Independentes

Por Érico Assis


(Foto Glenio Campregher)

Os traços de Lu Cafaggi, em Mix Tape, parecem pingos de vinho rabiscados sobre o papel creme. Seus personagens acordam com passarinhos, conversam com a Patti Smith, adoram música assobiada e os cheiros que vêm da cozinha. E soltam pum.

Irmão da Lu, Vitor Cafaggi conta em Duo.tone o momento da infância em que você precisa trocar as antigas aventuras pelas novas. Já Rafael Coutinho troca a infância pelo Beijo Adolescente, aquela época onde só entende o mundo quem tem a sua idade. A juventude contagia até a narrativa, que tem mais a ver com um tumblr ou editorial de moda — talvez o quadrinho mais apropriado para o ritmo de 2011.

Para conter este ritmo, O Beijo Adolescente tem 40x24cm, como aqueles altos cardápios de lanchonete. Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo vol. 2, de Pedro Franz, tem tamanho mais contido, mas as páginas vêm soltas num envelope. O leitor fica à vontade para montar a ordem de leitura que lhe aprouver.

Murilo Martins resume em Love Hurts o boy-meets-girl-boy-loses-girl em gráficos indispensáveis à parede do quarto dos corações partidos. Ele adora(va) R.E.M., idolatra Chris Ware e revela nos cantos de página a ditadura da namorada-editora-hauptmann Alessandra. Outras referências — Herculóides, Peanuts e Deus — encontram-se nas memórias do protagonista de “Viagem ao Centro dos 2.000 Eus”, na Primeira Edição de Odyr, que se prepara para enfrentar o maior vilão da história: Julio Verne.

Ryot revela os paradoxos da vida, da carreira, dos videogames, de Monet e de Jaspion nas Ryotiras. Os Birds de Gustavo Duarte enfrentam a própria Morte, obcecada por decapitação. O herói de Neeb, de Eduardo Medeiros, enfrenta robôs gigantes num planeta-prisão. Em EP, de Dalts e Magentaking, um duelo de guitarras mexe com roqueiros, públicos, estruturas e forças arcanas. De repente, os acordes mandam tudo pelos ares. Até os próprios quadros, que se espalham pela página.

Cynthia B., tanto na Golden Shower n. 2 quando em Bananas, fala para mulheres que já estão muito além das desilusões românticas e da liberação sexual. “A maior noite de sexo-furada na minha vida foi infinitamente melhor do que a melhor noite no Facebook”, conta, depois de revelar o tesão pelo irmão da amiga e citar Leila Diniz.

E Pedro Cobiaco, discípulo tanto do pai quanto de Rafael Grampá, desenha nervoso os serial killers que sofrem lavagem cerebral do governo num futuro onde todos têm que andar dentro de Bolhas. A história envolve tensão suada no bar, nas ruas, na mansão do ricaço de dedo médio erguido para a cidade. Pedro tem 15 anos.

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Desde que Robert Crumb saiu com o carrinho de bebê para distribuir a Zap Comix, a tradição do quadrinista que sofre, pensa, escreve, desenha, sofre, edita, fecha arquivo, manda pra gráfica e vende de mão em mão nunca foi mais forte e brasileira. Todos os quadrinhos acima — só uma amostra do que se encontrava no 7º FIQ, em Belo Horizonte  — foram feitos desta forma. A mesma mão criativa era a que via o troco e desenhava o autógrafo.

A discussão da utilidade da editora sempre surge quando se vê a quantidade, qualidade e variedade destes independentes. É uma discussão longa. Cinco dos autores acima, por exemplo, já publicaram ou publicarão pela editora deste blog, mas não deixam de publicar independentemente. As editoras, claro, não publicam tudo que um autor quer, nem exatamente da forma que um autor quer. Por outro lado, fazem revisão, preparação, diagramação, negociação com gráfica, divulgação na imprensa, distribuição, controle das vendas, logística de reimpressão e dão adiantamento, entre outras benesses — idealmente deixando para o autor só o criar e o sofrer.

Para complicar mais o debate, Um Outro Pastoreio e Achados e Perdidos são quadrinhos com toda apresentação e apuro gráfico de uma publicação de editora (e maior ousadia: muito bons) cuja edição foi financiada por crowdsourcing. Achados, por exemplo, foi financiado por mais de 500 pessoas que leram o primeiro capítulo na internet e pagaram antecipado para ver o resto.

A única certeza quanto aos independentes é que eles renovam o cenário. As editoras fazem reuniões, conferências, feiras, artigos e pesquisas para moldar o catálogo ao que sua ideia de público quer, enquanto os indies explodem loucos nas suas taras e vontades (até o limite do bolso dos amigos/familiares/cônjuges e do regateio com a gráfica), construindo leitores no charme e na ousadia. Leitores que as editoras posteriormente sem dúvida vão aproveitar.

Se essa simbiose continuar gerando quadrinhos como os da lista acima, tanto melhor não só para autores e editoras — mas também para quem lê.

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Todos os nomes dos livros e revistas acima são links. Se gostou da descrição, clique, conheça mais e compre direto do autor. Não esqueça de pedir o autógrafo, pois nada se compara a autógrafo de quadrinista.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

6 Comentários

  1. […] Altuna estava na FIQ. Queria falar com ele sobre esta página, mas duvidei que fosse conseguir, em portunhol, fazê-lo […]

  2. Foda cara!
    Foi massa nos revermos.
    o/\o

    abração!

  3. Arthur disse:

    Sua coluna sempre super ótima (como diria uma amiga) e extremamente maravilhosa (como diria um amigo) — vivemos tempos de exacerbação.

    Curti bastante.

  4. Arthur disse:

    E a curiosidade pra saber quem, além do Coutinho, são os outros 4…

    Queria MUITO que o Pedro Franz tivesse na lista. Acho que tinha tudo a ver.

  5. Pedro C. disse:

    Pô Érico, brigadão por me citar no meio desse monte de feras do quadrinho independente, que me ensinaram muito nesses cinco dias de evento, muito mesmo.

  6. Diana disse:

    Outra coisa que foi legal dos independentes: o tanto de vezes que eu ouvi os autores dizendo “no final tem meu blog, se gostar do trabalho entra lá”.

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