Autoajuda de longo prazo

Por Luiz Schwarcz

Tenho sido muito procurado para falar sobre a queda da qualidade literária dos livros que entram na lista de mais vendidos. A história se repete. Quando os livros de Lair Ribeiro começaram a fazer sucesso e a autoajuda virou moda, esperava-se que eu assumisse o papel de crítico de plantão. Na ocasião, dei entrevistas no rádio e para alguns jornais e a todos respondi com a mesma frase: “Todo livro é autoajuda”. Os melhores, na minha opinião, são os menos pretensiosos, os que não se propõem a responder a ansiedades imediatas, os que não querem ajudar a curto prazo. Proust é literatura de autoajuda. Guimarães Rosa também. Só que em certo sentido esses últimos são mais modestos, mais recatados quanto à vida privada dos leitores. É como se os chamados livros de autoajuda nos tratassem por você, meu chapa, nos dessem dicas pessoais sobre como fazer para conquistar melhores empregos, mulheres mais guapas, amigos mais duradouros. Já Machado de Assis e Dostoiévski, ao ousar na linguagem, nos “autoajudam” a longuíssimo prazo, para sempre.

E assim voltamos à questão do tempo, uma obsessão deste que vos fala. Um livro vale se entra na lista ou se fica no coração e na mente dos leitores? Quem se lembrará da lista de mais vendidos em alguns anos? Quem esquecerá um conto de Jorge Luis Borges tão cedo? O bom livro exige que o editor considere seu trabalho duradouro: algo que continua quando o livro sai dos balcões de novidades das livrarias, ou perde a batalha dos bestsellers. A literatura de qualidade nasce com prazo de validade maior. Sobrevive por mais tempo, mesmo nos dias de hoje, em que há uma superprodução editorial que leva algumas livrarias a descartar os chamados longsellers.

O Brasil se diferencia, no mundo editorial de hoje, por ser um país com redes de livrarias que carregam estoques significativos de boa literatura, e por ter tido dois Presidentes da República que investiram seriamente em educação e formação de bibliotecas. (E tudo indica que este caminho continuará sendo seguido pela nova Presidente).

Assim, está na hora de parar de reclamar. Por aqui, a piora do nível dos livros que frequentam as listas não vem acompanhada de um cenário de depressão econômica, nem da sensação de fracasso antecipado que persegue as novas gerações na Europa e Estados Unidos.

Livrarias crescendo como polos culturais e de entretenimento Brasil afora e políticas educacionais que levam uma grande parcela da população ao topo da pirâmide de ensino deveriam ser suficientes para que nós editores diminuíssemos nossa obsessão pelas listas, e abandonássemos por um bom tempo a mania de choramingar.

Além disso, o editor que tem preconceito com relação a um determinado tipo de livro e de leitor vai acordar um dia sozinho com sua turma, em cima do Monte Sinai, esperando que os Dez Mandamentos lhe sejam entregues, quem sabe junto com uma pizza, encomendada pelo celular, trazidos numa mesma embalagem, pizza e mandamentos, por um motoboy chamado Messias.

Por que há tanta gente que vota em partidos e candidatos comprometidos com políticas sociais avançadas mas age preconceituosamente com relação a leitores que ainda não apreciam o que chamamos de boa literatura?

Eu prefiro livros lentos e densos, me relaciono mais intimamente com pessoas parecidas comigo, mas admiro tanto ou ainda mais quem está descobrindo a literatura agora, começando a ler seus primeiros livros, com títulos que não são necessariamente os da minha predileção. Admiro por muitas outras razões os atuais leitores que se apaixonam por vampiros, vivem no mundo da fantasia e procuram ajuda imediata em seus livros recém-adquiridos. Eles não puderam começar como eu, não tiveram a mesma sorte, não passaram suas primeiras noites em berços tão bem acabados, não sentaram nas mesmas cadeiras escolares. Muitos leitores de hoje não viveram em casas recheadas de estantes nas paredes, ou viram seus pais empunharem livros no fim da jornada de trabalho, à procura de divertimento ou reflexão.

Se hoje sabemos que não é correto julgar as pessoas pela classe social, falta ainda aprender a não usar a literatura como forma disfarçada de preconceito. Falta aceitar e entender leituras e leitores diferentes de nós.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

36 Comentários

  1. […] autoajuda, é o que afirma Luiz Schwarz em seu artigo para o blog da editora Companhia das Letras (confira). Vale a pena ler o artigo apesar do que eu chamaria de deslize no fim do texto: uma postura comum […]

  2. […] autoajuda, é o que afirma Luiz Schwarz em seu artigo para o blog da editora Companhia das Letras (confira). Vale a pena ler o artigo apesar do que eu chamaria de deslize no fim do texto: uma postura comum […]

  3. Bruna disse:

    Muito legal o post! Achei recentemente uma história incrível de superação! Para quem se interessar o link é esse aqui:
    http://publivida.org.br/outros/jovem-da-dicas-no-facebook-para-melhorar-o-astral-durante-a-quimioterapia/

  4. luz13 disse:

    Oi, gostei muito do blog. Lembrei-me do Programa De Olho no Mundo(www.deolhonomundo.com), de Aline, da Cidade das Pirâmides, que diz: ” A consciência desperta nos leva a sabedoria de sermos senhores apenas de nosso universo.”. Abçs.

  5. Giórgia disse:

    Fantástico seu texto!

  6. flavio disse:

    A serie Vendedor de Sonhos de Augusto Cury é um exemplo. A Cabana é outro. São de certa forma despretensiosos, mas trazem muitas lições boas para serem adotadas.

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