Dormindo com o inimigo: A guerra secreta de Coco Chanel

Jornalista experiente em política europeia, Hal Vaughan pesquisou por anos arquivos ingleses, franceses e alemães, além de coleções privadas e inúmeras entrevistas, para iluminar o “período negro” de Coco Chanel em Dormindo com o inimigo, que será lançado nesta sexta-feira (16). Com elementos de thriller de espionagem e compondo um pano de fundo arrepiante da Paris ocupada, o livro traça, com imparcialidade e grande fôlego narrativo, um novo perfil dessa grande mulher que revolucionou seu próprio tempo e é por muitos considerada um dos grandes gênios do século passado.

Abaixo, leia um trecho do primeiro capítulo do livro Dormindo com o inimigo:

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Metamorfose — de Gabrielle a Coco

Gabrielle Chanel, que se tornaria a essência da sofisticação francesa, nasceu num abrigo para pobres em Saumur, no Pays de la Loire, na França, numa tarde abrasadora de agosto de 1883. Ela descendia de uma família de camponeses que moravam nos limites de um bosque de castanheiras nas Cévennes, e foram obrigados pela praga da ferrugem a virar vendedores ambulantes. Gabrielle foi registrada com o sobrenome “Chasnel”. Possivelmente foi um erro do funcionário do cartório ou, mais provável, era essa a antiga grafia do sobrenome da família, alterada mais tarde para soar melhor. (O “s” adicional iria causar um pouco de confusão em documentos posteriores na polícia).

A mãe, Jeanne Devolle, solteira quando Chanel nasceu, e o pai, Albert Chanel, feirante, finalmente se casaram alguns anos depois. Nos doze anos anteriores à morte de Jeanne, o casal e os cinco filhos — três irmãs, Julia-Berthe, Gabrielle e Antoinette; e dois irmãos, Alphonse e Lucien — não tinham residência fixa, hospedando-se em espeluncas miseráveis enquanto Albert levava produtos para os mercados das vilas numa carroça. Quando Jeanne faleceu aos 33 anos, em 1895, Albert pôs os dois filhos para trabalhar numa propriedade rural e enviou Gabrielle, com doze, e as duas irmãs para a região inóspita de Corrèze, na França central. Lá, no orfanato do convento Aubazine, fundado no século XII por Étienne d’Aubazine, as irmãs Chanel fi caram sob a tutela de freiras.

Anos   depois,  pensando   nos   anos   humildes   no   convento, Chanel recordou: “Desde a infância, tive certeza de que haviam tirado tudo de mim, que tinha morrido. Soube disso aos doze anos. Pode-se morrer mais de uma vez na vida”.

Nenhum de seus biógrafos refletiu sobre o que teria sentido a menina Chanel em relação à vida no convento. Ela nunca falou sobre o período que passou com as freiras, nem sobre os longos anos de disciplina católica — o trabalho duro, a vida frugal. Na época, a doutrina e a teologia católicas davam ênfase ao pecado, à penitência e à salvação. Também sabemos que, na virada do século XX, instituições católicas como Aubazine doutrinavam os jovens a odiar os judeus. Chanel não era exceção. Era dada a frequentes acessos de antissemitismo. Marcel Haedrich, conhecido escritor francês e editor-chefe da revista de moda Marie Claire, relata uma conversa que teve com Chanel sobre seu livro Et Moïse créa Dieu [E Moisés criou Deus]. Ela lhe perguntou: “Por que Moisés? Você não acredita que essas velhas histórias ainda têm algum interesse, não é? Ou acha que os judeus vão gostar de sua história? Eles não vão comprar o livro!”. Quando a conversa migrou às novas butiques  de moda que se multiplicavam como cogumelos em Paris, Chanel disse: “Só tenho medo dos judeus e dos chineses, e mais dos judeus que dos chineses”. Haedrich comentou: “O antissemitismo de Chanel não era apenas verbal; mas veemente, antiquado e muitas vezes embaraçoso. Como todas as crianças de sua época, ela aprendeu o catecismo: os judeus não haviam crucificado Jesus?”.

Durante séculos, a doutrina cristã sustentou que os judeus tinham sido os assassinos de Cristo. Desde a Idade Média, os europeus pregavam que “os judeus trazem azar” e proibiam que eles ingressassem nas corporações e profissões liberais. Os judeus estavam banidos na Inglaterra na época de Shakespeare, considerados socialmente inferiores, aptos apenas para arrecadar impostos — não o tipo de trabalho que lhes traria a simpatia de famílias camponesas como os Chanel. Mais tarde, os nazistas e mesmo muitos europeus menos fanáticos acreditavam fervorosamente numa conspiração judaico-bolchevista, culpando os judeus pela invenção do comunismo.

Aos dezoito anos, Chanel se mudou para um pensionato feminino católico em Moulins. Naquele período, os franceses ainda discutiam o caso Dreyfus, escândalo que dividiu a França por quase dez anos. A saga se iniciou em 1894, com a prisão, julgamento e condenação por alta traição, com provas falsas, do capitão Alfred Dreyfus, um jovem oficial da artilharia francesa de origem alsácio-judaica. Condenado, Dreyfus foi desterrado para uma colônia penal na ilha do Diabo, na Guiana Francesa; mais tarde, passou por novo julgamento e finalmente foi absolvido em 1906. Reintegrado ao Exército francês com a patente de major, Dreyfus combateu honrosamente na Primeira Guerra Mundial, aposentando-se como tenente-coronel em 1919.

O caso Dreyfus pôs a nu as paixões antissemitas da época e a influência decisiva da Igreja católica e de seus aliados monarquistas e nacionalistas. Na adolescência de Chanel no convento e, depois, na comunidade católica em Moulins, “o antissemitismo estava em plena efervescência”. La Croix, jornal católico assuncionista de grande circulação, “atacava ferozmente os judeus”. Um típico porta-voz da posição da Igreja era o padre jesuíta Du Lac, guia espiritual do jornalista Édouard Drumont, autor de La France Juive [A França judaica]. Drumont cunhou o lema “A França para os franceses” — que ainda hoje ressoa na política francesa, em especial nas campanhas de Jean-Marie le Pen e sua filha Marine, agora líder do poderoso partido de extrema direita, Front National.

Chanel não teria como escapar à campanha de propaganda da Igreja católica contra o oficial judeu Dreyfus. Mais tarde, o medo e o ódio que alimentava pelos judeus se tornaram notórios e muito constrangedores — mesmo para os que abraçavam uma forma mais branda de antissemitismo.

Aos vinte anos, Chanel começou a trabalhar como costureira e, nas horas vagas, cantava num bar frequentado basicamente por oficiais da cavalaria. Lá ela se tornou “Coco”, nome extraído de uma cançoneta de seu repertório, ou talvez diminutivo de cocotte, termo francês para uma mulher sustentada por amantes.

Foram seus olhos negros ardentes, o corpo admirável, a beleza e a magreza quase infantis que acabaram cativando o coração de um rico ex-oficial, Étienne Balsan. Chanel pôs de lado agulhas, linhas, a coqueteria dos bares e a perspectiva de uma vida insípida. Aos 23 anos tornou-se amante de Balsan, morando nos três anos seguintes em seu castelo e haras em Compiègne, a 75 quilômetros de Paris. Na densa floresta de Compiègne, entre pântanos e charnecas, várzeas e lagoas, Chanel, o amante e seus amigos iam à caça nos cavalos do haras de Balsan, em trilhas antes usadas pelos reis da França.

Balsan, filho de uma rica família de industriais têxteis que forneciam uniformes ao Exército francês, providenciou que Chanel adquirisse sólida formação hípica — montando de lado e de frente — e lhe ensinou a administrar o haras. As fotos de Chanel a cavalo mostram seu porte altivo; numa, em especial, ela monta um belo baio de caça, com quepe e tranças, conduzindo-se com orgulho e segurança. Seu gosto por cavalos e seus dotes hípicos lhe seriam muito úteis anos depois, ao caçar com Hugh Grosvenor, duque de Westminster, conhecido como Bendor, e seus amigos, entre eles Winston Churchill e seu filho Randolph.

2 Comentários

  1. […] e deduções. Não, não. Eu passo. Mas quem gosta do tema, pode se fartar com o livro “Dormindo com o Inimigo: A Guerra Secreta de Coco Chanel” (Companhia das […]

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