24 horas em Passo Fundo

Por Júlia Moritz Schwarcz


Tania Rösing recepciona os convidados no aeroporto.

Cheguei de Passo Fundo (RS) há quase duas semanas mas ainda tremo de frio ao lembrar das 24 horas que passei lá, onde fui participar do 1º Simpósio de Literatura Infantojuvenil da 14ª Jornada da cidade. Imaginar o frio de três graus é uma coisa, mas sentir o frio de três graus — com aquela chuvinha! — é bem diferente.

Voltei muito impressionada com o que vi, e caí de cama, toda doente. Nos dois dias de virose e dor no corpo, fiquei lembrando de algumas cenas de Passo Fundo: a Tania Rösing, idealizadora e comandante-geral do evento desde o seu início, há trinta anos, em pé em cima de uma mesa no aeroporto agradecendo a presença de todos e nos dizendo que era só fazermos exatamente o que ela mandava que sairia tudo às mil maravilhas — “aqui, a literatura é um ato democrático!”, ela avisava; as “líderes” do meu grupo de convidados, preocupadas com a minha mochila, com os meus horários, com o que eu comia e com a hora que ia dormir — “Minha menina dormiu bem?!”, elas perguntavam; a abertura do evento em uma tenda de circo, enorme e lotada — “Pelo espaço-tempo viaja a palavra/ Deletando os vácuos do esquecimento/ Das placas de barro de antigos sumérios/ Chega ao livro impresso salta pra internet”, cantava Humberto Gessinger; as refeições com os meus colegas, no Clube Comercial — “experimentaste o arroz negro? E o palmito, provaste?”, se orgulhava o dono do estabelecimento. E mais as conversas importantes e os comentários sobre o meu trabalho, que ficaram rodando na minha cabeça.

É sempre muito bom ter de parar para refletir sobre o que fazemos, quais são as nossas reais convicções. É o que acontece quando escrevemos sobre a nossa profissão (como tento fazer às vezes aqui para o blog), quando participamos de eventos de trabalho e nos encontramos com pessoas que têm um cotidiano parecido com o nosso, ou quando debatemos em mesas-redondas e com o público, o que é uma raridade para mim.

Na manhã da penúltima 3ª feira de agosto, mais precisamente às 8h30, numa temperatura de pouquíssimos graus centígrados, conversei com uma escritora carioca que estava sofrendo com as condições climáticas, e com duas editoras de muita experiência — com quem partilhei um dia e três refeições e me diverti muito. Se em Bolonha me lembrei de passar batom para me sentir mais madura, desta vez até pintei as unhas, e aproveito para agradecer ao marido, que ficou limpando os cantos com cotonete embebido em acetona, um sofredor.

Se querem saber como foi a nossa mesa, é só imaginar quatro mulheres animadíssimas e cheias de opinião discutindo o espaço da criação literária, o mercado infantojuvenil, o papel do editor, os livros digitais… Pobre do nosso mediador, o único homem da mesa, tentando se aproximar do microfone!

Entre tantas questões importantes debatidas nas três horas que passamos no palco, uma pergunta do público me deixou até acalorada. A professora nos contava que, naquela cidade onde os índices de leitura são os mais altos do país — com seus habitantes lendo em média 6,7 livros por ano, se não me engano—, muitas crianças se sentiam motivadas a escrever seus livros. Até aí, tudo ótimo, afinal, quem lê mais, tem maior probabilidade de querer também escrever. Mas foi aí que soubemos do motivo de sua maior indignação: os alunos dessa professora, com entre onze e quinze anos, não conseguiam publicar seus livros por editoras comerciais. Uma das mães teria até custeado uma edição, vejam que coisa!, ela dizia.

Essa professora queria saber como lidar com a frustração dos jovens, que se deparavam com as portas fechadas das editoras. A Dolores Prades, umas das editoras-debatedoras (que me emprestou seu precioso cobertor na gélida sessão de abertura, assim como dividiu o guarda-chuva comigo inúmeras vezes a caminho e na saída do nosso busão literário) foi a primeira a responder: muitas editoras não assinam contrato com menores de dezoito anos, ponto final. Claro! E como é que podemos achar bom que menores de idade façam parte de um mercado, procurem produzir para ter lucro, e lidem com a rejeição ou crítica negativa que podem surgir dos leitores? A Miriam Gabbai, editora da Callis (uma pessoa doce e incrivelmente rápida e clara em todas as respostas), tentou ajudar com uma ótima ideia: fazer, com os alunos, uma revista, em um projeto escolar que poderia abarcar várias disciplinas, integrar e ensinar coisas importantes ao grupo. Outra possibilidade seria criar com esses alunos blogs para troca de textos.

A Ieda de Oliveira, a escritora da mesa, contou como alguns de seus livros ficaram na gaveta por mais de quinze anos. E quantos não são os escritores sem livros publicados? O mercado oferece um espaço muito menor do que o que se escreve no Brasil e no mundo.

Acho mesmo que, com doze anos de idade, as crianças estão no momento de ler bastante e escrever muito, mas com o único intuito de se exercitar, aprimorar, mostrando sempre seus textos aos pais, professores e amigos, ponto final. Vivo insistindo na importância da forma, do texto, ou do discurso, como diria a Ieda, nos livros infantis. Muitas pessoas acham que basta contar uma boa história, que as palavras escolhidas e a composição do texto não importam. Os escritores às vezes demoram anos para concluir um único livro. E uma criança de catorze anos de idade ainda não sabe quem é, o que realmente gosta e sabe fazer. Está em fase de formação. Mais um ponto final.

E por que esses jovens precisam esperar ter seus livros publicados por uma editora comercial para se sentirem plenamente satisfeitos? De quem será que vem essa espécie de cobrança? Será que essa não seria uma ideia dos adultos?

Lembro bem de umas duas histórias das quais senti muito orgulho de ter escrito, isso do alto dos meus dez anos de idade. Em um dos casos, no final do ano, quase explodi de felicidade ao receber o “livro” de histórias da classe (na verdade um xerox grampeado que a professora fez dos textos escritos a mão por nós, alunos) com a minha “criação” ali no meio. Levei no tradicional jantar familiar de sexta-feira e mostrei para todos. E li não sei quantas vezes a versão xerocada do texto, cuja cópia original eu guardava na gaveta da minha escrivaninha.

Realmente, a literatura nos faz viajar.

PS: Muito obrigada, Tania Rösing, pelo convite. Agradeço também a Fabiane Verardi Burlamaque por ter organizado o simpósio e pelos elogios encorajadores, e a Claudete e Nilde por cuidarem do meu cronograma em Passo Fundo com tanto afeto. Foi uma experiência e tanto.

* * * * *

Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

8 Comentários

  1. Alessandra disse:

    Júlia, tive o privilégio de ter sido aluna da sua mãe na FFLCH. De tanto a professora Lilia falar alegremente de você, dei seu nome à minha filha.
    Hoje, a minha Júlia é aluna do professor Jackson, que lhe deu aula na faculdade.
    Queria que você soubesse deste fato curioso.
    Muitas felicidades, Alessandra.
    Obs.: O remédio pra dor de cabeça não desce pro pé quando engolido de pé( se não se lembrar, pergunte à sua mãe ).

  2. Juliette disse:

    Oi Julia,

    Porque voce sumiu???? Literatura Infantil é um universo que tem tanta coisa legal para contar. Crianca e livro é uma combinacao mais que perfeita e desta combinacao podem surgir historias incriveis.

    abraco

  3. “Você sabe o que disse o Barão de Itararé sobre o tempo daqui? O RS não tem morador, tem sobrevivente.”
    Muito boa esta, alías ele era ótimo sempre.
    Tb sou sobrevivente, nasci lá :) Minha mãe fala do Minuano até hoje.
    Julia, vc escreve com facilidade, gosto qdo venho ler.
    Pois é, interessante esta professora queixosa, deveria ver pelo lado positivo- imagine se estes meninos virassem estrelas? Seria um desastre para o crescimento emocional deles- há que esperar- amadurecer- eu sei. :)
    Melhoras.
    Ai, o frio, fugi do sul por causa do frio, hj moro no Rio Grande do Norte- outro extremo. Sempre quente.:) prefiro.
    O pior do frio aqui no Brasil é que falta calefação- morei anos em Ctba e morria de frio.
    Abs, Elianne

  4. Juliette disse:

    Alguns pais nao entendem que cada fase tem seu encanto e querem porque querem acelerar tudo na vida dos filhos. Se as criancas ja estao produzindo textos isso ja e para ser comemorado porque, ate onde sei, a grande maioria mal sabe escrever ou interpretar um texto quando chega aos 18.

    abraco

  5. Ernani Ssó disse:

    Júlia, melhoras. Você sabe o que disse o Barão de Itararé sobre o tempo daqui? O RS não tem morador, tem sobrevivente.

  6. Mariana Mendes disse:

    Oba, que textão! E cheio de idéias e questãs!Adorei, Jú.
    Beijos, Mari

  7. Minha sobrinha já faz seus próprios livrinhos, com ilustrações e histórias que têm começo,meio e fim. Sempre elogio sinceramente e dou palpites quando tenho algum, mas jamais a incentivei a publicar o que quer que fosse. Ela é uma criança de 10 anos e tem muito tempo para aprender e se aperfeiçoar. No entanto, sempre que tenho oportunidade, comento o quanto é legal o que ela faz, de escrever e desenhar. É uma diversão para ela. E não deveria ser assim com os adultos também?!

Deixe seu comentário...





*