Leituras no cárcere

Por Vanessa Ferrari


Foto de um dos clubes de leitura internos da editora.

No último dia 14, o Pedro Schwarcz e eu fomos à Penitenciária Feminina de Santana. Durante duas horas, fizemos a mediação do primeiro Clube de Leitura Penguin-Companhia no local, com dezesseis internas e três funcionárias ligadas ao núcleo educacional da prisão. Quem acompanha este blog e as notícias da editora pelo Twitter e pelo Facebook sabe que desde o ano passado, sob a coordenação da Janine Durand, do Matinas e do Pedro, promovemos clubes de leitura em parceria com algumas livrarias. Uma iniciativa que começou com um pequeno grupo na Livraria Cultura, em São Paulo, e se expandiu para outros estados e outras lojas como a Saraiva, a Travessa no Rio de Janeiro, a Haikai no bairro paulistano de Higienópolis. Ao mesmo tempo, também queríamos desenvolver algum projeto social ligado aos clubes. Tivemos várias ideias e a penitenciária foi uma delas.

Sabíamos que nos Estados Unidos os clubes nos presídios são comuns, mas aqui teríamos de traçar um caminho praticamente do zero. Qual das penitenciárias escolher, com quem falar, como defender a proposta de modo convincente? Havia um palpite de que não seria muito fácil agendar uma conversa e, mesmo se conseguíssemos, nada garantia que a ideia seria bem recebida. Tivemos, então, a ajuda da Maria Emilia, editora do Drauzio Varella na Companhia, que perguntou a ele sobre um possível Clube de Leitura na Penitenciária Feminina de Santana, onde ele é médico voluntário. Para quem não se lembra, o Drauzio fez por muitos anos o mesmo trabalho no Carandiru. Ele foi simpático à proposta e sugeriu que antes de mais nada conversássemos com a direção do presídio.

Reunião marcada, apresentamos a ideia: uma vez por mês, promoveríamos um bate-papo literário com um grupo de internas. Mandaríamos os livros e depois de trinta dias chegaríamos com os mediadores. Soubemos que havia dezesseis detentas que trabalhavam como monitoras, ou seja, professoras multidisciplinares que ensinavam outras internas com escolaridade incompleta. Acordamos que esse seria o primeiro grupo. A questão agora era a escolha do livro.

Mas como fazer isso sem conhecer o grupo? Pedi sugestões a vários colegas, fiz anotações, li trechos de livros. Pensei em vários títulos mas não conseguia me decidir. A gente não podia errar. A certa altura, o Thyago Nogueira, nosso colega editor, mencionou alguns autores da casa, entre eles, o Milton Hatoum. Quando ouvi o nome do Milton tive um estalo. Claro, poderíamos começar com o Dois irmãos.

Naquele instante, por vários motivos, achei que daria certo. Uma história de família com personagens bem construídos, um romance sofisticado mas com uma linguagem clara, a figura de uma mãe apaixonada e possessiva, um filho problemático. Fechamos nesse livro. Embora eu pressentisse fortemente que poderia dar certo, não havia como ter certeza — o primeiro livro nos clubes de leitura é sempre um tiro no escuro.

O resultado, porém, não poderia ter sido melhor. O grupo é formado por mulheres inteligentes e de muita opinião, e a discussão enveredou por vários caminhos — os personagens, a temporalidade do romance, as dificuldades na leitura, a angústia que o livro provocou. Uma delas lamentou que não houvesse um final feliz, outras rebateram o argumento. Alguém estranhou os nomes dos personagens (Rânia, Yaqub, Zana), outras ficaram intrigadas com a identidade secreta do narrador. E nessa toada seguimos até o fim. Saímos do encontro felizes e animados. Acho que elas também. A estreia tinha sido muito boa.

O próximo clube acontecerá em outubro, e dessa vez mudamos radicalmente a proposta. A essa altura elas já começaram a ler A sociedade da neve, de Pablo Vierci. O livro é baseado no acidente de um avião nos Andes em 1972. Dos 45 tripulantes, apenas dezesseis pessoas, sem roupa apropriada nem comida, depois de 72 dias, a trinta graus abaixo de zero, conseguiram se salvar. Esse livro é a versão de cada um dos sobreviventes para o acidente, 33 anos depois. É uma história inacreditável e muito bonita. Veremos como elas, ou melhor, como nós nos sairemos nesse segundo encontro.

* * * * *

Vanessa Ferrari é editora assistente da Companhia das Letras.

26 Comentários

  1. Sou autor de um livro, lançado em 2014, na Bienal do Livro, chamado “SE PRECISAREM DE MIM, ME CHAMEM” onde narro historia real de vida com experiências que podem ser uteis para outras pessoas, principalmente na parte do controle emocional, de grande utilidade para se obter mudanças na vida. Gostaria de ter uma opinião se o livro serviria para a leitura nos presídios. Grato

  2. […] quinze dias, a Vanessa Ferrari me pediu para ir com ela ao clube de leitura na Penitenciária Feminina de Santana. Aceitei na mesma hora e li Sociedade da neve em três dias, o que me possibilitou viver uma […]

  3. Fátima Pighinelli Ázar disse:

    Parabéns pela iniciativa…vida longa ao Clube! Jeanine, você sempre nos surpreendendo…adoro seu entusiasmo, sua alegria e dedicação ao seu trabalho…aos 51 posso dizer com muita certeza que pelo trabalho, com sentido, transformamos a nós mesmos, aos outros e as coisas ao nosso redor. Tenho certeza de que cada um(a) saiu desta experiência transformado e, por meio das leituras, somos capazes de transcender… Agora, que vocês viajem (na próxima leitura)até as cordilheiras…
    Um grande beijo da amiga e vizinha
    Fátimapi

  4. […] quinze dias, a Vanessa Ferrari me pediu para ir com ela ao clube de leitura na Penitenciária Feminina de Santana. Aceitei na mesma hora e li Sociedade da neve em três dias, o que me possibilitou viver uma […]

  5. Roberta Resende disse:

    Fantástica iniciativa, parabéns. Longa vida ao Clube!

  6. erony marcelino disse:

    Importante iniciativa para promover a auto estima de pessoas que, por infelicidade, tiveram suas vidas transformadas. Nem sempre um prisioneiro (a) é uma pessoa de má índole. No calor de um estado emocional qualquer um pode cometer um crime pelo qual se arrependerá pelo resto da vida, mesmo tendo cumprido pena, jamais sairá da lembrança um ato insano, triste, que nunca deveria ter acontecido e acontece. O ser não necessariamente é humano. Todos tem uma parcela de irracionalidade escondida. Um deslize e a vida muda. Por isso, acho importante iniciativas como essa para tornar mais ameno o castigo de quem errou mas merece uma chance de ser tratado novamente como criatura sujeita também a acertos, a amar e continuar sendo amada e respeitada por todos. Ninguém está livre de um ato de insanidade num hora infeliz.
    Parabéns e que essa iniciativa possa ajudar a todos que merecem.

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