcar o início da vida (é no embrião? no feto? no nascimento?). Alguns conseguem com extrema facilidade, mas isso costuma indicar que lhes falta um tanto de senso crítico. Só isso explicaria o porquê de alguém registrar-se no Facebook sob a denominação “Fulano de Tal Escritor”. Como um sobrenome herdado há dezenas e dezenas de gerações.

A resposta para a questão, como muitos sabem, é uma equação complexa, envolvendo número de livros publicados, tempo dedicado ao ofício, se isso lhe mantém, financeiramente falando, se os outros o consideram escritor (ponto importante), receptividade da crítica, prêmios, etc etc etc. Vou passar batido, no entanto, nesse emaranhado de fatores. Meu assunto da quinzena é correlato a esse. Melhor dizendo, é consequência desse. Ou seja: o que diabos acontece quando alguém lhe pergunta o que você faz, e você responde sou escritora?

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No mundo ideal, onde a literatura é a principal fonte de entretenimento e de compreensão da vida, o verbo ser + a profissão “escritor” deverá bastar. Porém, neste em que vivemos, é preciso acrescentar à frase um catatau de coisas, para que finalmente ela faça algum sentido (não muito) ao interlocutor. Pode-se começar dizendo que você publicou livros. Mas a maioria vai continuar no limbo. É impressionante como publicar livros não significa quase nada para quem não tem o mínimo de traquejo artístico. Os mais pragmáticos, sobretudo aqueles que o conheceram antes de você ter uma profissão, parecerão confusos; não sabem se o fato de você ter se tornado escritor significa que você venceu na vida, ou que fracassou completamente (o que eles têm certeza é que você sempre foi uma pessoa, hm, peculiar).

O interlocutor começará a entendê-lo quando algumas atividades afins forem citadas, principalmente aquelas que envolverem outros meios: você escreve eventualmente no jornal, traduz algumas histórias em quadrinhos, seu livro vai ser adaptado para o cinema. Ufa, um pouco de realidade.

Com bastante frequência, dirão: “Então tu é jornalista?”. É o famoso momento Mostre-me-o-seu-diploma. Sabemos o quanto os brasileiros são fanáticos por esse papelzinho enrolado. Os jornais precisam dizer que a vítima de tal assalto é engenheiro civil, ou advogado, ou agrônomo, mesmo que ele seja proprietário de um mercadinho há 25 anos. Tendo um diploma, parece sempre melhor do que escrever “comerciante”. Pois então o interlocutor pergunta Tu é jornalista? Abro a boca, cansada, e respondo: formada-em-publicidade-fiz-mestrado-em-teoria-da-literatura-desisti-de-um-doutorado-na-sorbonne.

“Entendi. E dá para viver?”. Momento Mostre-me-o-seu-contracheque. Mas não há contracheque, nem plano de carreira. Se o interlocutor é o tipo de gente que adora usar a palavra patrimônio precedido de possessivos, o melhor é dizer “dá”, e torcer que não venham mais perguntas. Ele nunca vai entender o ato de trabalhar em casa vestindo calça de moletom. Não sabe o que é cultivar o seu próprio tomilho. Isso é viver.

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Alguns se solidarizam com as suas escolhas, embora não as entendam muito bem, e gostam de adicionar uma mensagem “otimista” no final da conversa. Então eles dizem que talvez um dia você seja como o Paulo Coelho. Ou que você pode tornar-se a próxima piiiiii (insira o nome de uma famosa cronista gaúcha). Para eles, essa é a melhor coisa que eles poderiam lhe desejar. E você não deve odiá-los por isso.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

39 Comentários

  1. Sérgio disse:

    Prezada Carol,

    gostei do texto :-)

    Se quiser continuar no tema, eu gostaria que você contasse um pouco do outro lado da história: sobre as pessoas que gostam de ler, descobrem que você é escritora e acham que sua vida é um glamour só :-)

  2. […] Carol Bensimon, trecho de Traje para a jornada de trabalho: calça de moletom. Para ler o texto completo, aqui. […]

  3. tonhoja disse:

    Solidarizo com sua escolha (e assim continuaria, ainda que não fosse, propriamente, uma escolha) e desejo que você escreva, com prazer, ficções aptas a nos realizar idealmente (creio que este seja um otimismo correto). A propósito, belíssimo emprego de “você”. Abração.

  4. Nelson Sandes disse:

    Perfeito o texto rsrsrs. Tenho um colega que provavelmente vivencia cada linha desta postagem.

  5. Ticiane Kárita Gomes Alves disse:

    bacana o texto. Pena que no final só vai valer o que for força física mesmo…

  6. Olinda P. Gil disse:

    Adorei, adorei, adorei!
    Tive uma altura da vida que dizia a toda a gente que escrevia. Hoje já sou mais recatada: mas está no curriculo. Já me têm perguntado para que jornal escrevo. Se escrevo para o jornal regional (eu também me pergunto porque não).
    Desejam-me felicidades, e que venha a escrever tão bem como Miguel Sousa Tavares (ou outros da moda em Portugal)… Ainda se fosse como a mãe dele!

  7. Parabens, Belloto, Bensimon, Laub, Schwarcz, & Companhia. Feliz aniversario!

  8. Laura disse:

    É, mais ou menos como quando a gente responde “faço artes” ou “sou artista”.
    Mas vem cá, não faz nada pra complementar o orçamento? ;)

  9. Adorei o texto, infelizmente pela pura verdade.

  10. Carol, como sempre, adorei tua crônica. Tu és uma pessoa muito perspicaz e……escritora. Bjs

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