Fui até a janela e olhei para a lua

Por Carol Bensimon

anything is possible

Vocês já repararam por certo como personagens literários são deslumbrados com a lua, a direção do vento, a cor do céu, o canto dos pássaros, a forma perfeita dos flocos de neve, etc etc. Este texto tem o objetivo de provar a seguinte afirmação: todos os personagens são hippies, até quando não são hippies. E portanto é evidente que ele (o texto) não deve, nem quer, ser levado tão a sério.

Para chegar lá, temos um caminho pela frente.

Comecemos por admitir que criaturas de papel são muito mais interessantes que nós. Mais observadoras, mais perspicazes, sempre com uma boa teoria sobre a humanidade. Como eles conseguem pensar tantas coisas geniais e colocar um pé depois do outro? Ou pensar em tantas coisas geniais em meio a uma perseguição implacável? Como podem se lembrar de uma cena passada vinte anos atrás com tamanha riqueza de detalhes? Eles conhecem todo o tipo de tecido, História, nomes de flores como ninguém, não é mesmo? E são muito bons em descrever a expressividade de um rosto.

“Talvez tivesse já uns 30 anos. Usava óculos e, por trás deles, reparei que tinha feito as sobrancelhas com gilete — e os pelos começavam a crescer tanto em cima quanto embaixo. A fina linha tinha sido prolongada nas pontas com um lápis marrom, dando um aspecto tão natural quanto se ela tivesse prendido o próprio lápis com uma fita adesiva no alto dos olhos.” — Ao pé da escada, de Lorrie Moore

Se eles não fossem observadores vigorosos, a literatura não existiria. Até as crianças-narradoras já entenderam o mundo de um modo muito mais complexo que nós. Sua função é exatamente a de apontar as coisas que, vivendo do modo ordinário, nós não costumamos perceber.

Eu não sabia o que era um pintassilgo antes de ver isso escrito em algum romance. Acho que foi o Franzen que me ensinou isso.

Como comentaristas vorazes que são, os personagens literários dedicam um número considerável de linhas descrevendo fenômenos atmosféricos ou a forma retorcida de um galho. Traços de um passado árcade, pura ripongagem, eco onda século 21? Tanto faz. Eles simplesmente são mais ligados do que nós.

Mas eu gostaria de propor outras explicações não tão enaltecedoras. Vou parar de falar em personagens como criaturas sobre-humanas e me deter na mão do escritor. Em primeiro lugar, às vezes as intempéries refletem o estado de espírito do personagem. Sabemos que o fato de ter chuva ou o fato de haver um sol escaldante já diz muito sobre o tom de uma cena. Não é um truque óbvio, ou uma mera convenção literária, mas talvez uma representação — com tintas mais fortes — da maneira como nós mesmos nos sentimos diante desses fenômenos naturais. Fiquem com este belo trecho de Siri Hustvedt:

“A tempestade começou a amainar por volta das onze. Tinha parado de chover, mas rajadas de vento faziam objetos invisíveis rolarem com estrépito pela rua, e a água continuava a correr nos bueiros. Uma fina luz amarelada atravessava buracos isolados nas nuvens, e os prédios, a calçada e os parquímetros estavam submersos num brilho sem sombras que Lily não se lembrava de já ter visto. Ficou parada à janela por um minuto e olhou para fora. Ela costumava pensar que Deus existia nas tempestades, mas agora não acreditava mais nisso. Olhou atentamente o telhado plano do Hotel Stuart e as nuvens tingidas de amarelo e cinza. Lembrou-se da foto do noticiário de jornal que vira na noite anterior, e de repente o simples fato de que as pessoas viviam e morriam lhe pareceu estranho, não terrível, apenas estranho.” — O encantamento de Lily Dahl, de Siri Hustvedt

O paralelo entre estações do ano e a trajetória de tal personagem é gritante em algumas narrativas. Sobretudo nos lugares onde estações fazem mais sentido que nessa confusão tropical onde vivemos. A relação, por certo, também pode se dar pelo contraste. Nem sempre a neve sinaliza que o coração do protagonista está gelado e ansiando por dias melhores.

Mas o fato menos glamouroso disso tudo é o seguinte: às vezes, é preciso falar sobre nuvens, lua, ou seja lá o que for, apenas para manter o ritmo. Ou melhor, para quebrar o ritmo, buscando uma harmonia de idas e vindas, acelerações e retardamentos. Não é verdade que, num filme, os personagens precisam se movimentar, mexer as mãos, fumar um cigarro, servir um copo d’água, mesmo que estejam protagonizando um diálogo de alta carga dramática? O mesmo se passa na literatura. Deixar só o “essencial” tira toda a graça. É preciso pintar o quadro todo, não só o que faz “a história andar”. Coloque o personagem para observar, para lembrar, para criar associações malucas. Ele eventualmente vai acabar fazendo algum comentário sobre uma constelação.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

9 Comentários

  1. CaroL, amei essa postagem. Eu costumo escrever quando me convém, quando tô inspirada e sempre acabo a me encantar e falar sobre a lua, sobre o tempo… Viajo mesmo, imagino cenas, misturo com algumas cenas reais, frases ditas e imaginação. De início comecei com poesias (na época de menina), hoje mais crescida escrevo de uma maneira diferente que ainda não sei bem definir, mas a lua, as estrelas e o tempo ainda vem junto com o vento tomar posse das minhas palavras. A sua observação é pertinente e relevante. Parabéns! Tenho acompanhado aqui e me sinto a vontade, me sinto no Sul. Bjs

  2. Eduardo Baumann disse:

    Essa opção pela observação meticulosa e pela descrição quase barroca é um dos elementos que garantem que uma narrativa me pegue de fato, com um uppercut bem dado.

    Encarando por essa perspectiva, o Proust era um baita bicho-grilo. Praticamente o Serguei da belle époque.

    Love and peace!!

  3. f. disse:

    me faz lembrar do primeiro parágrafo de O homem sem qualidades:

    “Uma pressão barométrica mínima pairava sobre o Atlântico; dirigia-se para leste, rumo à pressão máxima instalada sobre a Rússia, e ainda não mostrava tendência de se desviar dela para o norte. As isotermas e isóteras cumpriam suas funções. A temperaturado ar estava numa relação correta com a temperatura média do ano, a do mês mais Mo e a do mês mais quente e a oscilação aperiódica mensal. O nascer e o pôr do Sol e da Lua, a variação do brilho da Lua, de Vênus, do anel de Saturno, e outros fenômenos importantes transcorriam segundo as previsões dos armários de astronomia. O vapor d’água no ar estava na fase de maior distensão, a umidade era baixa. Numa frase que, embora antiquada, descreve bem as condições: era um belo dia de agosto de 1913”

  4. Nina Vieira disse:

    Essa associação entre tempo e espaço eu só havia notado no cinema. Esse trecho de Siri Hustvedt que você publicou até me recorda a película estrelada por Natalie Portman, V. de Vingança, em uma determinada cena na qual ela afirma que “Deus está na chuva” (uma das cenas mais marcantes do filme). Na última ocasião em que vi as estações do ano tão bem delineadas e, até mesmo, em forma de capítulos, fora no livro Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva. E, em se tratando da Primavera (preferencialmente benedettiana), cheguei também a escrever sobre isso: http://sobrefatalismos.wordpress.com/2011/09/24/primavera-num-espelho-partido/
    Abraços!

  5. natalia disse:

    amei o texto!

  6. @Nina_Barroso disse:

    Muito obrigada, não acho que seja enrolar, mas sim descrever tão belamente um cenário que seja fácil imaginá-lo.

  7. Erica Serpa disse:

    Muito bom!! É a arte de aplicar metáforas e enrolar…como diria um professor meu, muito racional.
    GOstei!

  8. Hugo Ciavatta disse:

    Metáfora! Metáfora! Metáfora!

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