~798 quadrinhos para ler antes de morrer

Por Érico Assis

1001 comics you must read before you die — ou “1001 quadrinhos para ler antes de morrer” — pesa pouco menos que um recém-nascido e, assim como o bebê, cumpre a função de encantar as visitas. Não vai precisar de quarto nem berço, só de um espaço na mesinha de centro ou na estante da sala, desde que de madeira sólida.

Assim como toda a linha 1001, ou assim como toda lista pop associada a obrigações e morte, esta é feita para ser folheada e admirada com inveja por quem  já teve o ócio de fazer seus 10-mais. Quanto a sua utilidade enquanto guia, bom, aí é com você. Talvez o propósito seja só gerar discussão sobre o que entrou, o que não entrou, o que não devia ter entrado etc, e isso já seria válido. Até Paul Gravett, o editor inglês que montou o livro com 67 colaboradores, admite que não leu todos os 1001.

O que eu queria mesmo saber quando o livro foi anunciado era quais os critérios que Gravett e companhia teriam adotado para singularizar os quadrinhos. Os 1001 discos são perfeitamente divisáveis, os 1001 filmes começam no primeiro fotograma e terminam no último, assim como cada um dos 1001 livros tem primeira e última página. Quadrinhos complicam.

Porque se você for individualizar uma HQ enquanto revista ou álbum, muitas histórias não ficam completas sem a revista ou álbum seguinte (ou anterior). Se você restringir às graphic novels ou coleções, obrigatoriamente com início, meio e fim, vai cortar milhares de bons quadrinhos que nunca viraram coleção nem nasceram graphic novel. Lobo Solitário forma uma história completa em 6000+ páginas; se existisse em livro único, você não ia conseguir abri-lo, e os 28 tankobons do mangá comeriam quase 3% da lista. Uma tira de jornal, por mais brilhante que possa ser individualizada em seus três ou quatro quadros, não existe fora da experiência da publicação diária ou da leitura em sequência. Vai recomendar só uma tira do Laerte?

A solução dos listeiros do 1001 Comics: fazer de conta que isso não é problema. De forma que há verbetes que dizem apenas “Turma da Mônica”, “Superman”, “Batman”, “Diabolik”, “Peanuts” etc. O que me sugere que, antes de morrer, devo atravessar os respectivamente 41, 73, 72, 49 e 50 anos de publicação destes personagens. Sem considerar, ainda, que eu não sou imortal e eles não vão dar bola se eu morrer antes de sair a última história do Batman. Ah, e “Sobrinhos do Capitão”, 114 anos e contando, também está lá.

Por outro lado, evidenciando o descaso quanto a critérios, Tintim tem 5 álbuns selecionados (Tintim no Tibete, A lótus azul, As 7 bolas de cristal, O segredo do licorne e As joias da Castafiore), assim como Tio Patinhas e Pato Donald, só aparecem em histórias devidamente nomeadas. Mafalda é Toda Mafalda. Mais à frente, Batman e Superman ganham histórias selecionadas além do verbete genérico. E a Mad ganha tanto o verbete Mad (ou “leia todas as edições da Mad desde 1952″) quanto a coleção de Don Martin na Mad. Em páginas irmãs, um colaborador seleciona toda a Contos da Cripta, enquanto outro faz o favor de dizer qual é a melhor história de Young Romance (“The Girl Who Tempted Me”).

Ok, eu sou um chato completista com TOC. Mas sou um chato completista com TOC que comprou o livro, então quero respeito e objetivos realistas antes da morte chegar. Pelas minhas contas obsessivo-compulsivas — ou seja, “Superman” não entra —, tenho 798 quadrinhos pela frente. Com 53 anos sobrando, acredito que minha pressa se justifique. Critérios já!

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Para conhecer a lista dos 1001 quadrinhos, clique aqui.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

5 Comentários

  1. […] a Salon, o Financial Times e outros derreteram-se. Foi até acréscimo de última hora nos 1001 Quadrinhos para Ler Antes de Morrer. E um dos primeiríssimos comentários sobre o álbum veio de Sean T. Collins, que fez todos os […]

  2. Bruna disse:

    Posso dar minha singela opinião em relação aos quadrinhos japoneses. Listar Yu Gi Oh! ao invés de YuYu Hakusho ou xxxHolic ao invés de X-1999 (que é inclusive das mesmas autoras de Holic) é cometer um erro tremendo.
    Fiquei surpresa (de modo positivo) por constar Maison Ikkoku na lista, ainda que decepcionada por não terem incluído outros títulos da Rumiko Takahashi (e aqui não estou pensando em InuYasha). E surpresa (de modo negativo) por Naruto constar na lista. Talvez seja apenas pelo sucesso…

  3. Rogério Rezende disse:

    Oi, Érico.
    Diz um provérbio que: quem tem medo de pisar no pântano, deixa de colher belas flores.
    Pântano, não é apropriado para o caso, mas, apenas flores. Interprete “pântano” como: ausência de incentivo, ou coisa parecida.
    Uma amiga começou um projeto de leitura com HQs, numa escola cravada numa comunidade pobre e de risco social.
    Seu interesse era melhorar a leitura dos seus alunos, assim, nem todos os alunos da escola participaram.
    No final deste ano os índices de rendimento escolar dos alunos que participaram do projeto foram muito bons. Todos melhoram as notas na maioria das matérias. Português também.
    E teve as flores. As mães e pais dos alunos, que, não liam praticamente nada, também entraram no projeto de forma “oficiosa”, começaram a ler as HQs que os filhos traziam para casa.
    Ela fez um vídeo com as crianças contando as experiências. Ficou muito legal.
    Isso é só um exemplo que HQs é um dos melhores instrumentos para melhorar o ensino aprendizagem e expandir a cultura dos alunos, principalmente aqueles que vivem em condições de poucos recursos materiais para comprar HQs.
    Ah, a escola é pública, e os HQs, que virou uma “HQueteca” (desculpe) foi adquirida com recursos do PDE.

  4. Gostei do texto divertidissímo…hehe ^^

    Abraço! ;)

  5. Arthur disse:

    798 ainda é quadrinho a beça. Pruma vida inteira.

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