Com que livro eu vou?

Por Tony Bellotto


“Torre de Babel”, da artista Marta Minujin, com 30 mil livros, exposta em Buenos Aires

Esqueçam o cachorro. O livro é o melhor amigo do homem. Costumo levar livros comigo para tudo quanto é canto. O segredo é encontrar o livro certo para cada ocasião. Nesse sentido os livros são como roupas, há que existir uma adequação entre o livro e a situação em que será usado. Em consultórios médicos, recomenda-se uma leitura ligeira – tanto no sentido de conteúdo como no de tamanho mesmo -, e a definição engloba desde um Nero Wolfe básico ou uma das histórias do rabino David Small, até livros de poesia, como O ex-estranho, do Paulo Leminski, ou os poemas eróticos de John Donne.

Para almoços e jantares, aconselho livros de bolso, independente do título ou do autor. São de fácil manuseio e cabem em qualquer lugar, o que evita olhares irônicos e sussurros de “quem é o maluco?” quando você entra sozinho no restaurante carregando o Ulisses, de James Joyce, e puxa a cadeira para ele sentar (O Ulisses, não o James Joyce). Como livros de bolso são livros relativamente baratos, se um deles for esquecido no balcão de um sushi-bar ao lado de uma cumbuquinha vazia de saquê, não acarretará maiores prejuízos.

Para as viagens, principalmente as viagens longas, os grandes calhamaços são imprescindíveis. Um voo internacional é a oportunidade de encarar aquele 2666 do Bolaño que você vem adiando, ou o Submundo, do Don DeLillo, ou aquele Meus Lugares Escuros, do Ellroy, estacionado há anos na garagem vertical de seu criado-mudo. A vantagem é que você economiza o dinheiro do sonífero. Mas estas são situações corriqueiras, quando você para em frente à estante com o dedo no queixo sem conseguir se decidir por qual livro usar à noite.

Tudo muda de figura quando você está apaixonado por um livro específico. Pois nessa situação, você só terá olhos para ele, seja na sala de espera do urologista, na fila do ônibus ou na arquibancada do Pacaembu.

É o caso de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, com o qual vivo um intenso caso de amor atualmente. Nossa relação começou há um mês mais ou menos, em meados de agosto, numa noite estranha aqui relatada numa crônica anterior, não por acaso intitulada Os detetives selvagens. Como toda a história de amor, minha relação com esse livro começou amena, como dois pugilistas que se observam no primeiro round e agora, passado um mês, estamos engalfinhados como dois lutadores de Ultimate Fighting, desses que sangram juntos e fazem confundir o telespectador, que não sabe se assiste a uma luta ou a um coito.

Comemoro há alguns dias a primeira mancha de shoyu no meu exemplar de Os detetives…, exatamente na página 421. Quando me apaixono por um livro, gosto de esmiuçá-lo e testá-lo em todas as situações possíveis: no banheiro (não só na óbvia privada, mas também na banheira e às vezes até no chuveiro), no camarim, no café da manhã, na praia e na aula de Pilates. E gosto também de descobrir seus defeitos e falhas de edição, sem os quais um amor não é completo.

Na página 417 da segunda reimpressão da edição da Companhia das Letras, encontro um erro na décima primeira linha, “…como seu eu aceitasse ser sua mulher…” . Há uma outra curiosidade – na verdade uma contradição -, e essa não saberemos jamais se proposital ou não, quando o personagem Jaume Planells narra, ao fim da página 491, “Às cinco e meia avistei Quima fumando um cigarro na esquina da praça Urquinaona com Pau Claris…”, e na página 496, transcorridas poucas horas após seu encontro com Quima, afirma “…tirei um cigarro do maço, não tinha fogo, procurei em todos os bolsos, então me levantei e me aproximei de Quima só para descobrir que ela tinha parado de fumar fazia tempo, um ano ou um século”. Pode se argumentar, claro, que era o próprio Jaume quem fumava quando avistou Quima na esquina da praça Urquinaona com Pau Claris, mas nesse caso um escritor minucioso como Bolaño com certeza redigiria algo como: “Às cinco e meia, enquanto fumava um cigarro, avistei Quima na esquina da praça Urquinaona com Pau Claris…”.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

18 Comentários

  1. Laís Bastos disse:

    Você gosta mesmo do Bolaño né? Obrigada pelas dicas ;D

  2. Soraya Felix disse:

    É engraçado como quase sempre pensamos ser únicos em algumas ideias. Sempre procuro o livro ideal para cada situação e confesso que adorei suas sugestões.
    Paixões, casos de amor com livros, de tempos em tempos desenvolvo uma. Muitas delas me leva a ler o mesmo volume de 6 a 7 vezes em espaços curtos de tempo. Já fui apaixonada por Os Miseráveis, Jogo da Amarelinha, sem contar em alguns clássicos da juventude. Amor dos últimos meses é A Descoberta das Bruxas, da Deborah Harkness; confesso que já estou arranjando outro do Mia Couto. Livros são assim,, passam por nós e deixam suas marcas.
    Obrigada pelo belíssimo texto.

  3. Bruna Célia disse:

    Poxa, Tony. Só não consegui imaginar um chuveiro, um banho e um livro. Meio estranho… mas nós, apaixonados por livros, somos capazes das maiores estranhezas do mundo.

    Parabéns pela clareza do texto… e fico feliz por saber que tenho companheiros que adoram levar livros pra tudo quanto é lugar. =)

    Beijos,

    uma fã que adora seus textos e ama os Titãs.

  4. Bruce Torres disse:

    Já vi que alguém não gostou do fato de eu ter apontado que mesmo edições de bolso acarretam prejuízos quando perdidas considerando o valor cobrado por certas editoras.

  5. O meu caso de amor mais recente é com: Os Miseráveis. Victor Hugo. Meu companheiro de 1280 páginas inseparável.

  6. lourival serejo disse:

    Estou enfrentando 2666, depois de ter lido algumas obras delgadas.

  7. Renato Nogueira disse:

    Ótimo texto Tony, só me deixou com mais vontade de reler Detetives Selvagens e 2666 (quanto à dúvida que o Charlles levantou sobre a idade da irmã de Archimboldi, não me lembro dela ser tão gritante assim, mas vou reler pra ter certeza).

    Seu texto também me deixou muito curioso quanto à Submundo, vou atrás.

  8. jfgama disse:

    Pensei nisso certa vez. Não por acaso: comprei um livro fora de série, fenomenal, etc, etc. Mas estava para fazer uma viagem. Já havia realizado a temática do livro, mas não tive o insight necessário para evitar a desesperadora junção: O IMITADOR DE VOZES, de BERNHARD e uma viagem de avião. Não aconselho a ninguém. Pânico total. Mas acabei o livro, entre deleite e suor frio… (Sério, foi hardcore).

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