Cada um com a sua cordilheira

Por Janine Durand

Chegada do helicóptero de resgate depois de 72 dias na montanha. (Arquivo de imagens do jornal El Pais)
Chegada do helicóptero de resgate depois de 72 dias na montanha. (Arquivo de imagens do jornal El Pais)

Trabalho com os clubes de leitura desde setembro de 2010. Há dois meses estou de licença-maternidade, cuidando do pequeno Henrique, e aproveitando também para ficar mais tempo com a minha filha Gabi, hoje com sete anos.

Há quinze dias, a Vanessa Ferrari me pediu para ir com ela ao clube de leitura na Penitenciária Feminina de Santana. Aceitei na mesma hora e li Sociedade da neve em três dias, o que me possibilitou viver uma experiência tripla, que gostaria de compartilhar com vocês. A primeira foi deixar o Henrique durante a tarde inteira, organizar a questão do leite e exercitar meu desapego. A segunda foi a de ler um livro incrível de que não esquecerei tão cedo e que pretendo reler um dia, o livro está até agora reverberando em mim. E a terceira, tão importante quanto as outras duas, foi a ida à penitenciária, o contato com as detentas, a sensação de estar colaborando com o processo de leitura e reflexão de pessoas que estão tendo a oportunidade única de parar uma hora por mês para falar de literatura, compartilhar impressões e saírem transformadas ao final do clube — em menor ou maior grau (o que nos inclui, é claro!).

O clube, que ainda está se constituindo enquanto grupo, teve momentos marcantes. Algumas frases ainda ecoam em mim, e me arrepiam ou emocionam. Com as coisas simples que os sobreviventes passaram a lembrar e valorizar, as mulheres tiveram grande identificação. Uma delas disse: “Aqui é a mesma coisa, às vezes lembro como seria bom, num dia desses de calor, dar um gole numa Coca gelada”; a outra emendou: “Aqui valorizamos um pedaço de papelão, uma embalagem de cigarro vazia…”. Quando falávamos da reinserção dos sobreviventes na sociedade, mais um comentário emocionante: “Me identifiquei quando eles falavam que não pertenciam nem à sociedade dos mortos nem à da dos vivos, também tenho receio de como será quando eu sair daqui, sinto vergonha, fico pensando na volta para casa…”, e não conclui, se perde em seus pensamentos.

Um ponto bastante comentado foi a solidariedade entre os sobreviventes na situação limite, o que também gerou bastante identificação e uma outra integrante do clube informou: “Aqui é igual, quando alguém fica doente na cela, todo mundo cuida dessa pessoa”. Fazendo um paralelo entre o livro e a realidade delas, mais uma frase que demonstra bastante autocrítica: “A diferença entre nós e eles é que nós escolhemos estar aqui, eles não tiveram escolha”. Num dos momentos em que todas falavam, quase ao mesmo tempo, escutei várias vezes “nós vamos conseguir escalar a nossa cordilheira”… e quando lembro fico sem fôlego, de fato cada um tem a sua, não é?! Em um dos momentos que para mim foi bastante emocionante, uma das detentas nos contou que no dia anterior tinha sofrido a sua própria avalanche, e que ainda estava debaixo da neve, pois após viajar sete horas num camburão em que os detentos ficam num espaço minúsculo e escuro, soube que provavelmente não sairá em dezembro, como previa, e que deve sofrer mais uma condenação. E neste momento ela chora… e as outras dizem: “Você vai conseguir, vai escalar…”. Esta mesma mulher ao final do clube se dirige a mim para agradecer a oportunidade de participar do clube, e quando digo para ela ter força, ela desaba nos meus braços.

Saio de lá grata pela oportunidade de troca, grata por fazer parte deste projeto com tantas pessoas comprometidas e interessantes (dentro e fora da editora), tantas apostas pessoais e institucionais. Saio também pensando que todo mundo precisa de novas chances, que a maioria das pessoas está sedenta por viver novas experiências, e o clube, a literatura é um caminho possível. Parabéns para a Van que é uma mediadora incrível, e que venham outras mediadoras e mediadores. Vida longa aos clubes de leitura!

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Janine Durand é coordenadora dos Clubes de Leitura Penguin-Companhia.