Para escrever, aperte play

Por Carol Bensimon

Ano passado, o Michel Laub perguntou a escritores brasileiros sobre suas estranhas manias envolvendo o ato de escrever. Publicou o resultado no seu blog pessoal. Os rituais de cada um, é claro, são tão diferentes entre si quanto as obras que se originaram desses rituais. Fico pensando se é possível pegar um livro e constatar “ahá, esse foi escrito com muita vodca” ou “hm, soa a doses cavalares de earl grey”. Mas tergiverso. Nesse retrato bastante preciso (e por vezes ridículo) da criação literária, havia horários rígidos, trajes específicos, certa bebida, certo jeito de arrumar a mesa, certa paisagem para observar da janela, papel e caneta, folhas pautadas ou sem linhas, notebooks, ônibus, caminhadas, silêncio absoluto.

Colaborei com o compêndio de maluquices organizado por Laub. Disse que bebia chimarrão — o que, a essa altura, todos já estão carecas de saber — e falei sobre como eu “usava” a música para criar. Uma pessoa recentemente me lembrou desse depoimento, então decidi que havia chegado a ocasião de detalhar um pouco mais essa minha dependência sonora. Adoraria, aliás, que os sinestésicos se manifestassem na caixa de comentários. Penso tantas vezes em escrever sobre isso que é como se eu já tivesse escrito.

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar dito: poucas vezes uso a música durante o processo de escrita (isto é, bunda na cadeira e tela em branco diante dos olhos); como a maioria das pessoas, também costumo achar confuso o encontro do texto que estou escrevendo com o texto que alguém está cantando no meu ouvido. Música instrumental? O fato de não haver voz não significa necessariamente que há uma harmonia saudável entre texto em processo e canção sendo escutada.

É bastante comum, por outro lado, que certas músicas me ajudem a criar uma cena, e isso porque elas carregam consigo o tom exato que quero dar a ela (se fosse um filme, aquela seria a trilha, etc). Assim, fico ouvindo a música — reitero que é patético falar sobre isso, mas vamos lá — repetidas vezes, até enxergar as personagens se movendo junto com ela e os lugares se contaminando com a sua atmosfera. Então tomo algumas notas (ou nem sempre) e parto para a escrita. Talvez isso queira dizer, no fim das contas, que meu processo é mais cinematográfico que propriamente literário: embora haja, depois, um cuidado excessivo com palavras, ritmo de frase e essas coisas todas, a pré-escrita é quase uma coleção de videoclipes. Não creio que isso seja ruim, muito menos bom; é apenas um caminho possível, e é bastante provável que a escolha por ele tenha uma explicação geracional.

Para mim, costumam funcionar muito bem as músicas com atmosfera densa e barulhenta, onde não há picos de tensão, mas uma certa melancolia constante. Algumas canções do Jesus & Mary Chain são boas nisso, mas os suecos do Radio Dept. ganham o prêmio dos que mais inspiraram essa escritora até então. E as baladas do Guns. E do Smashing Pumpkins. E canções do Yann Tiersen como essa, que evocam verdadeiras panorâmicas de felicidade e dor existencial.

Acho, enfim, bonitas essas conexões entre sentidos e entre diferentes manifestações artísticas.

Mês passado, o Estado de S. Paulo entrevistou o escritor americano Michael Cunningham, de quem eu particularmente gosto muitíssimo. Lá pelas tantas, Cunningham comparou seus romances a peças musicais. Disse ele: “Tenho muita reverência pela linguagem — como cada palavra soa individualmente, como ela se relaciona com outras numa frase, como ela se encadeia com a seguinte. Para mim, a linguagem tem tudo a ver com a música. Uma frase, um parágrafo, não devem ser unicamente belos. A prosa, como a música, deve ter uma direção e força comparáveis às sonatas de Beethoven e aos riffs jazzísticos de John Coltrane. Embora não aparentem, todos os meus seis livros são, de algum modo, versões de algum tipo de música. Meu primeiro romance, Uma casa no fim do mundo, era rock’n’roll. As horas tinha a ver com Schubert e Brahms. Já Ao anoitecer estaria mais para Laurie Anderson e Brian Eno. Não sei se essa resposta faz sentido, mas cada um desses livros foi inspirado por ritmos de peças musicais”.

Uma casa no fim do mundo é, não por acaso, um dos meus livros favoritos.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.