A batalha pelo foco

Por Chico Mattoso

A figura do escritor engajado é conhecida de todos nós. Muitos dos grandes nomes da literatura combinaram o trabalho criativo às frentes de combate, fossem elas concretas ou simbólicas, estéticas ou políticas, legítimas ou furadas. Ok, ultimamente as coisas ficaram mais complexas — as utopias morreram, o cinismo virou modo de vida, tem sido difícil encontrar autores dispostos a lutar em prol do que quer que seja. Mas ainda há uma última trincheira a nos unir, uma guerra sangrenta e silenciosa que, dia após dia, testa os limites do profissional da escrita, infligindo cicatrizes a sua alma delicada: a batalha pelo foco.

Parte da questão — a das distrações da internet — já foi explorada com bastante talento neste blog pela Carol Bensimon. Mas eu gostaria de compartilhar um pouco da minha experiência de combatente nessa refrega cotidiana, talvez na esperança de que a confissão tenha algum efeito terapêutico ou educativo.

Há alguns anos, comecei a perceber que meu trabalho estava perdendo rendimento. Eu demorava a me concentrar, e quando conseguia era apenas por algumas dezenas de minutos, invariavelmente seguidos por horas de vagabundagem online, telefonemas vazios e perambulações sem sentido. Várias vezes me vi parado diante da geladeira aberta, perguntando-me o que diabos estava fazendo ali — logo eu, que não costumo ter fome entre as refeições. O dia girava em falso, e na ânsia por fazê-lo render eu me entregava a horas extras tão inúteis quanto exaustivas. Só ia dormir no meio da madrugada, as costas latejando, a consciência abarrotada de culpa e frustração.

Demorei alguns meses pra perceber qual era o problema. Eu não conseguia mais trabalhar dentro de casa. Em algum lugar da minha mente, a promiscuidade entre espaço profissional e pessoal passou a ter um efeito bloqueador. Não dava. Não ia. Meus dias haviam se transformado numa massa gosmenta, que me envolvia pela manhã e só me abandonava quando, extenuado, meu cérebro já não conseguia juntar lé com cré. Em casa, cada vez mais, eu sentia que me esforçava o dobro e produzia a metade — e foi assim que decidi procurar outro lugar pra trabalhar.

Aluguei uma vaga num escritório a algumas quadras de casa. Um lugar amplo e agradável, onde, por uma quantia mensal bastante honesta, eu teria direito a mesa, cadeira, café e conexão com a internet, além da companhia de arquitetos, editores, designers, ilustradores e produtores de teatro, entre outros profissionais de destaque do meio artístico-intelectual. As perspectivas eram excelentes. Eu estava trocando a minha caverna de improdutividade por uma espécie de think tank particular, que serviria para impulsionar-me ao trabalho e incendiar minha imaginação.

Começou muito bem. Eu acordava cedo, tomava banho e café, caminhava cerca de quinze minutos até o escritório e, depois de uma checada rápida nos emails, dava início à lida do dia. A presença de outras pessoas trabalhando à minha volta funcionava como estímulo, e a vigilância alheia desencorajava os ímpetos de errância internética. Para completar, descobri a instituição do almoço em grupo. Sair para comer já não se resumia a uma expedição melancólica ao boteco da esquina; dia após dia, eu tinha a oportunidade de conhecer gente, ouvir histórias, arejar a cabeça das agruras da funilaria ficcional.

Não demorou, porém, para que um novo problema começasse a me atormentar. É agradável trabalhar cercado por trinta pessoas, mas quando você tem que resolver o tom de um narrador ou editar um diálogo encrencado, passar a tarde ouvindo pitis de arquitetos (“Não vem com desculpa, Pedrão, preciso dessas esquadrias instaladas até amanhã!”) ou inquietações cromático-existenciais (“Cê não acha que eu tô sempre carregando no magenta?”) torna-se algo bastante difícil de lidar.

Encarei o novo obstáculo com pragmatismo. Não adiantava lutar contra os fatos: as pessoas estavam fazendo o trabalho delas, eu teria que me adaptar. Depois de uma experiência desagradável com tampões de espuma, resolvi apelar para os fones de ouvido. Eu nunca gostei de escrever ouvindo música, mas achei que era o caso de fazer um esforço adicional. Dei início a uma pesquisa extensa, procurando por obras que se adaptassem à minha necessidade de concentração. Acabei fazendo uma triagem, toda ela circunscrita ao universo da música erudita.

Beethoven, por exemplo, estava descartado. Mozart e Bach até serviam, mas dependia da peça. Chopin era sempre bom. Depois de acumular um repertório básico, dei início ao trabalho, com sucesso considerável. Mas a alegria durou pouco. Com o tempo, o conhecimento adquirido pelas audições sucessivas começou a voltar-se contra mim. Era envaidecedor saber diferenciar um noturno de uma sonata, ou poder enumerar quais as minhas fugas prediletas do Cravo bem-temperado, mas no que dizia respeito à busca por foco, isso não era exatamente uma vantagem. Ao reconhecer as músicas, eu começava a cantarolá-las mentalmente, antecipando movimentos, temas e refrãos — e a concentração ia pro espaço. Eu estava derrotado mais uma vez, e dessa vez a coisa parecia definitiva.

Se eu tivesse o mínimo de amor-próprio, terminava o relato por aqui. O capítulo final dessa escaramuça, embora vitorioso, tem algo de constrangedor, e se decidi revelá-lo é porque minha fidelidade à causa é maior que qualquer vaidade. Vai que meus tropeços não são úteis para alguém?

A salvação veio sob a forma de um conjunto de gravações intitulado Sounds of the earth.  É um desses apanhados de sons da natureza, muito em voga entre massagistas, fisioterapeutas, iogues e meditabundos em geral. O nome é autoexplicativo: ao longo de doze horas de gravação, escutamos uma série de gorjeios, zunidos, bramidos, trinados, pipilos, ganidos, coaxos, gorgolejos e marulhos, entre outras manifestações do mundo natural, todas gravadas ao vivo e em alta qualidade.

O efeito desses sons sobre mim não foi particularmente relaxante. Ao contrário: no início, fui tomado por uma sensação de ridículo, e meu primeiro impulso foi deixar a ideia pra lá. Aos poucos, porém, percebi que estava funcionando, que aquelas gravações estavam me ajudando a retomar o controle da minha mente. Por serem inarticulados, mas reconhecíveis, aqueles sons não me distraíam nem chamavam minha atenção — e pela primeira vez senti que era capaz de me concentrar quando bem entendesse. Às vezes interrompia o trabalho e dava uma olhada em volta, e aquelas pessoas conversando, rindo ou berrando ao telefone pareciam pertencer a um universo paralelo. Eu estava salvo. Meus dias de desagregação faziam parte do passado, e não havia mais nada que pudesse me separar de mim mesmo.

É claro que nada substitui o prazer do silêncio. Há algumas semanas me mudei para os Estados Unidos, onde devo morar por algum tempo. Estou animado com a perspectiva de passar meus dias lendo e escrevendo numa dessas formidáveis bibliotecas norte-americanas, rodeado por janelas anti-ruído e estudantes ensimesmados. Na dúvida, porém, trouxe comigo minha coleção de Sounds of the earth. A luta continua, afinal, e a gente nunca sabe quando pode precisar do grugulejo de um peru ou do pissitar de um estorninho.

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Chico Mattoso é escritor. Formado em letras pela USP, foi um dos editores da revista Ácaro e tem textos publicados em diversos jornais e revistas. Seu livro mais recente, Nunca vai embora (2011), faz parte da coleção Amores Expressos. Também trabalha como roteirista.