11 de novembro de 2011

Por Tony Bellotto

(Foto por Sphaerula)

Em Diário De Um Fescenino, de Rubem Fonseca, Rufus, o narrador, anota em 1º de janeiro de um ano indefinido: “O bom diarista”, disse Virgínia Wolf, “é aquele que escreve para si apenas ou para uma posteridade tão distante que pode sem risco ouvir qualquer segredo e corretamente avaliar cada motivo. Para esse público, não há necessidade de afetação ou restrição”.

Em 1º de janeiro de 1975, Juan García Madero, um dos poetas real-visceralistas de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, registra: Hoje percebo que o que escrevi ontem na verdade escrevi hoje: tudo que correspondia a 31 de dezembro escrevi no dia 1º de janeiro, isto é, hoje, e o que escrevi dia 30 de dezembro é o que escrevi dia 31, isto é, ontem. Na realidade, o que estou escrevendo hoje escrevo amanhã, que para mim será hoje e ontem, e também de certo modo amanhã: um dia invisível. Mas sem exagerar.

Em seu Diário de um ano ruim, J.M.Coetzee, em algum momento entre 12 de setembro de 2005 e 31 de maio de 2006, após a releitura atenta do quinto capítulo da segunda parte de Os irmãos Karamazov, confessa: E fica-se grato à Rússia também, à Mãe Rússia, por colocar diante de nós com uma certeza tão inquestionável o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menor chance de chegar lá: o padrão do mestre Tolstói de um lado e o do mestre Dostoiévsky do outro.

Enrique Vila-Matas, na quarta parte de O mal de montano, denominada Diário de um homem enganado, escreve no dia 25 de setembro: Em princípios do século 21, como se meus passos tivessem o ritmo da história mais recente da literatura, achei-me solitário e sem rumo numa estrada perdida, ao entardecer, em marcha inexorável para a melancolia.

Na reunião dos diários de João Carlos Oliveira, o genial e maldito cronista e romancista capixoca (capixaba que se torna carioca), Diário selvagem, o diarista anota em 24 de julho de 1977, um domingo, às 17h: Gastrite outra vez. Solidão de tudo, carência de buceta, pra falar com clareza. Já em 12 de janeiro de 1981, ele afirma: É assim que quero este diário: tudo dito, nada retórico.

Anne Frank, talvez a mais célebre e trágica das diaristas, confidencia ao próprio diário em 12 de junho de 1942: Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim.

Vasculho meus diários, encontro frases desprovidas de encanto e sentido: 10 de dezembro de 2004, não esquecer de ligar Beth Bradesco (aplicação). 9 de maio, sábado, inauguração do bar de Antônio Torres, Letras e Expressões do Leblon. 16 de maio, “Posso ser sincero?” “Não. Claro que não”. 15 de setembro, “Se você encontrar um advogado com raiva, fuja dele”, Dr. Dario.

Por onde andavam Tolstói e Dostoiévsky em 2004?

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

10 Comentários

  1. Laís Bastos disse:

    Eu queimei o único diário que tive!

  2. Silvio disse:

    Eu não tinha um diário cronológico, eu tinha um onde escrevia quando sentia vontade, raiva ou tesão. Era uma mistura de ideias e vontades, desejos e sonhos. Ou apenas um monte de palavrão junto por estar com raiva de alguma coisa.

    Escrevi muito quando sai do interior e fui parar em são paulo, estudar na usp. Na bagagem sempre levei as músicas dos titãs que sempre traziam uma letra, uma melodia que me ajudava a passar o dia.

    E numa vez onde morava (de favor), a pessoa que era dona do apto fuçou nas minhas coisas e achou meu diário. Leu, xerocou o que achou absurdo e foi tirar satisfações com meus pais. Na época lembro-me bem era apaixonado por uma das filhas deles e no diário, obviamente enaltecia formas e exercitava a mente nas fantasias. Xingava quando queria e desejava o quanto queria.

    Sai do apto. Mudei minha vida, cresci e ouvindo Titanomaquia me consolando com nem sempre se pode ser deus e sera que é disso que eu necessito mandei todos tomarem no cu e toquei a vida pra frente.

    Hoje mais velho, cabelos brancos aparecendo e filhos, penso em escrever para eles, e mostrar um pouco o que o pai dele era, é e pretende ser um dia.

  3. Davi B. disse:

    Uma pseudoterapeuta certa vez me mandou queimar os diários. O passado deve ser passado, ela me disse, filosófica. Não só não queimei os diários, como larguei suas consultas: não confio em quem usa jalecos brancos demais.

  4. Daniel Aço disse:

    Escrever um diário, com regularidade e entusiasmo ou melancolia, é já uma obra meritória. Seu autor, mesmo não tendo reconhecimento literário, deveria ganhar algum Jabuti pelo esforço e a coragem. No mais, eis o pior, ninguém sai impune da vida: cada registro nosso é uma pista do diário que involuntariamente escrevemos. Todos saberão a nossa vida, pelo menos parte dela. Fato melancólico, sem dúvida. Sem dúvida.

  5. Rody Cáceres disse:

    Tony, o importante é que os Titãs fazem parte da história do Rcok nacional, e era uma das bandas mais pesadas da época… O meu comentário é só um brincadeira, ficção, nada de mais… Hoje eu estava no ônibus pensando no meu comentário e lembrando da introdução de “Flores”… Realmente é algo diferente, nunca imaginei que tivesse um violão ali… E a comparação com o PAPA É POP foi outra brincadeira, pois o Licks tirou um dos piores timbres de guitarra do BRock…

    Grande Tony!

    Por andavam Freud e Jung?
    eheheheeh!

  6. Tony Bellotto disse:

    Rody: isso é um elogio? Se for, obrigado. Gosto tanto do timbre de minha guitarra em Flores…o que se ouve ali, na realidade, são duas guitarras e dois violões dobrados, ou seja, tocados ao mesmo tempo, e considero aquele timbre, assim como aquele riff, um dos pontos altos da minha carreira, uma verdadeira, se me desculpe a comparação esdrúxula, buceta com U. Não sei por onde andavam – e andam – Angus Young e Tony Iommi, assim como Tolstói e Dostô (e o próprio Simenon). Se soubesse, talvez estivesse imobilizado ou fazendo crítica musical ou literária.

    Bruna: o primeiro livro que li do Bolaño foi o Putas Assassinas, contos sensacionais, que fazem você entrar em contato com a obra dele em doses pequenas. Depois passe ao Os Detetives Selvagens e então esbalde-se com 0 2666. Ou não, claro.

  7. Marco Severo disse:

    Mesmo que tenham vindo tarde, antes tarde do que nunca, já diz o chavão. Autocrítica é isso aí.

  8. Bruna Célia disse:

    Tony, qual livro do Bolaño você indica para que eu me aventure nas linhas bem traçadas desse astro? Eu queria começar com 2666, mas será que é uma boa pedida?

    Aguardo sua dica. Aliás, você tem um mês pra me dar uma boa dica, pois novembro é mês de Liberdade, do Franzen. =)

    Beijos,
    Bruna Célia

  9. Rody Cáceres disse:

    “Por onde andavam Angus Young e Tony Iommi”, sem os artigos, por favor… O cara acha que escreve.

  10. Rody Cáceres disse:

    11/11/11: Hoje li uma crônica de um esccritor e músico bastante famoso em meu país. Seu texto vai bem, seu último livro tem uma das introduções mais inusitadas da literatura: boceta grafada com “u”. Acompanho seu trabaho no blog da Cia. das Letras, uma das maiores editoras do Brasil, reponsável pela formação literária de 90% dos mais exigentes leitores tupiniquins. Sinto sono, o almoço caiu como um bomba e o Eno mais próximo fica a meia hora daqui… Bem, o Belloto – autor da crônica – escrevia romances policiais que eu detestava, porém seu último livro fugiu dessa fixação simenônica e para mim é o seu melhor trabalho, mesmo se comparado aos riffs e solos que gravou com sua banda. Talvez alguns dos piores timbres de guitarra do Rock nacional estejam nos primeiros discos dos Titãs (o que é aquela guitarra de “Flores”?)e no O PAPA É POP, dos Engenheiros do Hawaii. Se o Tony Belloto lesse essa comparação com os Engenheiros, provavelmente largaria a música para sempre… Por onde andavam o Angus Young e o Tony Iommi?

Deixe seu comentário...





*